Da anistia ao palanque: Caetano volta às ruas, agora patrocinado pelo sistema

Da anistia ao palanque: Caetano volta às ruas, agora patrocinado pelo sistema

O cantor que ontem pedia perdão hoje grita “sem anistia” — com ato político, microfone aberto e patrocínio estatal

Caetano Veloso, que já cantou sobre liberdade, perdão e reconciliação, resolveu vestir novamente o figurino de líder político das multidões. Neste domingo (14), a partir das 14h, o artista convoca mais um ato nas ruas do Rio de Janeiro, em Copacabana, com o slogan pomposo de “devolver o Congresso ao povo”. Um discurso que soa bonito no refrão, mas que desafina quando se olha o contexto.

Batizado de “Ato Musical II: O Retorno”, o evento é uma reação ao PL da Dosimetria, projeto aprovado pelo Congresso que revisa o cálculo de penas e pode reduzir condenações relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Para Caetano e seus aliados ideológicos, qualquer discussão sobre proporcionalidade de pena virou automaticamente sinônimo de ameaça à democracia — desde que beneficie o lado errado da história, claro.

O protesto seletivo e o silêncio conveniente

O tom é conhecido: gritos de “sem anistia”, discursos inflamados e a velha narrativa de que o Congresso precisa ser “resgatado”. Curiosamente, não há indignação quando o próprio Judiciário extrapola, quando decisões monocráticas substituem o debate público ou quando garantias legais viram exceção permanente. A democracia defendida aqui parece ter lado, CEP e alinhamento político.

E há uma ironia impossível de ignorar: o mesmo Caetano que hoje condena qualquer ideia de anistia já defendeu o perdão em outros momentos da história, quando o clima político era mais confortável para sua turma. O conceito muda conforme o vento — ou conforme o público.

Rebeldia patrocinada

Outro detalhe chama atenção: o artista que se apresenta como voz contra o “sistema” faz shows bancados pelo próprio sistema, com patrocínio do Banco do Brasil, estatal ligada ao governo federal. É a rebeldia financiada, o protesto com apoio institucional, a contestação que não ameaça o caixa nem o poder.

Em setembro, Caetano já havia liderado atos contra a chamada PEC da Blindagem, reunindo medalhões da MPB em manifestações que misturam música, política e uma boa dose de nostalgia de um Brasil onde esses artistas ditavam o tom do debate público. Agora, o roteiro se repete.

No fim das contas

O ato deste domingo não é apenas um protesto. É um símbolo de como parte da elite cultural brasileira se enxerga como guardiã exclusiva da democracia, autorizada a apontar culpados, exigir punições eternas e ocupar as ruas — desde que a pauta esteja alinhada com o poder vigente.

A pergunta que fica não é sobre música ou talento artístico, mas sobre coerência: quando a democracia vira instrumento seletivo, ela deixa de ser princípio e passa a ser discurso. E discurso, como se sabe, muda fácil — especialmente quando há palco, aplauso e patrocínio garantido.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags