
Derrite assume projeto de Lula contra facções e irrita petistas: “Desrespeito com o presidente”
Indicação feita por Hugo Motta entrega a um aliado de Tarcísio de Freitas a relatoria do projeto antifacção do governo. Derrite promete “endurecer penas”, enquanto o PT fala em provocação e sabotagem política.
A escolha do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto de lei do governo Lula contra o crime organizado caiu como uma bomba em Brasília. O anúncio, feito pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), gerou desconforto entre aliados do Planalto e acendeu o alerta dentro do PT.
Derrite, que é secretário de Segurança Pública de São Paulo no governo de Tarcísio de Freitas, se licenciou do cargo apenas para reassumir temporariamente o mandato de deputado e cuidar da proposta. A manobra política foi vista com desconfiança por petistas, que não engoliram bem a decisão.
“Anuncio que o deputado Derrite será o relator do PL 5582/2025, enviado pelo governo federal e que se tornará o novo marco legal de combate ao crime organizado”, escreveu Motta nas redes sociais, como quem anuncia uma vitória estratégica.
Mas o clima ficou tenso logo depois. O próprio Derrite adiantou que pretende mudar o texto original do governo, prometendo penas de 20 a 40 anos de prisão para crimes cometidos por membros de facções, com agravantes para líderes. Ele também quer endurecer as regras de progressão de regime e obrigar o cumprimento de penas em presídios de segurança máxima.
“O momento é de deixar o palanque e dar resposta ao grito de socorro da população”, afirmou Derrite, em tom de confronto político, reforçando a ideia de que seu relatório não será apenas uma revisão técnica — mas uma nova proposta com a marca da oposição.
O texto original, enviado por Lula no fim de outubro, previa a criação do crime de organização criminosa qualificada, aumento de penas e a implantação do Banco Nacional de Organizações Criminosas. A intenção do governo era modernizar o combate às facções sem ceder ao discurso punitivista que marca parte da oposição.
A reação do PT foi imediata. O líder da bancada na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), classificou a escolha como “um desrespeito com o presidente Lula”. “Colocar nas mãos do secretário de Tarcísio um projeto prioritário do governo é uma provocação. Parece uma tentativa deliberada de atrapalhar a pauta da segurança pública”, criticou o deputado.
A presidente do partido, Gleisi Hoffmann, também não poupou críticas. Para ela, a decisão “contamina o debate com interesses eleitorais” e enfraquece o diálogo entre o Executivo e o Legislativo.
Nos bastidores, a escolha de Motta é vista como um gesto político calculado: entregar um projeto do governo nas mãos de um adversário pode significar tanto uma tentativa de neutralizar o PT quanto de testar a força do Planalto dentro da Câmara.
Enquanto isso, Derrite se mantém firme no discurso de que “vai endurecer o combate ao crime”, e o governo assiste, entre indignado e impotente, a mais um capítulo da disputa entre Brasília e São Paulo — agora travada em torno do tema mais sensível de todos: a segurança pública.