Dois que se evitavam agora trocam juras: Lula e Alckmin redescobrem o “amor” pelo poder

Dois que se evitavam agora trocam juras: Lula e Alckmin redescobrem o “amor” pelo poder

Depois de flertar com o descarte do vice, presidente muda o discurso, enche Alckmin de elogios e mostra que, na política, antigas rusgas viram afeto quando a reeleição entra em jogo

Quem acompanha a política brasileira sabe: alianças por convicção são raras, mas alianças por sobrevivência são regra. Prova disso é a mais recente reviravolta no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o vice-presidente Geraldo Alckmin. Dias depois de admitir publicamente que poderia deixá-lo fora da chapa da reeleição, Lula resolveu puxar Alckmin para perto — no discurso e no palco.

Durante o evento de aniversário do PT, em Salvador, o presidente fez questão de exaltar o vice, como se a dúvida recente nunca tivesse existido. Disse ter “sorte” na escolha de seus companheiros de chapa e comparou Alckmin a José Alencar, vice histórico de seus primeiros mandatos. A plateia ouviu elogios em série, embalados por um tom quase nostálgico, como se a aliança fosse fruto de afinidade política — e não de cálculo frio.

No encerramento do discurso, Lula chamou Alckmin ao palco e resolveu ironizar o passado. Lembrou que ninguém jamais imaginaria os dois juntos, como se essa união improvável fosse uma obra da arte política — ou, traduzindo, da necessidade eleitoral. Onde antes havia desconfiança e distância, agora há respeito, admiração e discursos emocionados. Tudo muito conveniente.

O problema é que o afago público veio logo depois de Lula acenar com a possibilidade de trocar o vice para agradar o MDB. Em entrevista recente, o presidente deixou claro que Alckmin, Fernando Haddad e Simone Tebet “têm um papel a cumprir” nas eleições, especialmente em São Paulo. A mensagem foi direta: quem não servir ao projeto pode ser reposicionado — ou descartado.

A pressão é clara. O PT quer ampliar alianças, garantir palanques fortes nos estados e manter o controle do jogo nacional. Nesse tabuleiro, Alckmin vira peça estratégica, mas também negociável. Não por acaso, o vice já sinalizou a aliados que não tem interesse em disputar cargos em São Paulo, estado que governou por anos. Ainda assim, parte do PT insiste em empurrá-lo para a linha de frente.

O PSB, partido de Alckmin, defende sua permanência como vice e trata o cargo como essencial para o equilíbrio da chapa. A discussão será levada diretamente a Lula nos próximos dias, numa conversa que deve deixar claro até onde vai o “amor” político — e onde começa o pragmatismo cru.

No fim das contas, o episódio escancara uma velha verdade: na política brasileira, adversários históricos viram aliados, aliados viram obstáculos e discursos mudam conforme a conveniência. Ontem, Lula e Alckmin se estranhavam. Hoje, se elogiam. Amanhã, tudo dependerá do poder — porque é ele, e não a coerência, que dita o tom dessa relação.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags