
Em meio à crise no STF, Fachin intensifica articulações e se reúne com Gonet, Moraes, Mendonça e outros ministros
Presidente do Supremo mantém uma agenda de conversas individuais enquanto tenta administrar a mais grave crise interna da Corte em anos; reuniões ocorrem às vésperas da sessão que poderá definir o destino das apurações envolvendo Alexandre de Moraes
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, intensificou nos últimos dias uma série de reuniões individuais com integrantes da própria Corte e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em meio à escalada da crise institucional que envolve os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
A movimentação ocorre justamente quando o Supremo tenta encontrar uma saída para um conflito que deixou de ser apenas uma divergência entre ministros e passou a envolver decisões judiciais conflitantes, relatórios da Polícia Federal, pedidos de investigação, questionamentos da Procuradoria-Geral da República e suspeitas relacionadas ao caso do Banco Master.
Segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico, Fachin manteve conversas com Gonet, Moraes, Mendonça e outros quatro ministros. A sequência de encontros demonstra o esforço do presidente da Corte para ouvir diferentes posições antes de tomar decisões capazes de produzir consequências institucionais relevantes.
A estratégia de Fachin ocorre paralelamente à preparação para a sessão do plenário marcada para 15 de setembro, quando os ministros deverão analisar o relatório da Polícia Federal relacionado a Alexandre de Moraes e o pedido da PGR para que o documento seja considerado nulo.
Fachin no centro da crise
Ao assumir a presidência do STF, Fachin passou a ocupar uma posição particularmente delicada. De um lado, precisa preservar a independência dos ministros e o funcionamento regular da Corte. De outro, precisa impedir que conflitos individuais comprometam a autoridade institucional do tribunal.
A crise se agravou depois que André Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal produzido no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master. O documento trouxe informações envolvendo Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de outros elementos que passaram a ser discutidos publicamente.
Moraes, por sua vez, pediu a abertura de investigação contra Mendonça, alegando possíveis irregularidades na atuação do colega. O episódio transformou uma disputa jurídica em uma crise interna envolvendo dois ministros do Supremo.
Nesse cenário, Fachin passou a agir para concentrar as decisões e reduzir a possibilidade de que diferentes ministros adotassem medidas contraditórias.
Uma das decisões mais significativas foi retirar de Moraes a relatoria do inquérito das fake news. Fachin também determinou que novas investigações envolvendo ministros do Supremo passem pela presidência da Corte, numa tentativa de evitar que disputas internas sejam transformadas em novos procedimentos paralelos.
Conversas com Moraes e Mendonça
As reuniões individuais com Moraes e Mendonça ganham importância porque os dois estão diretamente envolvidos no principal foco da crise.
Mendonça questiona a legalidade e a legitimidade de determinados documentos produzidos pela Polícia Federal e utilizados no contexto das investigações. Já Moraes sustenta que houve atuação irregular de Mendonça na condução de procedimentos e na divulgação de informações.
Fachin, portanto, precisa ouvir versões conflitantes antes de definir os próximos passos.
A situação é ainda mais delicada porque o presidente do STF não está apenas mediando uma discussão política. Ele precisa tomar decisões processuais com potencial para afetar ministros da própria Corte.
A Agência Brasil informou que Fachin aguardava explicações de Moraes e Mendonça justamente para decidir como conduzir a crise e se determinados temas deveriam ser submetidos ao plenário.
Gonet também entra nas conversas
A presença do procurador-geral da República, Paulo Gonet, nas reuniões acrescenta outro elemento importante à articulação.
A PGR questionou a validade do relatório da Polícia Federal que envolve Moraes e pediu que o documento fosse considerado nulo. A posição de Gonet deverá ser um dos elementos analisados pelo plenário do Supremo.
A reunião entre Fachin e Gonet, portanto, ocorre em momento estratégico. O presidente do STF precisa considerar não apenas a posição dos ministros envolvidos diretamente na disputa, mas também o entendimento do Ministério Público Federal sobre a validade dos procedimentos.
Na prática, a questão que chegará ao plenário envolve uma discussão mais ampla: até onde um ministro pode conduzir uma investigação envolvendo outro integrante do próprio Supremo e quais limites institucionais devem ser respeitados?
Outros ministros também foram ouvidos
Além de Moraes e Mendonça, Fachin conversou com outros integrantes da Corte.
A iniciativa revela uma tentativa de construir algum nível de consenso antes de uma sessão que poderá expor publicamente as divergências existentes dentro do tribunal.
A preocupação não é apenas jurídica. A crise ocorre em um momento politicamente extremamente sensível, com o país entrando no período eleitoral de 2026.
Reportagens recentes apontam que ministros do STF temem que uma sessão transmitida ao vivo sobre o conflito entre Moraes e Mendonça seja utilizada politicamente nas redes sociais. O receio é que declarações, discussões e eventuais divergências entre integrantes da Corte sejam transformadas em material de campanha eleitoral.
Esse temor mostra a dimensão do problema: uma disputa que deveria ser essencialmente jurídica passou a produzir efeitos diretos sobre o ambiente político nacional.
Banco Master virou o epicentro da crise
No centro de boa parte das discussões está o caso Banco Master, envolvendo Daniel Vorcaro.
O nome do banqueiro passou a aparecer em diferentes investigações e documentos relacionados a ministros, autoridades e agentes públicos. A divulgação de mensagens e informações sobre contatos entre Vorcaro e autoridades provocou uma onda de questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, relações institucionais e limites éticos.
No caso de Moraes, a controvérsia também envolve um contrato de alto valor firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
A existência do contrato, por si só, não demonstra crime ou irregularidade. O ponto que alimenta a discussão pública é a necessidade de esclarecer completamente a natureza dos serviços prestados, os pagamentos realizados, eventuais contatos institucionais e possíveis situações de impedimento ou conflito de interesses.
É justamente nesse ambiente de suspeitas, negativas e versões conflitantes que Fachin tenta colocar algum controle sobre a crise.
O problema das decisões conflitantes
Outro elemento que pressionou Fachin foi a sucessão de decisões envolvendo a direção da Polícia Federal.
André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Posteriormente, decisões de outros ministros interferiram no caso.
Flávio Dino também tomou decisões relacionadas ao episódio, criando uma situação de sobreposição que Fachin posteriormente procurou conter.
O presidente do Supremo suspendeu decisões conflitantes e sinalizou que questões envolvendo investigações sobre integrantes da Corte deveriam seguir uma coordenação institucional mais clara.
A preocupação é evitar que diferentes ministros passem a tomar decisões sucessivas sobre o mesmo conflito, produzindo uma espécie de batalha judicial dentro do próprio STF.
Fachin tenta evitar uma ruptura interna
A estratégia de Fachin pode ser interpretada como uma tentativa de recuperar o controle institucional do Supremo.
O ministro tem procurado conversar individualmente com os envolvidos em vez de permitir que a disputa continue crescendo por meio de decisões públicas, manifestações processuais e respostas entre ministros.
Entretanto, a tarefa é extremamente difícil.
De um lado está Moraes, figura central de importantes investigações conduzidas pelo STF nos últimos anos. De outro está Mendonça, ministro indicado ao Supremo durante o governo Jair Bolsonaro e que passou a desempenhar papel relevante na exposição de documentos relacionados ao caso Master.
No meio deles está Fachin, que precisa preservar sua posição de presidente da Corte sem transmitir a impressão de que está protegendo qualquer um dos lados.
Sessão de 15 de setembro será decisiva
A próxima etapa será a sessão plenária prevista para 15 de setembro.
O Supremo deverá discutir o relatório da Polícia Federal e o pedido da PGR relacionado à sua validade. O resultado poderá determinar se haverá ou não avanço formal de investigação envolvendo Moraes.
A sessão também poderá representar um teste para a própria capacidade do Supremo de resolver seus conflitos internamente.
O cenário é delicado porque qualquer decisão poderá provocar reações.
Se o plenário rejeitar as apurações, haverá quem questione se a Corte está protegendo um de seus próprios integrantes. Se permitir o avanço da investigação, o Supremo terá de lidar com um precedente igualmente sensível: um ministro da Corte sendo formalmente submetido a uma apuração a partir de elementos produzidos pela Polícia Federal.
A crise ultrapassou a disputa entre dois ministros
O episódio já não pode ser tratado simplesmente como uma briga entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Há questões envolvendo a Polícia Federal, a PGR, o Banco Master, Daniel Vorcaro, decisões judiciais conflitantes, contratos advocatícios, documentos sigilosos e diferentes interpretações sobre os limites de atuação dos próprios ministros.
Até mesmo ministros que não estão diretamente envolvidos na controvérsia precisam decidir como a Corte deverá reagir.
Por isso, as reuniões promovidas por Fachin têm importância que vai além de uma simples agenda institucional. Elas representam uma tentativa de encontrar uma saída para uma crise que ameaça atingir a imagem de todo o Supremo.
Transparência será o verdadeiro teste
O principal desafio para Fachin será demonstrar que o Supremo consegue investigar e analisar denúncias envolvendo seus próprios integrantes sem corporativismo e sem seletividade.
A Constituição assegura independência ao Judiciário, mas independência não significa ausência de fiscalização. Da mesma forma, uma denúncia não equivale a uma condenação.
É justamente por isso que os fatos precisam ser apurados com transparência, contraditório, devido processo legal e igualdade de tratamento.
A crise do STF coloca uma pergunta incômoda para as instituições brasileiras: quem fiscaliza aqueles que têm o poder de fiscalizar praticamente todos os demais?
A resposta não pode ser simplesmente política. Também não pode depender de amizade, proximidade institucional ou alinhamento ideológico.
Se existem elementos contra Moraes, Mendonça, Toffoli ou qualquer outro ministro, eles precisam ser examinados pelas instâncias competentes. Se as acusações não se sustentarem, isso também precisa ficar demonstrado.
No fim, o maior patrimônio em jogo não é o de um ministro ou de outro, mas a credibilidade do próprio Supremo Tribunal Federal.
E é justamente nesse ambiente de desconfiança, acusações cruzadas e pressão política que Edson Fachin tenta assumir o papel de árbitro da crise — reunindo-se com Gonet, Moraes, Mendonça e outros ministros antes de uma sessão que poderá marcar um dos momentos mais delicados da história recente da Corte.