
“Esconde o celular, índio!” — Huck vira diretor de cena e tenta ‘embelezar’ o Xingu
Vídeo de bastidores mostra apresentador pedindo que indígenas tirem camiseta, guardem o celular e “limpem a cultura” para a câmera — como se fosse possível congelar um povo no século passado.
Um vídeo de bastidores da viagem de Luciano Huck ao Parque Indígena do Xingu, feita em agosto, ressurgiu nas redes e jogou o apresentador no centro de mais um turbilhão digital. Desta vez, não foi por falta de carisma nem por discurso emocionado — mas por virar uma espécie de diretor de arte da vida indígena.
Nas imagens, divulgadas na quinta-feira (5), Huck aparece orientando equipe e moradores da aldeia sobre como deveriam surgir nas gravações. A regra parecia simples: nada de celular e nada de roupa “moderna”. Afinal, em pleno 2025, quem ousaria imaginar que indígenas usam camiseta e mexem no celular como qualquer pessoa do planeta?
Em certo momento, alguém avisa que um indígena com camiseta amarela tinha entrado no enquadramento. Huck, sem hesitar, manda retirar a peça.
— Tira a roupa, diz.
Logo depois, solta a pérola que virou meme instantâneo:
— É, limpa a cultura de vocês aí.
A frase foi suficiente para incendiar a internet. Internautas acusaram o apresentador de maquiar a realidade, como se fosse possível polir um povo para deixá-lo “apropriado” para o Instagram. A ironia é que, nas fotos que ele publicou na época, só o cacique Raoni aparece de camisa — convenientemente o único autorizado pelo “figurino”.
O vídeo ainda mostra Huck cochichando com um dos líderes da aldeia para avisar que muitas câmeras estavam por perto. Em seguida, pede que o recado seja passado adiante: celulares não deveriam aparecer.
— Quanto mais celulares vocês aparecem, menos é a cultura de vocês, afirma. Como se cultura fosse uma decoração que se desfaz com um toque na tela do smartphone.
A repercussão foi inevitável. Comentários críticos surgiram imediatamente:
“Depois que mandou limpar a cultura deles pra foto, deu certo pro seu marketing?”, ironizou uma seguidora.
Outro perguntou: “Conseguiram limpar a cultura ou ficou mancha?”
No fim, o vídeo expôs um debate que o Brasil teima em evitar: a ideia ultrapassada de que povos indígenas precisam caber numa moldura folclórica para serem considerados “autênticos”. Na era dos smartphones — onde até onça tem colar com GPS — pedir para um indígena esconder o celular é quase pedir para esconder a própria vida cotidiana.
E essa sim é uma cena que não deveria ser encenada.