
Estado reconhece culpa e indeniza família de Vladimir Herzog por assassinato na ditadura
AGU pagará R$ 3 milhões e formalizará reparação histórica em cerimônia pública no Instituto Herzog
Quase cinco décadas depois da brutal morte de Vladimir Herzog nas mãos da repressão militar, o Estado brasileiro finalmente reconhece sua responsabilidade com um gesto concreto: a Advocacia-Geral da União (AGU) vai pagar R$ 3 milhões à família do jornalista como indenização por danos morais.
O acordo judicial também contempla uma reparação econômica mensal, já em vigor, no valor de R$ 34.577,89, destinada à viúva de Herzog, Clarice. A decisão foi autorizada pela 2ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal.
O compromisso será oficializado no próximo dia 26 de julho, em uma cerimônia pública na sede do Instituto Vladimir Herzog — justamente na véspera da data em que o jornalista completaria 88 anos.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou que o acordo não é apenas um ato jurídico, mas uma obrigação ética e constitucional. “Promover a justiça histórica é dever do Estado e um compromisso da AGU com a memória e a verdade”, declarou.
Em março deste ano, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania também reconheceu Vladimir Herzog como anistiado político.
Uma morte forjada, um luto que virou símbolo
Vladimir Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura e tinha passagem pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em 1975, foi chamado pelo Exército para depor sobre supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro. No dia 25 de outubro, ele se apresentou voluntariamente ao DOI-CODI de São Paulo e nunca mais voltou para casa.
A versão oficial da época alegava que Herzog havia se suicidado na cela — tese desmontada anos depois por provas e testemunhos que confirmaram as sessões de tortura e o assassinato.
A comoção foi tão grande que, em 31 de outubro de 1975, o ato ecumênico pelo sétimo dia de sua morte reuniu milhares de pessoas na Catedral da Sé, marcando um dos momentos mais simbólicos da resistência à ditadura.
Herzog foi sepultado no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. Mesmo com a proibição tradicional de enterros de suicidas entre os demais membros da comunidade judaica, o corpo foi aceito normalmente — um gesto que dizia, sem palavras, o que muitos já sabiam: Vladimir Herzog não tirou a própria vida. Ele foi assassinado por um regime que calava vozes.