
EUA aplicam primeiras sanções contra brasileiros e empresas por suposta ligação com o PCC após classificação da facção como organização terrorista
Governo de Donald Trump bloqueia ativos de dois brasileiros, três empresas no Brasil e uma em Portugal; autoridades americanas acusam grupo de movimentar mais de US$ 30 milhões em lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital.
O governo dos Estados Unidos, sob a administração do presidente Donald Trump, anunciou a primeira rodada de sanções econômicas contra cidadãos e empresas brasileiras apontados como integrantes de uma suposta rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A medida foi oficializada pelo Departamento do Tesouro dos EUA, por meio do Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão responsável pela aplicação de sanções financeiras internacionais.
A decisão marca a primeira ação concreta do governo norte-americano desde que o PCC e o Comando Vermelho (CV) passaram a ser classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas internacionais, ampliando o alcance das medidas de combate ao crime organizado transnacional.
Quem são os brasileiros sancionados
As sanções atingem diretamente dois brasileiros:
- Victor Henrique de Oliveira Shimada;
- Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira.
Segundo o Departamento do Tesouro, ambos fariam parte de uma estrutura financeira utilizada para movimentar recursos ilícitos provenientes do tráfico internacional de drogas.
Empresas incluídas na lista de sanções
Além das pessoas físicas, quatro empresas foram incluídas na lista de bloqueios econômicos:
- Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda;
- Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda;
- Wave Construções Inteligentes Ltda;
- Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, sediada em Portugal.
De acordo com as autoridades norte-americanas, essas empresas seriam utilizadas para ocultar a origem de recursos financeiros e facilitar operações de lavagem de dinheiro em benefício do PCC.
Investigação aponta lavagem de mais de US$ 30 milhões
Segundo o comunicado oficial do Tesouro americano, Victor Henrique de Oliveira Shimada é apontado como um dos principais elos entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais.
Os investigadores afirmam que ele teria coordenado a lavagem de mais de US$ 30 milhões — cerca de R$ 156 milhões, na cotação atual — utilizando criptomoedas para transferir valores obtidos com atividades criminosas nos Estados Unidos de volta ao Brasil.
Ainda conforme o governo americano, Shimada também estaria envolvido em outros crimes financeiros além da lavagem de dinheiro relacionada ao tráfico internacional.
Stella teria atuado como intermediária
As autoridades dos EUA afirmam que Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontada como parente de Shimada, teria exercido funções administrativas e operacionais dentro da organização.
Segundo o Departamento do Tesouro, ela atuava como secretária, intermediando coletas de grandes quantias em dinheiro e oferecendo suporte logístico às operações financeiras investigadas.
Conexão entre Flórida e São Paulo
O governo norte-americano afirma que a organização possuía dois principais centros de atuação: um na Flórida e outro em São Paulo.
Em janeiro de 2026, seis pessoas ligadas ao grupo foram presas nos Estados Unidos durante uma investigação conduzida pelo FBI e pelo Departamento de Justiça, que apura um esquema internacional de lavagem de dinheiro.
Agora, a nova etapa da operação concentra-se no braço financeiro instalado no Brasil.
Relação com investigação da VaideBet
Victor Henrique de Oliveira Shimada também aparece em uma investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, relacionada ao caso envolvendo a antiga patrocinadora do Sport Club Corinthians Paulista, a VaideBet.
Segundo os Estados Unidos, a empresa Victory Trading teria sido utilizada para movimentar recursos desviados de um clube de futebol brasileiro. O comunicado oficial, entretanto, não menciona o nome da equipe.
Esquema pode ter movimentado mais de US$ 190 milhões
Além da investigação envolvendo os US$ 30 milhões atribuídos ao grupo de Shimada, o Tesouro americano cita outra apuração que aponta um esquema de lavagem comercial supostamente ligado ao PCC.
Segundo o documento, uma estrutura envolvendo empresas chinesas do setor de eletrônicos e plataformas de comércio eletrônico teria movimentado mais de US$ 190 milhões em apenas sete meses.
O que muda com as sanções
As medidas determinadas pelo governo dos Estados Unidos incluem:
- bloqueio de todos os bens e ativos localizados em território americano;
- proibição de qualquer negociação financeira com cidadãos ou empresas dos EUA;
- congelamento de interesses econômicos sob jurisdição norte-americana;
- possibilidade de sanções secundárias contra instituições financeiras estrangeiras que realizarem operações relevantes com os alvos.
Segundo o subsecretário do Tesouro para Terrorismo e Inteligência Financeira, Gene Lange, a ofensiva busca combater a expansão internacional das fontes de financiamento do PCC e impedir que organizações criminosas utilizem o sistema financeiro dos Estados Unidos para ocultar recursos provenientes de atividades ilícitas.
As investigações foram conduzidas pela Homeland Security Task Force, com participação do FBI de Miami, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e de outras agências federais especializadas em combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado transnacional.