Fake news contra Flávio Bolsonaro viraliza, gera 181 mil comentários e termina com retratação da GloboNews

Fake news contra Flávio Bolsonaro viraliza, gera 181 mil comentários e termina com retratação da GloboNews

Boato sobre uma suposta retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil alcançou 180.857 comentários em apenas 20 horas; projeto citado é de 2007, foi arquivado em 2008 e não tem relação com Flávio Bolsonaro.

Uma informação falsa envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida ganhou proporções gigantescas nas redes sociais e expôs novamente o impacto que uma informação incorreta pode provocar durante uma campanha eleitoral.

Segundo levantamento da Vox Radar, divulgado pelo Money Times, o boato de que Flávio Bolsonaro apoiaria uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil alcançou 180.857 comentários em apenas 20 horas. O episódio também gerou centenas de milhares de menções e milhões de interações nas plataformas digitais.

O caso ganhou força depois de um comentário exibido pela GloboNews, no programa Em Pauta, na noite de 24 de setembro. A comentarista Maria Cristina Fernandes mencionou uma suposta movimentação envolvendo evangélicos e um projeto relacionado ao título de Nossa Senhora Aparecida.

O problema é que a informação apresentada como uma movimentação atual estava relacionada, na realidade, a um projeto legislativo antigo.

O projeto não é de Flávio Bolsonaro

O projeto mencionado na discussão existe, mas não é novo.

Trata-se do PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta pretendia alterar a legislação relativa ao feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

O projeto foi arquivado pela Câmara dos Deputados em 22 de agosto de 2008.

Portanto, não se trata de uma proposta apresentada em 2026, tampouco de um projeto de autoria de Flávio Bolsonaro. As informações disponíveis não apontam ligação do candidato com a proposição.

É justamente aí que está o problema central: um projeto de quase duas décadas atrás foi apresentado no debate público como se houvesse uma mobilização atual relacionada à candidatura de Flávio Bolsonaro.

GloboNews se retrata

Depois da repercussão, a própria GloboNews reconheceu o erro.

Na madrugada de 25 de setembro, durante o programa Edição da Meia-Noite, a emissora fez uma correção e pediu desculpas pela informação apresentada anteriormente. A retratação esclareceu que a proposta mencionada havia sido apresentada em 2007 e arquivada em 2008.

A correção, entretanto, veio depois que o assunto já havia alcançado enorme repercussão nas redes sociais.

E esse é justamente um dos maiores problemas da desinformação na era digital: a correção pode chegar depois que o boato já percorreu milhares de perfis.

Uma informação errada pode ser transformada em postagem, vídeo, meme, comentário político e publicação viral. Quando chega a retratação, muitas pessoas já receberam somente a primeira versão.

181 mil comentários em 20 horas

O número apresentado pela Vox Radar ajuda a dimensionar a proporção que o episódio alcançou.

Foram 180.857 comentários em apenas 20 horas, segundo o levantamento divulgado pelo Money Times. Outro monitoramento citado pela Agência Estado apontou 397,2 mil menções e 2,3 milhões de interações nas primeiras 17 horas após a informação inicial da GloboNews.

Ou seja, não foi apenas uma publicação isolada.

A informação percorreu diferentes redes e foi reproduzida por perfis políticos, páginas de opinião, memes e conteúdos audiovisuais.

Isso demonstra como uma afirmação equivocada envolvendo um candidato presidencial pode rapidamente transformar-se em uma narrativa eleitoral de grande alcance.

Flávio Bolsonaro reagiu

Flávio Bolsonaro negou a informação e afirmou que não existe qualquer projeto atual com esse objetivo.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o candidato classificou a informação como falsa e afirmou que não existe proposta para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil.

A campanha também levou o caso à Justiça Eleitoral.

Posteriormente, o ministro André Mendonça, atuando no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de publicações que apresentassem como verdadeira a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A decisão alcançou diferentes plataformas digitais.

Crítica e repúdio à desinformação

É preciso fazer uma distinção fundamental.

Criticar Flávio Bolsonaro é legítimo. Criticar sua posição religiosa também é legítimo. Questionar suas declarações, propostas e decisões políticas faz parte de uma eleição democrática.

Outra coisa completamente diferente é atribuir ao candidato uma proposta que ele não apresentou e que não consta de um projeto atual de sua autoria.

Nesse ponto, o episódio merece repúdio à desinformação.

E a crítica à GloboNews também precisa ser feita de maneira objetiva: uma emissora jornalística tem responsabilidade especial na checagem de informações antes de apresentá-las ao público, principalmente quando o assunto envolve um candidato à Presidência e uma questão religiosa de enorme sensibilidade.

A própria emissora reconheceu o erro e se retratou. Esse fato é importante e deve ser registrado.

Mas a retratação não apaga automaticamente o alcance produzido pela informação original.

O efeito eleitoral do boato

O episódio aconteceu justamente na reta final da campanha presidencial.

Isso torna o caso ainda mais delicado.

Uma informação envolvendo Nossa Senhora Aparecida, uma das figuras religiosas mais importantes para milhões de brasileiros, possui potencial de provocar uma reação emocional muito forte.

Quando essa informação é associada diretamente a um candidato à Presidência, o impacto político pode ser significativo.

Por isso, a responsabilidade pela informação precisa ser ainda maior.

Não basta corrigir depois. É preciso verificar antes.

A diferença entre fato e narrativa

Os fatos disponíveis são simples:

O projeto existiu? Sim.

Era novo? Não. Foi apresentado em 2007.

Está em tramitação atualmente? Não. Foi arquivado em 2008.

Flávio Bolsonaro é autor do projeto? Não.

Há registro apresentado nas fontes consultadas de que Flávio tenha defendido essa proposta? Não.

A GloboNews corrigiu a informação? Sim.

O boato viralizou? Sim — com 180.857 comentários em 20 horas, segundo o levantamento divulgado pelo Money Times.

Essa sequência deixa evidente a diferença entre o que efetivamente aconteceu e a narrativa que acabou circulando nas redes.

O alerta para a eleição de 2026

O caso envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida serve como alerta para o eleitor.

Em uma campanha eleitoral, especialmente nos últimos dias antes da votação, uma informação falsa pode ganhar velocidade muito superior à capacidade de correção.

Por isso, antes de compartilhar uma acusação contra qualquer candidato, é fundamental verificar quem apresentou a proposta, quando ela foi apresentada, se ainda está em tramitação e se existe realmente alguma ligação com o candidato citado.

Neste caso, a resposta para essas perguntas desmonta a narrativa que viralizou.

O projeto era antigo, foi arquivado em 2008 e não tinha Flávio Bolsonaro como autor. Mesmo assim, a associação chegou a centenas de milhares de pessoas antes que a correção fosse divulgada.

A lição

A liberdade de expressão deve proteger a crítica política, o debate e até o humor. Mas isso não transforma uma informação falsa em verdade.

O episódio também mostra que grandes veículos de comunicação precisam ter o mesmo cuidado — ou ainda mais — com a informação que apresentam, porque uma frase dita no ar pode ser reproduzida milhões de vezes nas redes sociais.

A GloboNews reconheceu o erro e pediu desculpas. O reconhecimento é importante, mas o episódio demonstra que a checagem deveria vir antes da publicação, e não depois da viralização.

Em uma eleição presidencial, informação não é detalhe.

É responsabilidade.

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