Mendonça manda derrubar milhares de posts falsos sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida

Mendonça manda derrubar milhares de posts falsos sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida

Ministro do TSE determina remoção de publicações, vídeos, imagens, áudios e memes que atribuam a Flávio Bolsonaro ou à família Bolsonaro um plano para retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil; decisão ocorre após uma onda de desinformação nas redes.

O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de milhares de publicações que associavam o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A decisão foi tomada nesta sexta-feira (25) depois que a campanha de Flávio apresentou ao TSE dados mostrando a rápida disseminação da informação nas redes sociais. A ordem alcança plataformas como X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube e não se limita a uma publicação específica: também abrange novas versões em texto, imagem, áudio, vídeo e meme que apresentem a mesma alegação como fato.

Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou sua família tenham proposto, articulado, apoiado ou pretendam promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. A decisão ainda deverá ser submetida ao plenário virtual do TSE.

A origem da polêmica

A controvérsia começou depois de uma discussão envolvendo um projeto legislativo antigo relacionado ao título de Nossa Senhora Aparecida.

O projeto citado nas publicações é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado Professor Victorio Galli. A proposta pretendia alterar a legislação referente ao título de Padroeira do Brasil, mas foi rejeitada e arquivada em 2008.

Os registros legislativos não apontam Flávio Bolsonaro como autor da proposta. O candidato também negou ter apoiado ou defendido qualquer iniciativa para retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil.

Portanto, uma coisa é discutir historicamente o projeto apresentado em 2007. Outra, completamente diferente, é afirmar que Flávio Bolsonaro teria apresentado, apoiado ou planejado executar essa mudança caso fosse eleito.

É justamente essa segunda afirmação que a decisão de Mendonça considera falsa.

A informação se espalhou durante a campanha

O caso ganhou proporções maiores depois que a informação passou a circular intensamente nas redes sociais.

Segundo levantamento citado pela imprensa, foram identificadas centenas de milhares de menções ao assunto em diferentes plataformas, com milhões de interações. A narrativa acabou sendo reproduzida por diferentes perfis políticos, memes, vídeos e comentários.

A campanha de Flávio Bolsonaro levou o caso à Justiça Eleitoral alegando que a disseminação da informação poderia interferir no processo eleitoral.

A proximidade com a eleição presidencial tornou o episódio ainda mais sensível. Não se trata simplesmente de uma discussão religiosa nas redes sociais: trata-se de uma informação atribuída a um candidato à Presidência e apresentada ao público como se fosse uma proposta política real.

E a GloboNews?

Um dos pontos mais importantes da controvérsia envolve a origem da informação.

A narrativa surgiu após um comentário feito pela jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews. Posteriormente, a própria emissora corrigiu a informação, e Flávio Bolsonaro também negou categoricamente ter defendido a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.

Aqui está um dos aspectos que merecem crítica jornalística.

Uma informação política envolvendo um candidato presidencial, religião e uma questão extremamente sensível deveria ser submetida a uma verificação rigorosa antes de ser apresentada ao público.

Quando uma informação incorreta entra no circuito de um grande veículo, o problema não termina necessariamente com a correção. Na era das redes sociais, o primeiro conteúdo pode ser recortado, transformado em vídeo, meme ou postagem e continuar circulando mesmo depois da retificação.

Foi exatamente esse efeito multiplicador que ocorreu neste caso, segundo os dados apresentados ao TSE.

Mendonça amplia a ordem para memes e vídeos

A decisão chama atenção também pelo alcance.

Não foram atingidos apenas textos idênticos à publicação original. A determinação alcança texto, imagem, áudio, vídeo, meme ou qualquer outro formato que transmita o mesmo núcleo factual — a alegação de que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendem retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil.

As plataformas receberam prazo para informar as providências adotadas e estão sujeitas a multas em caso de descumprimento. A imprensa registrou valores de multa diária que chegam a R$ 50 mil, enquanto a decisão anterior envolvendo o humorista Antonio Tabet previa multa de R$ 30 mil por ato.

A medida, entretanto, não significa que toda crítica a Flávio Bolsonaro tenha sido proibida.

A própria decisão delimita o conteúdo atingido: a afirmação específica de que ele ou sua família teriam proposto, articulado, apoiado ou planejado retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil.

Debates políticos e religiosos que não apresentem essa afirmação específica como fato permanecem fora desse núcleo da ordem.

O mérito de André Mendonça

O episódio também coloca em evidência a atuação de André Mendonça na Justiça Eleitoral.

Independentemente de posições políticas, existe uma diferença fundamental entre crítica eleitoral e divulgação de uma informação falsa atribuída a um candidato.

O eleitor pode criticar Flávio Bolsonaro, rejeitar suas propostas, fazer sátiras e discutir sua relação com a religião. O problema surge quando uma informação inexistente é apresentada como se fosse uma proposta efetivamente defendida pelo candidato.

Nesse ponto, a decisão de Mendonça estabelece uma distinção importante: opinião não é a mesma coisa que fato inventado.

E, em uma eleição presidencial, essa diferença ganha peso ainda maior.

O caso do meme de Fábio Bolsonaro

A repercussão também atingiu o campo dos memes e das peças humorísticas relacionadas à família Bolsonaro.

Nesse ambiente, é preciso separar humor, sátira e opinião de uma afirmação factual falsa.

Um meme pode fazer uma crítica política. Pode ironizar um candidato. Pode exagerar uma característica pública. Pode provocar seus adversários.

Mas quando o conteúdo passa a apresentar como fato uma ação que nunca foi defendida pelo candidato — especialmente uma ação atribuída diretamente a uma campanha presidencial — a discussão deixa de ser apenas sobre humor e entra no terreno da desinformação eleitoral.

É justamente aí que o episódio envolvendo o meme atribuído a Fábio Bolsonaro precisa ser analisado com cautela: a força do humor político não elimina a necessidade de verificar o fato que está sendo utilizado como base da piada.

Repúdio à desinformação não significa censurar crítica

Também é necessário evitar outro extremo.

Combater uma informação falsa não pode significar transformar toda crítica política em conteúdo proibido.

O eleitor precisa continuar tendo liberdade para questionar, criticar, ironizar e discordar de Flávio Bolsonaro, de Lula, de qualquer candidato ou de qualquer partido.

O que a decisão de Mendonça procura atingir é uma afirmação factual específica que, segundo os elementos apresentados ao tribunal, não corresponde ao que Flávio Bolsonaro defendeu.

Essa distinção é fundamental para o debate democrático.

O perigo da informação falsa na eleição

O caso mostra como uma informação incorreta pode ganhar proporções gigantescas em poucas horas.

Primeiro aparece uma afirmação. Depois surgem os comentários. Em seguida vêm os recortes, vídeos, memes e publicações políticas. Quando chega a correção, muitas pessoas já tiveram contato apenas com a primeira versão.

A correção, portanto, dificilmente alcança automaticamente todas as pessoas que receberam a informação original.

É por isso que o episódio merece crítica e repúdio à disseminação de informação falsa em plena eleição.

O eleitor tem direito à crítica, mas também tem direito à informação correta.

O que está comprovado

Até o momento, os elementos objetivos do caso são claros:

  • o projeto relacionado ao título de Nossa Senhora Aparecida existiu;
  • ele foi apresentado em 2007 por Professor Victorio Galli, e não por Flávio Bolsonaro;
  • a proposta foi rejeitada e arquivada em 2008;
  • Flávio Bolsonaro negou ter apoiado ou planejado retirar o título de Padroeira do Brasil;
  • a informação passou a circular amplamente durante a campanha;
  • a campanha de Flávio procurou a Justiça Eleitoral;
  • André Mendonça determinou a remoção das publicações que apresentassem essa associação como fato;
  • a determinação alcança também novas versões em texto, imagem, áudio, vídeo e meme;
  • a decisão será submetida ao plenário do TSE.

O episódio deixa uma lição importante para a campanha de 2026: em uma eleição presidencial, uma informação falsa pode se transformar rapidamente em uma arma política.

A crítica política é legítima. O debate religioso também é legítimo. O humor faz parte da democracia.

Mas nenhum desses elementos deveria servir de justificativa para apresentar como verdadeira uma proposta que o candidato não apresentou nem defendeu.

E é exatamente por isso que a decisão de André Mendonça, ao menos neste episódio específico, coloca no centro do debate uma questão essencial: até onde vai a liberdade de expressão e onde começa a responsabilidade pela disseminação de uma informação falsa capaz de influenciar o eleitor?

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags