
Flávio Bolsonaro pede investigação contra servidor da Secom por divulgação de boato sobre Nossa Senhora
Campanha apresenta notícia-crime contra George Marques, coordenador da Secom, e pede prisão preventiva e busca e apreensão; caso envolve informação já classificada como falsa pelo TSE e que a própria GloboNews corrigiu após a viralização.
A disputa eleitoral ganhou um novo capítulo neste sábado (26), depois que a defesa de Flávio Bolsonaro (PL) apresentou uma queixa-crime à Justiça Eleitoral contra George Marques da Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom).

Os advogados do candidato pedem prisão preventiva e busca e apreensão contra o servidor, alegando que ele contribuiu para a disseminação de uma informação falsa segundo a qual Flávio Bolsonaro defenderia a retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil. A representação foi encaminhada ao plantão da Justiça Eleitoral.
O caso ganhou dimensão nacional porque a informação já havia alcançado milhões de visualizações nas redes sociais e provocado uma onda de publicações contra o candidato. A campanha de Flávio também acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) para pedir investigação sobre a origem e a propagação do conteúdo.
O que Flávio Bolsonaro está questionando
A defesa de Flávio sustenta que George Marques republicou uma publicação que incentivava a continuidade da divulgação do boato.
Segundo as reportagens que tiveram acesso ao episódio, a publicação compartilhada pelo servidor fazia referência à narrativa de que Flávio Bolsonaro e o PL teriam apoiado uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O conteúdo foi posteriormente apagado, e George Marques afirmou que o compartilhamento ocorreu por engano.
A campanha, porém, entende que o fato deve ser investigado porque o envolvido ocupa um cargo dentro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, órgão responsável pela comunicação institucional do governo federal.
A representação pede que sejam apuradas as circunstâncias da publicação, eventual participação de outras pessoas e se houve atuação coordenada para atingir eleitoralmente Flávio Bolsonaro.
Quem é George Marques
George Marques da Silva é jornalista e analista político e ocupa o cargo de coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secom. Segundo informações publicadas sobre o caso, ele está no Palácio do Planalto desde 2023 e ocupa a função atual desde setembro de 2025.
A Secom, comandada pelo governo Lula, ainda não havia apresentado manifestação pública sobre a acusação no momento das primeiras reportagens.
É importante ressaltar que o pedido de prisão feito pela defesa de Flávio não significa que George Marques tenha sido condenado ou que a Justiça tenha reconhecido a prática de crime. Trata-se de uma representação que agora deverá ser analisada pelas autoridades competentes.
Essa distinção é fundamental.
A origem do boato
A história começou a circular nas redes sociais depois de uma discussão na GloboNews sobre uma antiga proposta relacionada ao título de Nossa Senhora Aparecida.
O problema é que a narrativa que ganhou as redes passou a apresentar a questão como se existisse uma proposta atual ligada a Flávio Bolsonaro.
Não existe.
O projeto citado é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli.
A proposta pretendia alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro e substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
O projeto foi analisado pela Câmara e acabou rejeitado e arquivado em 2008. Não é um projeto de Flávio Bolsonaro e não está em tramitação atualmente.
Essa é uma das informações centrais do episódio.
A GloboNews corrigiu a informação
A repercussão aumentou depois de um comentário exibido no programa Em Pauta, da GloboNews.
Trechos da análise da jornalista Maria Cristina Fernandes foram retirados do contexto e passaram a circular nas redes como se a emissora tivesse afirmado que Flávio Bolsonaro pretendia retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
A própria GloboNews posteriormente corrigiu a informação e pediu desculpas.
A correção foi apresentada na madrugada de 25 de setembro, esclarecendo que o projeto citado era antigo, de 2007, e havia sido arquivado em 2008.
É justamente neste ponto que cabe uma crítica contundente à cobertura jornalística.
Crítica à imprensa: a correção veio depois da viralização
Uma emissora de alcance nacional possui enorme capacidade de influenciar o debate público.
Quando uma informação envolvendo um candidato à Presidência, religião e Nossa Senhora Aparecida é apresentada ou interpretada de maneira equivocada, o cuidado deveria ser redobrado.
A correção posterior é necessária, mas não elimina automaticamente o alcance da primeira narrativa.
No ambiente digital, uma informação pode sair da televisão, transformar-se em postagem, vídeo, meme e comentário político em questão de minutos.
Quando chega a retratação, o conteúdo original já pode ter alcançado milhões de pessoas.
Foi exatamente o que ocorreu neste episódio.
A crítica, portanto, não é à existência de divergência política ou religiosa. É à responsabilidade jornalística de verificar cuidadosamente uma informação antes de colocá-la em circulação, especialmente em plena eleição presidencial.
O papel de Fábio Bolsonaro
Outro personagem que ganhou destaque na repercussão foi Fábio Bolsonaro, que participou das manifestações e da reação política ao episódio.
O mérito de Fábio, neste caso, está em utilizar o espaço público para questionar a narrativa e exigir que a informação seja confrontada com os fatos.
Em uma campanha eleitoral, não é razoável que uma acusação grave seja aceita simplesmente porque viralizou.
É preciso voltar à origem, procurar o projeto, identificar o autor, verificar a tramitação e perguntar se existe alguma relação real com o candidato.
Neste caso, essa verificação mostra que o projeto mencionado é de 2007, foi apresentado por Victório Galli e acabou arquivado em 2008.
O episódio demonstra, portanto, a importância de confrontar a narrativa política com documentos e registros oficiais.
Flávio aciona a Procuradoria-Geral Eleitoral
Além da queixa-crime contra George Marques, a campanha de Flávio Bolsonaro apresentou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral Eleitoral.
A representação cita pelo menos 29 perfis que, segundo a defesa, participaram da disseminação do conteúdo.
A campanha afirma ainda que o material ultrapassou 5 milhões de visualizações em menos de 48 horas e sustenta que houve uma ação coordenada para prejudicar o candidato junto ao eleitorado católico.
Essas alegações são da campanha e ainda dependem de apuração.
A Justiça Eleitoral deverá verificar se houve efetivamente coordenação, quem produziu o conteúdo original, quem o disseminou e se houve intenção deliberada de influenciar o eleitorado por meio de uma informação sabidamente falsa.
André Mendonça entra no caso
O episódio também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral.
O ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações que apresentassem como verdadeira a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Na decisão provisória, Mendonça classificou a informação como “notoriamente inverídica” e determinou que as plataformas atuassem preventivamente contra novas versões do mesmo conteúdo.
A determinação alcança diferentes formatos, incluindo publicações, vídeos, imagens, áudios e memes que reproduzam a mesma afirmação factual.
Isso não significa que críticas a Flávio Bolsonaro tenham sido proibidas. O alvo é a alegação específica de que ele teria defendido ou planejado retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
O que está comprovado e o que ainda precisa ser investigado
É importante separar os fatos das acusações.
Está documentado que:
- existe um projeto de lei de 2007 relacionado ao título de Nossa Senhora Aparecida;
- o autor foi o então deputado Professor Victório Galli;
- a proposta foi arquivada em 2008;
- não se trata de projeto de autoria de Flávio Bolsonaro;
- Flávio negou que defenda qualquer medida desse tipo;
- a GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas;
- André Mendonça determinou a remoção de conteúdos que apresentassem a associação como verdadeira;
- a campanha de Flávio acionou a PGE;
- a defesa também apresentou queixa-crime contra George Marques;
- George Marques apagou a publicação e, segundo reportagem do Poder360, afirmou que agiu por engano.
Ainda precisa ser apurado:
- quem iniciou a disseminação da narrativa;
- se houve coordenação entre os perfis;
- qual foi a intenção de cada participante;
- se a conduta de George Marques configura algum ilícito;
- se houve participação de outras pessoas ou estruturas;
- e se existe responsabilidade criminal ou eleitoral pelos atos denunciados.
O ponto mais grave: informação falsa em plena eleição
O episódio não é apenas uma discussão sobre religião.
Ele envolve desinformação eleitoral.
Associar um candidato presidencial a uma suposta proposta de retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil pode produzir uma reação imediata entre eleitores católicos.
Por isso, a informação precisa ser rigorosamente verificada.
Não basta dizer posteriormente que houve um erro.
Não basta apagar uma postagem.
Não basta fazer uma correção depois que o conteúdo já percorreu as redes.
A responsabilidade começa antes da publicação.
Repúdio à fake news, independentemente de quem seja o alvo
A mesma regra deveria valer para qualquer candidato.
Se uma informação falsa é utilizada contra Lula, Flávio Bolsonaro, Tarcísio, qualquer outro candidato ou qualquer partido, ela deve ser combatida.
A democracia depende de informação verificável.
Neste caso específico, o boato atingiu Flávio Bolsonaro e envolveu uma questão religiosa extremamente sensível. A própria GloboNews reconheceu o erro e corrigiu a informação, enquanto a Justiça Eleitoral determinou a retirada dos conteúdos que reproduziam a associação considerada falsa.
Agora, cabe às autoridades investigar a etapa seguinte: quem deliberadamente continuou espalhando a narrativa depois de esclarecido que ela não correspondia aos fatos?
É exatamente isso que a notícia-crime apresentada por Flávio Bolsonaro pretende esclarecer.
Uma eleição não pode ser decidida por boatos
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostra a velocidade com que uma informação pode ser transformada em arma eleitoral.
Um projeto de 2007, arquivado em 2008, foi associado a um candidato que não era seu autor. A narrativa viralizou. A GloboNews precisou se retratar. A Justiça Eleitoral determinou a remoção dos conteúdos. E agora a campanha de Flávio pede investigação sobre quem participou da disseminação.
O caso ainda não terminou.
A Justiça deverá analisar as acusações e decidir se houve crime e quem poderá ser responsabilizado.
Até lá, o mais importante é separar fato, erro jornalístico, opinião, acusação e crime comprovado.
Mas uma conclusão é possível desde já: uma eleição presidencial não deveria ser contaminada por uma informação que a própria fonte jornalística posteriormente reconheceu como equivocada.
E quando um servidor público ligado à comunicação institucional do governo aparece compartilhando conteúdo relacionado ao boato, é legítimo exigir esclarecimentos e investigação — sem transformar uma acusação ainda em apuração em condenação antecipada.
O eleitor merece mais do que versões políticas.
Merece fatos.