
Falsa viatura, armas e distintivos: policial civil é investigado por sequestro de jovem na Zona Leste de São Paulo
Rafael Juergen Shult, do 78º DP, é apontado como integrante de grupo que teria agredido e levado um jovem algemado no porta-malas de um carro que imitava uma viatura policial; veículo foi apreendido pela Corregedoria e outros agentes e suspeitos passaram a ser investigados
Uma investigação da Polícia Civil de São Paulo ganhou novos contornos após a apreensão de uma viatura falsa utilizada em uma ação de sequestro na Zona Leste da capital. O veículo foi localizado durante o cumprimento de mandado de busca na residência do policial civil Rafael Juergen Shult, lotado no 78º Distrito Policial, nos Jardins, que é investigado por suspeita de participação no crime.
O caso começou a ser investigado depois que câmeras de segurança registraram uma abordagem violenta em Artur Alvim, na Zona Leste de São Paulo. As imagens mostram um grupo de homens armados agredindo um jovem, algemando-o e colocando-o no porta-malas de um automóvel equipado com dispositivos luminosos semelhantes aos de uma viatura policial descaracterizada.
Até a última atualização do caso, a vítima permanecia desaparecida e os principais suspeitos ainda eram procurados.
A investigação também passou a apurar se o mesmo veículo e os mesmos envolvidos foram utilizados em outras abordagens criminosas, inclusive em diferentes regiões da cidade.
A apreensão da falsa viatura
Durante uma operação de busca e apreensão realizada na casa de Rafael Juergen Shult, os investigadores localizaram o carro apontado como utilizado no sequestro.
O automóvel chamava atenção porque possuía luzes instaladas no para-brisa e na grade dianteira que imitavam um giroflex policial. Segundo as investigações, o objetivo seria fazer com que as vítimas acreditassem estar diante de agentes em uma operação oficial.
A situação se tornou ainda mais grave porque, de acordo com a apuração policial, não havia nenhuma operação oficial programada para aquele endereço naquela noite.
A placa utilizada no veículo também levantou suspeitas. Conforme informou a Secretaria da Segurança Pública, o número identificado pelos investigadores não consta nos registros oficiais, inclusive como pertencente a uma viatura policial.
Na casa dos pais do policial, os investigadores ainda encontraram dinheiro falsificado. Segundo a polícia, o material teria relação com a aquisição de entorpecentes.
Rafael e o irmão dele passaram a ser investigados. Até a publicação das informações, ambos eram considerados foragidos.
A defesa afirmou à TV Globo que os fatos serão esclarecidos, mas não informou se Rafael pretendia se apresentar às autoridades.
Câmeras registraram toda a abordagem
O que dá dimensão à investigação é a existência de três câmeras de monitoramento que registraram diferentes momentos da ação.
Por volta das 22h20, seis homens aparecem reunidos e conversando próximos ao muro de uma travessa da Rua Inês Monteiro, em Artur Alvim.
Em determinado momento, um homem vestindo blusa escura chega ao local carregando uma sacola plástica branca. Ele entrega o objeto ao grupo e deixa a área.
Pouco depois, um jovem vestido de azul aparece e é surpreendido pelos homens.
Segundo a investigação, ele passa a ser atacado por dois indivíduos armados. O restante do grupo se afasta ou foge inicialmente, enquanto os três envolvidos entram em uma luta corporal.
Foi durante essa briga, segundo a polícia, que disparos de arma de fogo foram efetuados.
Carro com luzes de viatura chega ao local
Três minutos depois, aproximadamente às 22h23, um carro preto aparece nas imagens.
O veículo tinha luzes piscando no para-brisa e na grade dianteira, reproduzindo características de uma viatura policial descaracterizada.
O motorista desce e também passa a agredir o jovem.
Na sequência, outros dois homens vestidos de preto chegam ao local. Um deles fecha a jaqueta enquanto caminha em direção ao veículo. As imagens permitem observar algo semelhante a um distintivo preso ao peito.
Outro suspeito aparece carregando um fuzil. Também é possível identificar um objeto semelhante a um distintivo junto ao homem.
A cena, segundo os investigadores, reforça a suspeita de que o grupo utilizava elementos visuais associados à polícia para dar aparência de legitimidade à abordagem.
Jovem é algemado e colocado no porta-malas
Depois das agressões, a vítima é algemada e colocada à força no porta-malas do carro.
Um dos homens deixa o local caminhando, enquanto os demais entram no automóvel e deixam a região.
Quando policiais militares chegaram ao endereço, encontraram manchas de sangue e estojos vazios de munição calibre 5,56, munição utilizada em armamentos como fuzis.
Um celular também foi apreendido.
A Polícia Civil passou então a tentar identificar todos os participantes da ação e descobrir o paradeiro do jovem.
Hospitais da região foram procurados para verificar se algum suspeito ferido havia procurado atendimento, mas nenhum homem baleado deu entrada nas unidades consultadas.
Suspeita de outras ações com a falsa viatura
A investigação ganhou uma nova dimensão depois que surgiram imagens que, segundo reportagem do Metrópoles, indicariam que o mesmo veículo teria sido utilizado em outras abordagens suspeitas.
As imagens mostram homens apresentando-se como policiais e tentando colocar outra pessoa à força dentro de um carro.
Em uma dessas situações, uma testemunha teria filmado a abordagem e questionado os homens sobre a existência de um mandado judicial.
Um indivíduo identificado nas reportagens como Rafael teria se aproximado da testemunha portando uma pistola e, segundo o relato publicado, ordenado que ela parasse de filmar.
A abordagem teria sido acompanhada de ameaças para intimidar quem registrava a cena.
A apuração também menciona a participação de outros homens, alguns deles usando distintivos e armas, que seriam conhecidos no meio policial pelo termo “gansos”, expressão usada para designar apoiadores de policiais em determinadas ações clandestinas ou suspeitas.
É importante destacar que essas acusações ainda são objeto de investigação e que a identificação dos participantes e a responsabilidade individual de cada um deverão ser estabelecidas pelas autoridades e pela Justiça.
Falsa viatura também teria aparecido na Zona Oeste
Outro ponto revelado pela investigação é que o veículo teria sido visto em uma abordagem na Zona Oeste de São Paulo.
Nas imagens citadas na reportagem do Metrópoles, homens — alguns usando toucas ninja — aparecem armados, inclusive com o que aparenta ser um fuzil.
Eles teriam apontado as armas para pessoas que registravam a movimentação e afirmado que eram policiais.
A utilização do mesmo automóvel em diferentes episódios é agora uma das linhas de investigação da Corregedoria.
A hipótese levantada pelos investigadores é de que o veículo não teria sido empregado em um episódio isolado, mas poderia fazer parte de uma estrutura utilizada para simular operações policiais e realizar abordagens clandestinas.
Outros policiais entram na investigação
Rafael Juergen Shult não é o único policial citado nas investigações.
A Justiça decretou também a prisão de Renan dos Santos, apontado pela investigação como um dos participantes do sequestro.
Outro policial civil, Milton Massaru, conhecido como “Japa”, lotado no 65º DP, em Artur Alvim, também passou a ser investigado por possível envolvimento no episódio.
Ele foi intimado a prestar depoimento à Corregedoria da Polícia Civil.
Além deles, outros três envolvidos já teriam sido identificados pelos investigadores e também são alvo da apuração.
O objetivo agora é esclarecer qual teria sido a participação individual de cada suspeito, identificar todos os integrantes do grupo e, principalmente, localizar a vítima.
O ponto mais grave: a vítima continua desaparecida
Apesar de a polícia já ter apreendido o veículo apontado como utilizado no crime e avançado na identificação de suspeitos, permanece uma pergunta central sem resposta:
Onde está o jovem levado no porta-malas?
Até a última atualização divulgada, ele continuava desaparecido.
A ausência de informações sobre seu paradeiro aumenta a gravidade do caso e coloca a localização da vítima como uma das principais prioridades da investigação.
A polícia também precisa esclarecer se o jovem foi alvo de uma ação relacionada ao tráfico de drogas, como sugerem algumas linhas investigativas, ou se havia outra motivação para o sequestro.
O que diz a Secretaria da Segurança Pública
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que todas as circunstâncias do caso estão sendo investigadas.
Segundo a pasta, as equipes realizam diligências para identificar todos os envolvidos, localizar a vítima e esclarecer integralmente o episódio.
A SSP também confirmou que a placa relacionada ao veículo foi identificada pelos investigadores, mas não consta nos registros oficiais, nem mesmo como pertencente a uma viatura.
A ausência de registro oficial reforça uma das principais suspeitas da investigação: a de que o automóvel tenha sido preparado para imitar uma viatura e conferir aparência de operação policial a uma ação que, segundo a própria polícia, não havia sido autorizada.
Defesa diz que fatos serão esclarecidos
A defesa de Rafael Juergen Shult informou que ainda analisaria os fundamentos da prisão e afirmou que os fatos serão esclarecidos.
Em manifestação divulgada posteriormente, os advogados disseram que não tinham tido acesso integral à decisão que decretou a prisão e que aguardariam para compreender os fundamentos apresentados pela Justiça.
Até a atualização das reportagens citadas, Rafael permanecia foragido.
A investigação continua para esclarecer não apenas o sequestro registrado em Artur Alvim, mas também a possível existência de outras abordagens realizadas com o mesmo veículo e por integrantes do mesmo grupo.
O caso reúne elementos particularmente sensíveis: um policial civil entre os investigados, uma falsa viatura, armas de grosso calibre, distintivos utilizados durante abordagens, suspeita de participação de outros agentes ou ex-agentes e, sobretudo, uma vítima que ainda não foi localizada.
A Corregedoria deverá apurar eventual participação de policiais e possíveis desvios funcionais, enquanto a investigação criminal busca determinar quem participou da ação, qual era a motivação do grupo e o que aconteceu com o jovem depois que ele foi colocado no porta-malas.