
“Farra do INSS: Conafer tentou filiar mortos e até uma criança de 9 anos, aponta CGU”
Auditoria revela uso de cadastros falsos e e-mails fabricados para fraudar descontos em aposentadorias; entidade teria arrecadado quase R$ 700 milhões desde 2019.
A Controladoria-Geral da União (CGU) revelou um episódio surreal envolvendo a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer): entre os documentos apresentados pela entidade ao INSS, estavam fichas de filiação de pessoas mortas — algumas há mais de 20 anos — e até de uma criança de apenas nove anos.
O caso faz parte da chamada “farra do INSS”, esquema que desviou valores de aposentadorias e pensões por meio de descontos indevidos em nome de sindicatos e associações. A denúncia foi encaminhada à CPMI do INSS e motivou a abertura de um processo administrativo contra a Conafer.
Segundo o relatório, as fraudes ocorreram em um período em que o INSS não exigia a apresentação das fichas de filiação originais no momento da inclusão dos descontos. Mesmo assim, a CGU classificou o episódio como “absurdo”, destacando que as datas das assinaturas em alguns documentos eram posteriores à morte dos supostos associados.
Além disso, o órgão descobriu um “padrão” nas falsificações: os e-mails criados para os cadastros seguiam a mesma estrutura, com abreviações de nomes e o ano de nascimento — um indício claro de que teriam sido fabricados pela própria entidade.
Entre 2021 e 2024, a Conafer tentou incluir descontos em mais de 3.300 benefícios de pessoas já falecidas. Em alguns casos, a fraude aconteceu até oito anos após o óbito do beneficiário. Desde 2019, a confederação arrecadou cerca de R$ 688 milhões de trabalhadores rurais e indígenas aposentados, segundo a CGU.
Durante depoimento à CPMI, o presidente da Conafer, Carlos Ferreira Lopes, reagiu com ironia quando questionado sobre as fichas de pessoas mortas:
“É padrão do INSS ter defunto recebendo benefício?”, rebateu, provocando indignação no colegiado.
Os dados da CGU ainda revelam que mais de 326 mil aposentados e pensionistas contestaram descontos da Conafer que nunca autorizaram. Mesmo diante desse número alarmante, a entidade não apresentou defesa em 80% dos casos, o que, segundo a Controladoria, indica um “reconhecimento tácito” das irregularidades.
A CGU também relatou que a Conafer dificultou a fiscalização, omitindo ou entregando parcialmente documentos solicitados.
Em resposta, a Conafer afirmou que não teve acesso ao relatório e nega as acusações. Disse ainda que a confederação apenas filia CNPJs — e não pessoas físicas —, atribuindo às federações e sindicatos a responsabilidade pelas filiações. A entidade declarou ter iniciado uma investigação interna.
Apesar das explicações, o escândalo expõe um retrato preocupante da vulnerabilidade no sistema de descontos do INSS — um terreno fértil onde até mortos e crianças acabam, ironicamente, “trabalhando” para alimentar o caixa de entidades suspeitas.