
Flávio Bolsonaro abre campanha presidencial em Copacabana e transforma legado de Jair Bolsonaro em principal bandeira
Em ato no Rio, senador aposta na força política do pai, critica Lula, promete classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas e fala em “resgatar a soberania” do Brasil; estratégia inclui passagem por Juiz de Fora e mobilização de bases bolsonaristas
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu neste domingo (16) o primeiro passo oficial de sua campanha à Presidência da República com um ato político na praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. A escolha do local teve forte peso simbólico: a Avenida Atlântica se consolidou nos últimos anos como um dos principais palcos das manifestações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao movimento bolsonarista.
Vestido com uma camisa verde e amarela estampada com a frase “Meu partido é o Brasil”, Flávio atravessou um corredor montado na avenida até chegar ao trio elétrico utilizado para o lançamento. Ao lado dele estavam a mulher, Fernanda Bolsonaro, o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro, Douglas Ruas, e o candidato a vice-presidente na chapa, Alfredo Gaspar.
O evento foi construído em torno de três elementos centrais: a identidade política do bolsonarismo, a defesa do legado do ex-presidente Jair Bolsonaro e a tentativa de apresentar Flávio como o nome capaz de dar continuidade ao projeto político da família.
A manifestação também contou com pedidos de “Volta, Bolsonaro”, conduzidos pelo apresentador do evento. Antes da chegada de Flávio ao trio elétrico, os discursos procuraram mobilizar especialmente o eleitorado feminino, enquanto referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro eram repetidas diante do público.
“Não vou desistir do Brasil”
No primeiro discurso oficial da campanha presidencial, Flávio Bolsonaro afirmou que não pretende abandonar a disputa e declarou que “não vai desistir do Brasil”.
O senador também lamentou a ausência física do pai no ato e afirmou que Jair Bolsonaro não poderia estar presente porque seria “odiado” por uma parcela dos poderosos.
A presença de Jair Bolsonaro, entretanto, ocorreu de maneira indireta. Em determinado momento do discurso, Flávio parou a fala para que o público pudesse ouvir uma mensagem gravada do ex-presidente.
Antes disso, ao falar sobre a relação política e familiar com Jair Bolsonaro, o senador recorreu a uma comparação com o futebol e afirmou:
“É difícil comparar o Pelé com o filho do Pelé, mas estou aqui com toda humildade.”
A frase sintetizou uma das principais características do lançamento: Flávio tenta apresentar-se como sucessor político do pai, mas, ao mesmo tempo, reconhece a dificuldade de substituir uma figura que ainda exerce forte influência sobre o eleitorado identificado com o bolsonarismo.
Jair Bolsonaro, em sua breve participação, afirmou que o Brasil precisa mudar e mencionou o temor relacionado à possibilidade de sua filha caçula ficar órfã.
Ataques ao governo Lula
O discurso de Flávio também foi marcado por críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao atual governo federal.
O senador afirmou que a gestão petista estaria deixando um “legado de incompetência e corrupção”. A declaração foi apresentada como parte da estratégia de confronto direto com Lula, que aparece como principal adversário de Flávio no cenário eleitoral descrito pelas pesquisas citadas no material.
Flávio também procurou associar questões de segurança pública ao debate sobre soberania nacional. Ao criticar a atuação do governo federal, afirmou que a administração atual estaria preocupada em confrontar um país estrangeiro, mas não enfrentaria adequadamente problemas relacionados à criminalidade dentro do Brasil.
Em uma das frases mais contundentes do discurso, declarou:
“O atual governo briga com país em outro continente, mas não briga com ladrão de celular, não temos soberania sobre nosso próprio celular.”
A segurança pública, portanto, apareceu como um dos eixos centrais da candidatura.
PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas
Flávio Bolsonaro apresentou uma proposta de endurecimento no combate ao crime organizado. O senador afirmou que, caso eleito, pretende tratar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas.
“Vou resgatar soberania do Brasil porque vou tratar PCC, Comando Vermelho e milícia como terroristas.”
A declaração coloca o combate às organizações criminosas no centro da plataforma eleitoral e sinaliza uma abordagem mais dura contra grupos que atuam no tráfico de drogas, controle territorial, extorsão e outros crimes.
A proposta também dialoga diretamente com uma das principais bandeiras históricas do bolsonarismo: a defesa de políticas de segurança pública mais rigorosas e de uma atuação estatal mais contundente contra organizações criminosas.
“Última fronteira” da democracia
Na tentativa de apresentar a trajetória política do pai como um legado a ser preservado, Flávio afirmou que o governo Jair Bolsonaro teria sido “a última fronteira na defesa pela democracia”.
A afirmação insere a candidatura em uma narrativa de continuidade. Em vez de construir a campanha exclusivamente em torno de uma nova identidade política, o senador procura transformar a experiência do governo Bolsonaro em patrimônio eleitoral e estabelecer uma ligação direta entre a antiga administração e seu próprio projeto presidencial.
Essa estratégia é particularmente relevante diante da ausência de Jair Bolsonaro como candidato. O ex-presidente continua sendo uma referência central para o eleitorado bolsonarista, enquanto Flávio tenta converter essa influência em uma candidatura própria.
Copacabana como símbolo político
A escolha de Copacabana foi cuidadosamente alinhada à memória política do bolsonarismo.
A praia recebeu algumas das maiores manifestações públicas de apoio a Jair Bolsonaro durante os últimos anos e tornou-se uma espécie de cenário nacional das mobilizações da direita brasileira.
Ao começar a campanha exatamente naquele espaço, Flávio reforça visualmente a ideia de continuidade entre sua candidatura e a trajetória política do pai.
O verde e amarelo da camisa, o trio elétrico, os discursos de exaltação ao ex-presidente e os gritos de “Volta, Bolsonaro” contribuíram para produzir uma atmosfera de mobilização política já conhecida pelo eleitorado bolsonarista.
O ato, portanto, não foi apenas o anúncio formal de uma candidatura. Também funcionou como uma tentativa de reativar uma identidade política construída em torno de Jair Bolsonaro e transferi-la para o filho.
Pesquisas mostram disputa ainda aberta
A largada da campanha ocorre em um cenário eleitoral no qual as pesquisas apresentadas nas reportagens indicam diferenças importantes entre os institutos.
Segundo levantamento Quaest, divulgado em 14 de agosto, Lula aparecia com 38% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 31%.
Em uma simulação de segundo turno entre os dois, a distância diminuía: Lula aparecia com 43%, contra 40% de Flávio, dentro da margem de erro indicada na pesquisa, de dois pontos percentuais.
Outro levantamento citado, da CNT/MDA, divulgado em 11 de agosto, apresentava cenário diferente. Lula tinha 42,4% no primeiro turno, enquanto Flávio registrava 28,7%.
Na simulação de segundo turno apresentada por esse instituto, Lula aparecia com 48%, contra 39,1% de Flávio.
A diferença entre os levantamentos evidencia um cenário ainda sujeito a oscilações e no qual metodologia, período de coleta, composição da amostra e demais critérios podem produzir resultados diferentes.
De Copacabana para Juiz de Fora
A estratégia eleitoral de Flávio não termina no Rio.
Na segunda-feira (17), o senador planeja levar a campanha a Juiz de Fora, em Minas Gerais, cidade que ocupa lugar importante na história política da família Bolsonaro.
Foi ali que Jair Bolsonaro sofreu uma facada durante a campanha presidencial de 2018.
A agenda de Flávio prevê uma motociata até a região onde ocorreu o atentado. A escolha do município reforça novamente a tentativa de construir uma narrativa de continuidade entre a trajetória do pai e a candidatura do filho.
O episódio de 2018 tornou-se um dos acontecimentos mais marcantes da campanha que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Ao retornar ao local durante a primeira semana de campanha, Flávio recupera uma memória política que permanece associada à história eleitoral da família.
Segurança também envolve a própria campanha
A passagem por Juiz de Fora ganhou ainda outro componente.
Um morador da cidade foi alvo de busca e apreensão após uma publicação interpretada pelas autoridades como ameaça a Flávio Bolsonaro. A Polícia Legislativa do Senado acompanhou o caso, e a Justiça determinou medidas cautelares contra o suspeito.
Em manifestação sobre o episódio, a Polícia do Senado afirmou que sua atuação decorre da competência institucional da corporação para proteger parlamentares e investigar infrações penais que atinjam integrantes ou interesses da Casa.
O episódio ocorre justamente no momento em que Flávio transforma segurança pública em uma das principais bandeiras de sua campanha.
Uma candidatura construída sobre a herança política
O lançamento em Copacabana deixou evidente que Flávio Bolsonaro pretende disputar a Presidência mantendo o vínculo direto com a imagem, o discurso e a base política de Jair Bolsonaro.
A campanha começa, portanto, com forte presença do sobrenome Bolsonaro e com uma mensagem dirigida principalmente ao eleitorado que se identifica com o ex-presidente.
Ao mesmo tempo, o senador precisa transformar essa herança política em uma candidatura presidencial própria. A tarefa envolve manter unido o eleitorado bolsonarista, ampliar o alcance para segmentos ainda fora desse núcleo e enfrentar um presidente Lula que também busca consolidar sua base para a disputa nacional.
No palco de Copacabana, Flávio apresentou-se como herdeiro político de um movimento que continua tendo Jair Bolsonaro como sua principal referência. Ao falar do pai, exaltar seu governo, criticar Lula e prometer uma política de segurança mais dura, o senador deu o tom inicial de uma campanha que pretende fazer da continuidade do bolsonarismo seu principal argumento eleitoral.
A imagem final do ato resumiu essa estratégia: o filho no trio elétrico, diante de uma multidão identificada com as cores verde e amarela, enquanto a voz do pai surgia para lembrar aos apoiadores que, apesar de não estar fisicamente no palco, Jair Bolsonaro continua ocupando o centro da narrativa política construída pela família para a eleição de 2026.