
Flávio Bolsonaro declara apoio a Eduardo Cunha e resgata o impeachment de Dilma na campanha de 2026
Presidenciável do PL exalta atuação do ex-presidente da Câmara na queda de Dilma Rousseff; Cunha, que tenta retornar ao Congresso por Minas Gerais, também declara apoio a Flávio
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) gravou um vídeo de apoio à candidatura de Eduardo Cunha (Republicanos-MG) a deputado federal por Minas Gerais. Publicada nas redes sociais de Cunha na noite de quarta-feira (26), a gravação recupera um dos episódios mais marcantes da política brasileira da última década: o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
No vídeo, Flávio apresenta Cunha como uma figura de importância histórica e associa diretamente sua trajetória à derrubada de Dilma. A declaração explicita a tentativa de transformar o episódio de 2016 novamente em elemento de identidade política no atual cenário eleitoral.
“Foi aquele que abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma, talvez a pior presidente que este país tenha tido e, graças a Deus, o Brasil reagiu a tempo.”
Na sequência, Flávio pede atenção dos eleitores mineiros para a candidatura de Cunha à Câmara dos Deputados.
A aliança entre dois personagens da política nacional
A aproximação tem um componente eleitoral evidente. Eduardo Cunha tenta retornar ao Congresso Nacional dez anos depois de ter seu mandato cassado pela Câmara. Ex-presidente da Casa, ele foi deputado federal por quatro mandatos pelo Rio de Janeiro e transferiu seu domicílio eleitoral para Minas Gerais para disputar uma vaga pelo estado em 2026.
Cunha, por sua vez, declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O gesto ocorre apesar de o Republicanos ter adotado neutralidade na disputa presidencial. O próprio Cunha faz questão de diferenciar sua posição pessoal da orientação nacional da legenda.
“Eu estou apoiando o Flávio Bolsonaro. Meu partido Republicanos está neutro, mas eu estou apoiando o Flávio Bolsonaro em Minas Gerais e no Brasil.”
A reciprocidade transforma o vídeo em mais do que uma simples manifestação de apoio. De um lado, Flávio busca reforçar sua rede política e recuperar símbolos associados ao campo conservador; de outro, Cunha procura utilizar a projeção nacional da família Bolsonaro para fortalecer sua tentativa de retorno à Câmara.
O impeachment de Dilma volta ao centro da narrativa
A principal referência utilizada por Flávio é a atuação de Cunha na abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Cunha presidia a Câmara quando aceitou, em dezembro de 2015, o pedido de impeachment apresentado contra a então presidente. Em abril de 2016, a Câmara aprovou o prosseguimento do processo por 367 votos a 137, encaminhando a decisão ao Senado. Dilma acabou afastada definitivamente da Presidência em 31 de agosto daquele ano.
Para Flávio, esse episódio representa uma reação política contra o governo petista. Ao classificar Dilma como “talvez a pior presidente” da história do país, o presidenciável não apenas elogia Cunha, mas também recupera uma linguagem de forte confronto com o PT.
A escolha da mensagem é significativa em uma eleição na qual Flávio disputa diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O resgate do impeachment funciona, portanto, como uma tentativa de conectar a campanha atual às disputas que marcaram a ascensão política do bolsonarismo.
O passado controverso de Eduardo Cunha
A aliança, contudo, também recoloca em evidência o histórico controverso de Cunha.
Em setembro de 2016, poucos meses depois do impeachment, a Câmara cassou seu mandato por 450 votos a 10. O processo estava relacionado à acusação de que Cunha havia mentido à CPI da Petrobras ao negar possuir contas no exterior. Na época, ele alegou ser vítima de perseguição política.
No mês seguinte, Cunha foi preso preventivamente no âmbito da Operação Lava Jato. As acusações envolviam recebimento de propina relacionada a contratos da Petrobras e tentativa de interferência nas investigações. Posteriormente, suas condenações foram anuladas pela Justiça em decisões tomadas entre 2021 e 2023, permitindo que recuperasse condições para disputar eleições.
Cunha tentou retornar à Câmara em 2022, quando disputou uma vaga por São Paulo, mas não foi eleito. Agora, sua estratégia é buscar novamente um mandato, desta vez por Minas Gerais.
Cunha procura reconstruir sua base em Minas
A candidatura mineira também representa uma mudança geográfica importante na trajetória do ex-presidente da Câmara. Segundo informações publicadas sobre sua campanha, Cunha vem concentrando esforços principalmente no interior do estado, aproximando-se de prefeitos, vereadores, lideranças políticas e segmentos evangélicos.
Sua estratégia inclui a utilização de redes de comunicação e de alianças locais. O ex-deputado também tem divulgado manifestações de apoio de diferentes figuras políticas e religiosas.
Entre os nomes que aparecem em conteúdos divulgados por Cunha estão o deputado Marco Feliciano (PL-SP) e o pastor Valdemiro Santiago.
Jair Bolsonaro também é lembrado
O vídeo de Flávio não é o único elemento da estratégia de Cunha para reconstruir sua imagem política. O ex-presidente da Câmara também vem utilizando imagens de Jair Bolsonaro relacionadas ao impeachment de Dilma.
Durante a votação do processo na Câmara, em abril de 2016, Bolsonaro, então deputado federal, elogiou Cunha pela condução dos trabalhos. A declaração é hoje recuperada nas redes sociais do ex-presidente da Câmara como parte da narrativa de sua participação naquele momento histórico.
A sequência cria uma espécie de ponte política entre 2016 e 2026: Cunha aparece como um dos protagonistas do impeachment; Jair Bolsonaro é apresentado como uma das vozes que o apoiaram naquele momento; e agora Flávio Bolsonaro retoma publicamente essa relação durante sua própria campanha presidencial.
Uma escolha política com forte carga simbólica
O apoio de Flávio tem, portanto, uma dimensão que ultrapassa a disputa por uma cadeira na Câmara. Ao escolher Cunha como aliado público, o candidato presidencial recupera deliberadamente uma memória política associada ao combate ao PT e à derrubada de Dilma Rousseff.
Há também uma dimensão pragmática. Cunha mantém relações políticas em Minas Gerais e declarou apoio explícito a Flávio, mesmo com a neutralidade formal de seu partido na eleição presidencial.
A aliança, porém, também carrega o peso do passado judicial e político de Cunha. Seu retorno eleitoral ocorre depois de cassação, prisão e anulação posterior de condenações — fatos que continuam fazendo parte de sua trajetória pública.
O episódio evidencia, assim, uma característica marcante da eleição de 2026: personagens e conflitos de uma década atrás voltam ao palco eleitoral, agora reinterpretados pelas campanhas atuais.
Para Flávio Bolsonaro, Eduardo Cunha representa o político que, em sua narrativa, “abriu os olhos” do país e ajudou a retirar Dilma do poder. Para Cunha, o apoio do candidato do PL oferece uma importante vitrine nacional enquanto tenta reconstruir sua carreira parlamentar em Minas Gerais.
A questão central é que essa aproximação não ocorre em um vazio histórico. Ela reúne o impeachment de Dilma, o passado controverso de Cunha, o legado político de Jair Bolsonaro e a atual disputa presidencial de Flávio em uma única peça eleitoral. É justamente essa combinação que dá ao vídeo um peso político muito maior do que o de um simples pedido de voto.
Crédito: informações compiladas a partir de Correio do Povo/Estadão Conteúdo, Folha de S.Paulo, O Tempo, Band e demais veículos que repercutiram o vídeo e a candidatura.