Flávio Bolsonaro no palco de Barretos  e promete “resgatar” o agro brasileiro

Flávio Bolsonaro no palco de Barretos e promete “resgatar” o agro brasileiro

Candidato à Presidência associa sua campanha ao agronegócio, recebe apoio de Tarcísio de Freitas e apresenta discurso de continuidade do projeto político de Jair Bolsonaro; Guilherme Derrite e Nikolas Ferreira também participaram da agenda

A arena da 71ª Festa do Peão de Barretos, em São Paulo, ganhou um tom político na noite deste sábado (22). O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) subiu ao palco do estádio de rodeios diante de uma plateia lotada e fez do agronegócio um dos principais eixos de seu discurso.

Ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição, Flávio afirmou que pretende recuperar a força do setor e transformá-lo novamente, em suas palavras, em um dos grandes símbolos do país no cenário internacional.

“Ultimamente, nosso agro tem sido muito atacado, tem ficado quase doente. Mas nós não vamos baixar a cabeça, vamos resgatar o nosso agro. O agro vai voltar a ser grande orgulho mundial.”

A fala sintetizou a estratégia adotada pelo candidato em um dos eventos mais tradicionais do calendário sertanejo brasileiro: aproximar sua candidatura do público ligado ao campo, ao agronegócio e ao interior paulista.

Barretos como palco político

A presença de Flávio não ocorreu de forma isolada. O candidato chegou ao evento acompanhado de figuras importantes da direita e de aliados que ocupam posições estratégicas na política paulista.

Além de Tarcísio, estavam presentes o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Guilherme Derrite (PP), candidato ao Senado por São Paulo.

Nikolas participou pela primeira vez da Festa do Peão de Barretos. Derrite, por sua vez, acompanhou a agenda política de Flávio em meio à disputa eleitoral paulista.

A escolha de Barretos possui forte significado simbólico. A festa reúne rodeio, música sertaneja, tradição do interior e uma expressiva presença de produtores rurais e trabalhadores ligados ao agronegócio. Nesse cenário, o discurso de Flávio encontrou um ambiente particularmente favorável à mensagem de valorização do campo.

Tarcísio aproveitou o momento para reforçar essa associação entre a festa, o interior paulista e o setor agropecuário.

“A gente está falando da maior festa do nosso interior, da maior festa sertaneja do Brasil, uma expressão do nosso agronegócio.”

O governador acrescentou que o setor “produz”, “faz a diferença”, “alimenta o Brasil” e “alimenta o mundo”, concluindo que o agronegócio “merece respeito”.

Tarcísio declara apoio a Flávio

Além do discurso sobre o agro, a passagem por Barretos teve uma dimensão eleitoral direta.

Durante uma entrevista coletiva, Tarcísio declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e apresentou o senador como o “herdeiro do projeto de Bolsonaro”.

Segundo o governador, Jair Bolsonaro teria escolhido o filho para disputar a Presidência da República.

“Ele é o herdeiro do projeto de Bolsonaro. Bolsonaro escolheu [Flávio] para concorrer à Presidência da República.”

Tarcísio afirmou ainda que está ao lado do candidato e demonstrou confiança no desempenho eleitoral da campanha.

A declaração é relevante porque consolida publicamente a posição do governador paulista em uma eleição na qual seu próprio nome chegou a ser tratado como possível alternativa presidencial dentro do campo conservador.

Ao apoiar Flávio, Tarcísio passa a atuar de maneira mais explícita na construção da candidatura do senador.

O discurso de Flávio e a tentativa de ocupar o espaço de Bolsonaro

A estratégia apresentada em Barretos também reforça uma característica central da campanha de Flávio: associar sua candidatura à continuidade do legado político de Jair Bolsonaro.

A presença do filho do ex-presidente em um ambiente tradicionalmente identificado com o eleitorado conservador permite ao candidato estabelecer uma ligação direta com uma parcela importante da base bolsonarista.

O discurso, porém, não ficou restrito à família Bolsonaro.

Flávio buscou apresentar o agronegócio como uma questão nacional e econômica, colocando o setor como elemento estratégico para a projeção internacional do Brasil.

A promessa de “resgatar” o agro funciona, nesse contexto, como uma mensagem política dirigida a produtores rurais, empresários, trabalhadores do campo e eleitores que identificam no setor uma das principais forças econômicas brasileiras.

Os números da economia do campo

O discurso ocorreu em um momento de perspectivas contraditórias para a agropecuária brasileira.

De acordo com os dados citados na reportagem, o setor registrou crescimento de 2% entre janeiro e março de 2026, na comparação com o último trimestre de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desempenho foi impulsionado principalmente pela produção de grãos, com destaque para a soja, cuja colheita se concentra no início do ano.

Ao mesmo tempo, existem projeções de perda de ritmo da atividade agropecuária nos próximos períodos. Entre os fatores mencionados estão o risco de impactos sobre as colheitas relacionados ao El Niño e a elevação dos custos de produção, especialmente aqueles relacionados aos fertilizantes.

É nesse ambiente que a campanha de Flávio tenta transformar a discussão econômica em uma bandeira eleitoral: defender o agronegócio como setor estratégico e apresentar sua candidatura como alternativa para fortalecer a atividade.

Nikolas Ferreira e o discurso conservador

A presença de Nikolas Ferreira ampliou a dimensão política da agenda.

O deputado federal mineiro é uma das principais figuras da nova geração da direita brasileira e vem desempenhando papel importante na mobilização digital e eleitoral do campo conservador.

Em Barretos, sua presença ajudou a aproximar a campanha de Flávio de um eleitorado jovem e politicamente engajado.

O deputado também declarou, durante a passagem pela festa, uma identificação direta entre o agronegócio e o campo político conservador.

A participação de Nikolas ocorre ainda em meio à disputa presidencial de 2026, na qual o bolsonarismo busca reorganizar sua força eleitoral em torno de Flávio.

Guilherme Derrite também acompanha o candidato

Outro integrante da comitiva foi Guilherme Derrite, deputado e candidato ao Senado por São Paulo.

A presença de Derrite acrescentou uma dimensão estadual à agenda. Além da disputa presidencial, a eleição paulista mobiliza diferentes nomes do campo conservador, e a aparição conjunta em Barretos serviu como demonstração de alinhamento entre candidaturas.

Assim, o palco reuniu três diferentes níveis da disputa: a candidatura presidencial de Flávio, a campanha de reeleição de Tarcísio e a corrida ao Senado de Derrite.

Antes de Barretos, Flávio esteve no Rio

A passagem pela Festa do Peão foi apenas uma parte da agenda de Flávio naquele sábado.

Antes de seguir para o interior de São Paulo, o candidato participou do lançamento da candidatura de Douglas Ruas ao governo do Rio de Janeiro, realizado no Maracanãzinho.

No evento, Flávio concentrou seu discurso na segurança pública e apresentou uma de suas principais propostas para o combate ao crime organizado.

O candidato afirmou que pretende classificar organizações como Comando Vermelho e PCC como grupos narcoterroristas, proposta incluída em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Flávio também utilizou uma linguagem de confronto direto com as organizações criminosas.

“Eu não vou baixar a cabeça para bandido.”

Na sequência, afirmou que os grupos teriam até o fim de 2026 para deixar o país e que, a partir de janeiro do ano seguinte, seu eventual governo declararia guerra aos chamados narcoterroristas.

A fala demonstra que a campanha combina duas grandes bandeiras: segurança pública e defesa do agronegócio.

O contraste entre Rio e Barretos

A diferença entre os dois compromissos revela a tentativa de Flávio de construir uma campanha com mensagens direcionadas a diferentes públicos.

No Rio de Janeiro, o candidato explorou a questão da criminalidade e do enfrentamento às organizações criminosas.

Em Barretos, a prioridade foi o agronegócio, o interior, a produção rural e a identidade conservadora associada ao evento.

A estratégia é clara: apresentar Flávio como candidato capaz de reunir pautas tradicionalmente associadas ao bolsonarismo — segurança, defesa do campo, conservadorismo e continuidade do projeto político de Jair Bolsonaro.

A eleição também entra no ambiente de Barretos

A presença de políticos no evento não impediu que a Festa do Peão continuasse sendo, sobretudo, uma celebração cultural e artística. Shows, rodeios e atrações musicais formam o centro da programação.

Entretanto, a dimensão política ganhou espaço justamente porque Barretos reúne um público considerado importante para a disputa eleitoral de 2026.

A arena, com capacidade para dezenas de milhares de pessoas entre arquibancadas e pista, tornou-se, naquela noite, também um espaço de demonstração de força política.

O ambiente conservador foi evidenciado pelos gritos de parte do público contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo manifestações com ataques ao petista.

Essas manifestações, contudo, representam a reação de parte da plateia e não devem ser automaticamente interpretadas como expressão da totalidade do público presente.

A corrida presidencial

A passagem de Flávio por Barretos ocorre em uma eleição na qual o senador aparece como principal adversário de Lula em determinados cenários de pesquisa.

Levantamento Datafolha divulgado em 21 de agosto apontou Lula com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno.

Em uma simulação de segundo turno entre os dois, o levantamento apresentou Lula com 47% e Flávio com 43%, considerando margem de erro de dois pontos percentuais.

Os números mostram uma disputa mais competitiva do que uma eventual diferença maior poderia sugerir, embora pesquisas eleitorais sejam retratos de determinado momento e não antecipem o resultado da eleição.

É nesse ambiente de competição que a campanha de Flávio procura ampliar sua presença em regiões e segmentos considerados estratégicos.

Um palco, duas mensagens

Em Barretos, Flávio Bolsonaro encontrou uma combinação particularmente conveniente para sua campanha: um grande público, forte identidade com o interior e o agronegócio, presença de importantes aliados e a possibilidade de reforçar a imagem de continuidade do bolsonarismo.

Tarcísio ofereceu respaldo político. Nikolas Ferreira acrescentou força à mobilização conservadora. Guilherme Derrite representou a dimensão eleitoral paulista. E Flávio aproveitou o palco para transformar a defesa do agro em promessa de governo.

A frase — “o agro vai voltar a ser grande orgulho mundial” — funcionou como síntese de sua mensagem.

Mais do que uma declaração econômica, foi uma tentativa de estabelecer uma identidade eleitoral: Flávio como sucessor político de Jair Bolsonaro, aliado do campo e candidato disposto a levar para a Presidência as bandeiras que marcaram a direita brasileira nos últimos anos.

Ao deixar a arena de Barretos, o candidato carregava, portanto, mais do que a imagem de uma noite de rodeio. Levava consigo uma demonstração pública de apoio de Tarcísio, a presença de importantes nomes da direita e um discurso cuidadosamente direcionado ao eleitorado do agronegócio — um dos campos mais disputados da eleição presidencial de 2026.

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