
General confessa ter imaginado plano para matar Lula, Alckmin e Moraes: “Foi só um pensamento”
Militar ligado ao governo Bolsonaro admite ter escrito documento com cenário de atentado contra autoridades, mas afirma que material era apenas uma “reflexão pessoal” que nunca foi compartilhada
O general Mario Fernandes, ex-número dois da Secretaria-Geral da Presidência durante o governo Bolsonaro, fez uma revelação inquietante durante depoimento nesta quinta-feira (24/7): assumiu que partiu dele a ideia registrada no documento conhecido como “Punhal Verde e Amarelo”, que descreve um plano para assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Segundo o próprio general, porém, tudo não passou de um “pensamento” solitário — que acabou sendo digitalizado por hábito.
“Era uma análise de risco, uma compilação de dados feita por mim, com a visão de um militar. Não compartilhei com ninguém, imprimi só para ler fora da tela e depois rasguei”, afirmou, tentando diminuir o peso do conteúdo, que consta na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado articulada no fim de 2022.
“Foi só um estudo pessoal… que eu me arrependo de ter digitalizado”
Questionado diretamente sobre a autoria do plano, Fernandes confirmou que o material era seu, mas tentou classificar como um exercício teórico, desprovido de qualquer ação prática ou articulação com terceiros. “Hoje eu me arrependo profundamente de ter colocado aquilo no papel. Foi um pensamento meu, nunca mostrei a ninguém.”
Apesar disso, ele reconheceu que o texto fazia menção direta ao uso de armamentos como pistolas e fuzis, além de estratégias envolvendo forças policiais e a execução de sequestros e homicídios de autoridades da República — o que põe em xeque o caráter meramente “reflexivo” do arquivo.
“Usei o termo ‘inadvertidamente’. Sim, me arrependo. Mas é importante reforçar que aquilo não saiu da minha cabeça para mais ninguém”, disse o general, tentando convencer que jamais compartilhou o conteúdo, mesmo tendo impresso o documento no Palácio do Planalto e, minutos depois, se deslocado ao Palácio da Alvorada — o que levanta suspeitas na investigação.
“Coincidência de horário”, diz general sobre visita a Bolsonaro após imprimir documento
Segundo Fernandes, o intervalo de 40 minutos entre a impressão do plano e sua entrada no Alvorada, em 9 de novembro de 2022, não passa de coincidência. Ele negou categoricamente ter entregue ou mostrado o conteúdo a alguém: “Não levei, não mostrei, não compartilhei. Nem impresso, nem digital.”
O general ainda afirmou que, se o HD de seu computador fosse analisado, não haveria nada que comprometesse sua versão ou reforçasse as acusações da denúncia.
Documento perigoso, justificativas frágeis
Apesar do esforço em minimizar o caso como um “desabafo digital”, o conteúdo do arquivo levantou alertas nas autoridades por seu grau de detalhamento e pela gravidade do que ali está descrito. E embora Fernandes insista que tudo foi “tirado de contexto”, o fato de um militar do alto escalão do governo Bolsonaro ter produzido um plano com alvos definidos e execução violenta contra os chefes dos Três Poderes lança uma sombra ainda mais pesada sobre os bastidores da transição presidencial de 2022.
Enquanto o julgamento da trama golpista segue avançando, o depoimento do general adiciona uma peça desconcertante ao quebra-cabeça: a de que, no centro do poder, havia gente que não apenas sonhava com o golpe — mas chegou a escrevê-lo, ainda que, segundo ele, “só para si mesmo”.