Governo critica renúncia fiscal milionária, mas foi ele mesmo quem autorizou

Governo critica renúncia fiscal milionária, mas foi ele mesmo quem autorizou

Enquanto condena perdão de dívidas de grandes empresas, Executivo mostra contradição ao defender medida aprovada pela sua própria gestão

O governo federal saiu nas redes sociais criticando duramente as chamadas “renúncias fiscais” milionárias concedidas a grandes empresas, usando o programa Bolsa Família como exemplo do que deveria ser prioridade. Porém, uma das situações que eles destacaram — o acordo feito com a varejista Americanas — foi, na verdade, uma medida aprovada e conduzida pela própria administração pública, por meio da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

Uma publicação oficial, criada pelo economista Presley Vasconcellos e divulgada no perfil do governo no Instagram, questionava: “Vamos falar da verdadeira preguiça?”, e apontava que só entre 2024 e 2025 o país abriu mão de cerca de R$ 400 bilhões em renúncias e isenções fiscais, o que daria R$ 4 milhões para cada empresa — sem exigir nada em troca.

Entre os exemplos citados estava uma reportagem que revelava um desconto de R$ 500 milhões que a Americanas conseguiu para quitar uma dívida de R$ 865 milhões com a União. O acordo, que prevê abatimento de juros e multas, está previsto na lei e é uma ferramenta usada para ajudar empresas em recuperação judicial a negociar suas dívidas.

Esse tipo de negociação, chamado de transação tributária, é legal e prevista pela Lei nº 13.988/2020, sendo comum em vários setores da economia. No caso da Americanas, o acordo incluiu ainda o uso de depósitos judiciais e créditos fiscais da própria empresa.

Essa crítica do governo sem explicar o contexto acabou deixando clara uma contradição, já que essa transação foi justamente articulada por órgãos ligados ao Executivo, como a PGFN, que é subordinada à Advocacia-Geral da União.

A Americanas, por sua vez, informou que o acordo vai refletir nas suas contas do segundo trimestre e destacou que essa medida traz “benefícios econômicos” porque evita custos altos com processos judiciais e honorários.

A empresa virou notícia nacional após, em janeiro de 2023, revelar inconsistências contábeis de até R$ 25 bilhões. Em 2025, o Ministério Público Federal denunciou vários ex-executivos por crimes graves, incluindo manipulação de mercado e falsidade ideológica.

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