
Janja volta a chamar Nikolas de “piá de bosta” durante ato de Lula em Belo Horizonte
Primeira-dama repete ofensa contra deputado durante evento de campanha em Minas Gerais, amplia confronto político e transforma discurso eleitoral em novo episódio de ataques pessoais
A primeira-dama Janja Lula da Silva voltou a atacar o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) durante o ato de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Belo Horizonte, nesta sexta-feira (2). Pelo segundo episódio em poucos dias, Janja utilizou a expressão “piá de bosta” para se referir ao parlamentar mineiro.
Durante a caminhada, realizada sob chuva e com concentração na Praça da Liberdade, Janja pegou o microfone e dirigiu a provocação diretamente ao deputado.
“Um salve para todo mundo de Minas Gerais, menos pro piá de bosta.”
Na sequência, ela voltou ao ataque:
“Mostra pra ele, gente, o que é blocão. Esse é o blocão da vitória do Lula presidente. Minas Gerais é muito maior do que aquele piá mentiroso, aquele piá de bosta.”
Janja ainda associou a mobilização à campanha petista em Minas Gerais e afirmou:
“Aqui é Lula, aqui é Patrus e é vitória de Lula no primeiro turno.”
A expressão não foi utilizada apenas uma vez. Segundo relatos do ato, a primeira-dama repetiu o termo durante a caminhada e voltou a mencionar o deputado ao falar sobre as críticas que vem recebendo da oposição.
Um ataque que deixou de ser episódio isolado
A nova declaração ocorre apenas três dias depois de Janja ter utilizado a mesma expressão contra Nikolas durante um ato de campanha em Salvador, na Bahia, em 29 de setembro.
Na ocasião, ela explicou que, no Paraná, onde nasceu, “piá” é uma maneira de se referir a menino e disse que a expressão seria utilizada quando alguém faz algo errado.
“Lá no Paraná, a gente costuma chamar os meninos de piá. E quando eles fazem alguma coisa errada, a gente chama de ‘piá de bosta’.”
Naquele primeiro episódio, Janja também disse que Nikolas deveria “lavar a boca” antes de falar de Lula e afirmou que ele ainda teria de “comer muito feijão” para chegar aos pés do presidente.
Agora, em Belo Horizonte, a expressão voltou a ser utilizada, demonstrando que o confronto entre a primeira-dama e o deputado deixou de ser uma ocorrência pontual e passou a fazer parte da disputa política dos últimos dias de campanha.
Como começou o confronto
A troca de ataques começou depois de uma declaração de Lula sobre exames médicos.
Ao falar sobre a resistência de homens ao exame de próstata, o presidente afirmou que homens têm dificuldade de realizar o procedimento e fez uma comparação com mulheres, dizendo que elas aprendem a “tomar toque desde pequenas”.
A fala provocou críticas de Nikolas, que publicou um vídeo interpretando a declaração de maneira diferente da explicação posteriormente apresentada pelo presidente.
Lula afirmou depois que havia utilizado uma “palavra” ou “frase errada” e disse que sua intenção era falar sobre a disposição das mulheres para realizar exames preventivos. A campanha petista também acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra uma publicação de Nikolas.
O presidente chamou Nikolas de “canalha”, enquanto Janja partiu para o termo “piá de bosta”.
Nikolas responde: “Vocês mexeram com o piá errado”
Nikolas não deixou as declarações sem resposta.
Na quinta-feira (1º), um dia antes da chegada de Lula a Belo Horizonte, o deputado realizou uma mobilização na capital mineira, com motociata e caminhada até a Praça Sete.
Durante o discurso, fez referência direta ao apelido utilizado por Janja:
“Amanhã eu quero ver se o Lula vai botar mais gente na rua que o piá de bosta aqui.”
Em outro momento, Nikolas afirmou:
“Vocês mexeram com o piá errado.”
A resposta transformou a própria ofensa de Janja em elemento de mobilização política utilizado pelo deputado durante seu ato em Belo Horizonte.
A crítica à postura de Janja
A repetição da expressão por parte da primeira-dama abre uma discussão que ultrapassa a disputa particular entre Janja e Nikolas.
Janja ocupa a posição institucional de primeira-dama da República e estava participando de um ato de campanha do presidente. Nesse contexto, a escolha de atacar um parlamentar adversário com uma expressão ofensiva chama atenção pelo tom adotado.
Críticas políticas fazem parte de uma campanha eleitoral. Questionar propostas, declarações, decisões e posicionamentos de adversários é parte normal do debate democrático.
Outra coisa é transformar um discurso público em uma sequência de insultos pessoais.
A crítica, portanto, não depende de concordar ou discordar de Nikolas Ferreira. O problema está no nível do debate público escolhido pela primeira-dama.
Em vez de concentrar o discurso em propostas para Minas Gerais, saúde, segurança, economia, educação ou qualquer outro tema de interesse dos eleitores, uma parte relevante da fala foi direcionada à repetição de um xingamento contra um adversário político.
Isso é especialmente significativo porque Janja não é apenas uma militante presente na plateia. Ela ocupa um papel público de enorme visibilidade ao lado do presidente da República.
Uma primeira-dama no centro da campanha
A participação de Janja na campanha de Lula tem sido cada vez mais visível, especialmente em eventos direcionados ao eleitorado feminino.
Ela tem atuado em discursos, mobilizações e manifestações políticas ao lado do presidente. Por isso, suas declarações também passam a integrar o debate eleitoral e a repercussão pública da campanha.
É justamente por ocupar essa posição que a repetição de um insulto como “piá de bosta” merece ser questionada.
A primeira-dama poderia criticar Nikolas. Poderia contestar suas declarações. Poderia apresentar argumentos políticos contra ele. Mas escolheu repetir uma ofensa pessoal.
E, ao fazê-lo novamente diante de uma multidão em Belo Horizonte, transformou o insulto em uma parte explícita de seu discurso eleitoral.
A política transformada em troca de provocações
O episódio também revela o grau de tensão da campanha de 2026.
De um lado, Lula e Janja atacam Nikolas. De outro, o deputado responde diretamente e utiliza as próprias provocações para alimentar seus discursos e mobilizações.
Nikolas chegou a afirmar que considera o ataque de Janja um elogio e passou a utilizar a expressão contra si mesmo para provocar os adversários.
O resultado é uma espécie de ciclo político em que uma ofensa gera outra, que gera uma nova resposta, enquanto os temas concretos da eleição acabam dividindo espaço com ataques pessoais.
Belo Horizonte como palco da disputa
A escolha de Belo Horizonte para os atos de Lula e Nikolas também deu dimensão maior ao confronto.
Na quinta-feira (1º), Nikolas realizou sua mobilização na capital mineira. No dia seguinte, Lula participou de caminhada na cidade ao lado de aliados e do candidato do PT ao governo de Minas Gerais, Patrus Ananias.
O ato de Lula começou com concentração na Praça da Liberdade e terminou na região da Praça Tiradentes. A programação sofreu atraso em razão da forte chuva que atingiu a capital.
Durante o evento, Lula também criticou adversários políticos em Minas Gerais, enquanto Janja voltou suas críticas diretamente para Nikolas.
O que fica do episódio
A nova declaração de Janja é mais um capítulo de uma disputa que começou nas redes sociais e rapidamente migrou para os palanques.
O presidente chamou Nikolas de “canalha”. A primeira-dama o chamou repetidamente de “piá de bosta”. O deputado respondeu afirmando que havia sido provocado e passou a utilizar o próprio termo como instrumento de mobilização.
O eleitor, porém, fica diante de uma questão mais ampla: até que ponto a campanha eleitoral deve ser transformada em uma sucessão de ataques pessoais?
A primeira-dama tem todo o direito de defender Lula e criticar adversários políticos. Nikolas também tem o direito de responder às críticas. O debate democrático, entretanto, ganha quando as divergências são apresentadas com argumentos e propostas, e não quando o discurso é reduzido a xingamentos.
A repetição da expressão por Janja em Belo Horizonte, portanto, reacende a crítica sobre sua postura pública.
Para seus críticos, o episódio representa mais um momento em que a primeira-dama escolhe o confronto pessoal em vez do debate político. Para seus apoiadores, trata-se de uma resposta às provocações de Nikolas.
O fato objetivo é que, em pleno palanque eleitoral, diante de apoiadores e com o presidente da República ao lado, Janja voltou a escolher o mesmo insulto para atacar um adversário político.
E é justamente essa escolha de linguagem que coloca novamente a primeira-dama no centro de uma controvérsia nacional.