
Justiça nega pedido de Willer Tomaz para barrar Richarlison, mas disputa pela ilha em Angra já teve desfecho judicial desfavorável à empresa ligada ao jogador
Advogado ligado a Flávio Bolsonaro tentou retirar publicações e impedir novas manifestações do atacante; juiz rejeitou a medida de urgência e apontou risco de censura prévia. Em outro processo, a empresa Sport 70 perdeu recursos no STJ e desistiu da ação em 2025, sem julgamento definitivo do mérito pelo tribunal superior.
Pedido para remover publicações foi rejeitado
O advogado Willer Tomaz, apontado como amigo do senador Flávio Bolsonaro, recorreu à Justiça do Distrito Federal para tentar retirar publicações do atacante Richarlison sobre a disputa por uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A iniciativa também buscava impedir que o jogador continuasse divulgando conteúdos semelhantes nas redes sociais.
A decisão não foi favorável ao advogado. Em 13 de agosto de 2026, o juiz Giordano Resende Costa, da 4ª Vara Cível de Brasília, negou o pedido de urgência. Segundo a reportagem do R7 publicada em 21 de outubro, o magistrado afirmou não ser possível identificar, naquele momento, comportamento ilícito ou abusivo nas manifestações questionadas.
O juiz também demonstrou preocupação com a possibilidade de a ação estar sendo utilizada para proteger interesses de terceiros, considerando que as publicações mencionavam principalmente Flávio Bolsonaro. A decisão ressaltou que proibir antecipadamente manifestações futuras, de forma ampla e indeterminada, poderia representar censura prévia.
É importante esclarecer: a rejeição da medida de urgência não significa que o advogado tenha sido condenado, nem que a Justiça tenha declarado verdadeiras todas as acusações de Richarlison. Significa que o pedido de restrição antecipada não foi acolhido.
O que aconteceu com o processo sobre a ilha?
A controvérsia imobiliária tem um histórico diferente. A disputa judicial envolveu empresas ligadas ao jogador e à empresa WT Administração de Imóveis e Bens, associada a Willer Tomaz.
Segundo informações divulgadas pelo Poder360 e pelo UOL, a empresa Sport 70, ligada ao antigo círculo empresarial de Richarlison, adquiriu direitos de ocupação em 2020 e contestou posteriormente a transferência da posse para a empresa de Tomaz.
O caso passou pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em 2025, o tribunal superior manteve uma decisão desfavorável à Sport 70. O recurso não prosperou porque, segundo os relatos publicados, sua análise exigiria o reexame de provas e de cláusulas contratuais.
Posteriormente, a empresa desistiu da ação, que foi extinta sem julgamento do mérito no STJ.
Essa distinção jurídica é essencial: houve resultado desfavorável à empresa e encerramento daquele processo, mas não é correto afirmar que o STJ condenou Richarlison pessoalmente ou que julgou definitivamente todas as acusações relacionadas ao caso.
A empresa perdeu, mas o jogador questiona os acontecimentos
Willer Tomaz sustenta que a empresa ligada ao jogador pagou a antigos ocupantes da área, e não à titular que, segundo sua defesa, possuía os direitos legítimos sobre o imóvel. A defesa também afirma que a documentação da WT e as decisões judiciais respaldam a posse atual.
Richarlison, por outro lado, afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na aquisição, em reformas e na estrutura do imóvel. Em vídeo divulgado nas redes sociais em 21 de outubro, apresentou documentos e números de processos para contestar a versão do advogado.
O atacante questionou ainda a diferença entre os prazos de tramitação dos procedimentos administrativos relacionados à área. Segundo ele, sua empresa aguardou meses pela regularização, enquanto o procedimento relacionado à empresa de Tomaz teria avançado rapidamente.
Essas alegações merecem ser examinadas com base nos documentos integrais. A apresentação de contratos ou recibos pode demonstrar pagamentos e acordos, mas não necessariamente comprova, isoladamente, a titularidade de todos os direitos sobre um imóvel.
Richarlison precisa explicar o alcance dos documentos
A crítica à postura pública do jogador não depende de negar seu direito de manifestação. O atacante pode questionar decisões, apresentar documentos e buscar providências legais. Entretanto, também deve explicar com precisão o que os documentos comprovam e qual é a situação jurídica atual da propriedade.
Se a empresa ligada a ele perdeu os recursos e posteriormente desistiu da ação, esse histórico não pode ser ignorado na discussão pública. Ao mesmo tempo, a desistência de uma ação não deve ser apresentada como uma condenação pessoal do jogador nem como prova automática de que todas as suas declarações são falsas.
A questão central é distinguir três coisas: o dinheiro que Richarlison afirma ter investido, os direitos de posse discutidos judicialmente e as acusações de irregularidades contra terceiros. Cada uma exige provas específicas.
Flávio Bolsonaro nega participação na disputa
O senador Flávio Bolsonaro também foi citado nas declarações do atacante. Richarlison afirma que ele teria demonstrado interesse na propriedade e associa seu nome à perda da posse.
Flávio nega ter comprado, vendido ou intermediado qualquer negócio relacionado ao imóvel. Segundo manifestações anteriores de sua assessoria, ele foi incluído como testemunha em uma das ações, sem integrar diretamente a disputa entre as empresas.
A amizade entre o senador e o advogado pode explicar por que seus nomes aparecem juntos no debate, mas não comprova, por si só, participação ilícita. Para sustentar uma acusação dessa natureza, seriam necessárias evidências concretas de conduta irregular.
A decisão sobre as publicações não encerrou toda a controvérsia
É fundamental não confundir os dois processos. A ação de Willer Tomaz contra as publicações de Richarlison teve o pedido de urgência negado em agosto. Já a disputa imobiliária passou por recursos judiciais, teve resultado desfavorável à empresa ligada ao jogador no STJ e foi encerrada após desistência.
Portanto, não é correto afirmar que o advogado foi condenado porque não conseguiu remover os conteúdos. Tampouco é correto dizer que a decisão sobre liberdade de expressão confirmou a versão de Richarlison sobre a ilha.
A rejeição do pedido de urgência protegeu, naquele momento, o direito de manifestação do jogador. Ela não resolveu, por si só, a questão da posse nem julgou o mérito de todas as acusações divulgadas nas redes sociais.
Conclusão: decisões judiciais devem ser respeitadas, e acusações precisam de provas
O caso de Angra dos Reis demonstra como uma disputa imobiliária pode se transformar em uma batalha pública envolvendo futebol, política e liberdade de expressão.
A empresa ligada a Richarlison teve resultado desfavorável no STJ e desistiu da ação em 2025. Esse histórico é relevante e deve ser levado em conta. Mas a afirmação de que o jogador foi pessoalmente condenado, de que houve julgamento definitivo de todas as acusações ou de que ele assinou um termo específico de renúncia exige documentação que comprove exatamente essas circunstâncias.
Da mesma forma, o pedido de Willer Tomaz para restringir as publicações foi rejeitado em caráter de urgência, mas isso não equivale a uma declaração de que todas as acusações do atacante são verdadeiras.
A crítica mais consistente é exigir transparência de todos os envolvidos. Richarlison deve apresentar provas e contextualizar as decisões judiciais; Willer Tomaz deve ter seus direitos protegidos sem recorrer a restrições incompatíveis com a liberdade de expressão; e Flávio Bolsonaro deve ser avaliado com base em evidências, não apenas por suas relações pessoais.
A Justiça não deve ser substituída por vídeos virais, acusações políticas ou julgamentos populares. O que foi efetivamente decidido nos processos precisa ser respeitado, e o que ainda é alegação deve continuar sendo tratado como alegação.