Liderança comunitária ou elo com o crime? Irmã de chefe do PCC recebe ministro de Lula em favela dominada por facção

Liderança comunitária ou elo com o crime? Irmã de chefe do PCC recebe ministro de Lula em favela dominada por facção

Presidente de ONG na Favela do Moinho, Alessandra Moja Cunha já foi condenada por homicídio e é irmã de traficante ligado ao PCC; endereço da entidade já foi alvo de apreensões de drogas pela polícia

Em 25 de junho, o ministro Márcio Macêdo (PT), da Secretaria-Geral da Presidência da República, visitou a Favela do Moinho, no centro de São Paulo, para conversar com moradores sobre um projeto habitacional do governo. O encontro foi mediado por Alessandra Moja Cunha, que se apresenta como liderança da comunidade. O que não apareceu nas fotos oficiais, no entanto, é que Alessandra é irmã de Leonardo Moja, conhecido como “Léo do Moinho”, um dos principais nomes do PCC na região — e que foi preso em 2024 na megaoperação Salus et Dignitas.

Alessandra comanda uma ONG que diz representar os moradores da favela. Mas o local que serve de sede para a entidade já foi alvo de operação policial e lá foram encontrados maconha, cocaína e crack, supostamente destinados ao tráfico na região central da cidade. O Ministério Público de São Paulo afirma que a Favela do Moinho é uma zona de forte influência da facção criminosa e de difícil acesso para quem não mora ali.

Além da ligação familiar com o tráfico, Alessandra já foi condenada por envolvimento direto em um homicídio brutal ocorrido em 2005, dentro da própria favela. Na época, ela e sua irmã assassinaram uma mulher a facadas, motivadas por ciúmes. Também tentaram matar um homem que estava com a vítima. Alessandra foi sentenciada a oito anos de prisão em regime semiaberto e passou mais de um ano no Centro de Progressão Penitenciária do Butantã. Em 2019, recebeu autorização judicial para cumprir o restante da pena em regime aberto, sob condições específicas.

Apesar do histórico criminal, Alessandra se apresenta frequentemente como representante da comunidade e crítica da atuação da Polícia Militar na região. Aos 40 anos, ela vive há mais de três décadas no Moinho, é mãe de quatro filhos e cuida de diversos cães.

O Ministério Público afirma que a família Moja transformou a favela numa espécie de entreposto do PCC, explorando a ausência do Estado para fomentar o tráfico e criar um ambiente hostil às ações policiais. Até o momento, Alessandra não foi denunciada formalmente no âmbito da operação que prendeu o irmão, mas o endereço da ONG que lidera foi citado na investigação por armazenar drogas.

Questionado, o ministro Márcio Macêdo disse que o objetivo da visita foi tratar exclusivamente de políticas habitacionais para famílias vulneráveis da favela. A Presidência afirmou que a segurança da comitiva seguiu os protocolos rigorosos adotados em eventos com presença de autoridades federais.

Enquanto o governo diz buscar o diálogo com lideranças comunitárias, a presença de um ministro de Estado em um território dominado por uma facção — mediado por uma mulher com condenação por homicídio e laços familiares com o crime organizado — levanta dúvidas sobre os critérios adotados para a escolha de interlocutores em áreas vulneráveis.

A Associação da Comunidade do Moinho não respondeu aos pedidos de posicionamento.

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