
LULA ATACA SABATINA DA GLOBO, CHAMA TRALLI DE “INVESTIGADOR” E TRANSFORMA PERGUNTAS JORNALÍSTICAS EM ALVO POLÍTICO
Presidente reclama de entrevista no Jornal Nacional, diz que programa parecia uma “inquisição” e ironiza César Tralli após questionamentos sobre INSS; reação provoca críticas por tentar desqualificar o jornalismo quando as perguntas se tornam incômodas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), voltou a criticar a entrevista concedida ao Jornal Nacional, da TV Globo, e atacou diretamente o jornalista César Tralli, que conduziu a sabatina ao lado de Renata Vasconcellos.
Durante evento no Palácio do Planalto, em 3 de setembro de 2026, Lula afirmou que a entrevista parecia uma “inquisição” e chamou Tralli de “meu investigador” ao recordar uma pergunta feita pelo jornalista sobre a fila de pedidos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A declaração transformou uma entrevista eleitoral em mais um capítulo da relação turbulenta entre Lula e a imprensa.
O episódio também expõe uma questão essencial para a democracia: um presidente candidato à reeleição precisa ser questionado, inclusive sobre problemas de sua própria administração. A pergunta incômoda não é perseguição. É parte do trabalho jornalístico.
A frase de Lula contra Tralli
Ao recordar a sabatina, Lula afirmou que havia sido submetido a uma espécie de interrogatório.
O presidente disse que a entrevista da Globo parecia uma “inquisição” e ironizou a atuação de César Tralli:
“O meu investigador, o Tralli, resolveu…”
A referência estava relacionada à pergunta sobre a situação da fila do INSS.
Lula então afirmou que havia milhões de requerimentos pendentes e respondeu que o governo estava trabalhando para resolver o problema.
Dias depois da entrevista, o Planalto realizou uma cerimônia para anunciar o que chamou de fim da fila do INSS.
A narrativa presidencial é clara: Lula pretende apresentar a redução do estoque como uma grande realização de seu governo e sugerir que a pergunta de Tralli ajudou a antecipar a demonstração do resultado.
O problema de chamar jornalista de “investigador”
A ironia utilizada por Lula pode parecer apenas uma brincadeira política.
Mas existe uma questão mais profunda.
O trabalho de um jornalista é justamente perguntar, confrontar informações, pedir explicações e verificar afirmações de autoridades.
Quando o presidente chama o jornalista de “investigador” porque foi questionado sobre um problema do próprio governo, a crítica pode ser interpretada como uma tentativa de deslocar o foco da pergunta para quem fez a pergunta.
A questão não deveria ser se Tralli foi “investigador”.
A questão deveria ser:
havia ou não milhões de pedidos pendentes no INSS?
A resposta é que ainda havia um volume expressivo de requerimentos em análise, embora o governo tenha adotado uma nova metodologia para anunciar que a chamada fila foi zerada.
Tralli não estava julgando Lula
Durante a entrevista, César Tralli não tinha poder para condenar o presidente, determinar qualquer medida administrativa ou decidir a situação do INSS.
Ele estava fazendo perguntas.
Essa distinção parece óbvia, mas ganha importância diante da reação de Lula.
Uma entrevista jornalística não é julgamento.
O jornalista não é juiz.
O candidato não precisa concordar com a pergunta.
Mas precisa estar preparado para respondê-la.
E o eleitor precisa ter acesso às respostas.
Renata Vasconcellos também participou da sabatina
A entrevista não foi conduzida exclusivamente por Tralli.
A jornalista Renata Vasconcellos também participou da sabatina.
Os dois jornalistas fizeram perguntas sobre temas econômicos, políticos e administrativos, submetendo Lula a um dos momentos de maior exposição da campanha.
O formato foi semelhante ao adotado nas demais entrevistas da Globo com os principais candidatos à Presidência.
Além de Lula, foram sabatinados Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos, segundo o calendário da emissora.
Portanto, Lula não foi o único candidato submetido ao escrutínio do telejornal.
Por que a entrevista incomodou?
O desempenho de Lula durante a sabatina gerou avaliações variadas.
Aliados do presidente consideraram que ele enfrentou bem a entrevista.
Analistas, entretanto, apontaram momentos de irritação, desgaste na voz e respostas que acabaram criando novos problemas políticos, especialmente no episódio envolvendo Roberta Luchsinger, além do debate sobre o INSS.
A entrevista, portanto, cumpriu justamente uma das funções do jornalismo eleitoral: expor o candidato a perguntas que não necessariamente receberia em um discurso de campanha.
A pergunta sobre o INSS
Entre os temas mais sensíveis esteve o problema da fila do INSS.
O governo Lula vinha sendo pressionado pela demora na análise de benefícios.
A pergunta de Tralli colocou esse problema diretamente diante do presidente.
Lula respondeu que a situação vinha sendo enfrentada e posteriormente anunciou a redução da espera.
Pouco depois, o governo organizou no Planalto um evento dedicado ao resultado.
O episódio permite uma leitura interessante.
A pergunta do jornalista criou pressão.
O governo apresentou sua resposta.
E o eleitor passou a ter mais elementos para comparar promessa, estatísticas e realidade.
Isso é exatamente o funcionamento esperado do jornalismo.
A disputa sobre a “fila zerada”
O episódio ganhou uma segunda camada porque a afirmação posterior do governo de que a fila havia sido “zerada” passou a ser contestada por análises sobre a metodologia.
O Executivo passou a considerar como “sem fila” uma situação em que o estoque de pedidos fica abaixo do fluxo mensal de novos requerimentos.
Essa definição não significa que não exista nenhum processo pendente.
O próprio governo apresentou números que mostram a existência de um estoque relevante.
Portanto, a pergunta feita por Tralli continuou pertinente mesmo depois do anúncio.
Lula pode comemorar o resultado
Também é necessário reconhecer o avanço administrativo.
O número de processos pendentes caiu fortemente.
O tempo médio de análise também foi reduzido.
O governo atribui a melhora a medidas como contratação de servidores, bônus, mutirões, análise documental e digitalização.
Nada disso invalida a pergunta jornalística.
Ao contrário.
Quanto maior o resultado apresentado pelo governo, mais importante é que a imprensa questione como ele foi obtido e exatamente o que os números significam.
A crítica política de Lula
Lula tem o direito de criticar a Globo.
Tem o direito de dizer que considerou uma pergunta injusta.
Tem o direito de discordar de Tralli.
Também tem o direito de apontar erros jornalísticos, quando existirem.
O problema aparece quando uma crítica à cobertura é transformada em desqualificação do próprio ato de perguntar.
Chamar o jornalista de “investigador” pode produzir uma mensagem política perigosa: a de que perguntas duras seriam uma forma de perseguição.
Não são.
Perguntas duras fazem parte de uma eleição.
Um candidato não escolhe as perguntas
Em um comício, Lula escolhe o que dizer.
Em uma propaganda eleitoral, sua campanha escolhe a mensagem.
Em uma entrevista, porém, existe uma variável que o candidato não controla: o jornalista.
É justamente por isso que entrevistas são importantes.
O candidato precisa responder a perguntas que não foram escritas por sua assessoria.
Precisa lidar com fatos desconfortáveis.
Precisa explicar contradições.
Precisa corrigir informações.
E o eleitor decide o que fazer com essas respostas.
O risco de transformar crítica à imprensa em estratégia eleitoral
A reação de Lula também pode ser entendida dentro de uma estratégia política mais ampla.
Ao criticar a Globo, o presidente dialoga com uma parcela do eleitorado que desconfia dos grandes meios de comunicação.
A mensagem pode funcionar entre apoiadores já convencidos de que existe uma cobertura hostil contra o governo.
Mas existe um problema.
A campanha passa a discutir o jornalista em vez da informação.
Em vez de discutir os dados da Previdência, fala-se sobre Tralli.
Em vez de discutir o estoque de requerimentos, fala-se sobre a Globo.
Em vez de discutir o desempenho do governo, discute-se a suposta “inquisição”.
O histórico de tensão com a Globo
O relacionamento político entre Lula e a Globo possui uma longa história de momentos de conflito e aproximação.
Lula já criticou a emissora em diferentes momentos por sua cobertura política.
Também já reconheceu publicamente o papel da imprensa e concedeu entrevistas à emissora.
Não há nada de anormal em um político discordar de uma empresa jornalística.
O que precisa ser preservado é o princípio de que a imprensa pode perguntar livremente e o poder público precisa suportar o escrutínio.
A questão da liberdade de imprensa
Em uma democracia, a liberdade de imprensa não significa que jornalistas sejam infalíveis.
Significa que jornalistas devem poder investigar, perguntar e publicar sem medo de retaliação estatal.
Isso vale para Lula.
Vale para seus adversários.
Vale para governadores.
Vale para ministros do STF.
Vale para parlamentares.
E vale para empresários.
O poder deve ser questionado precisamente porque possui poder.
O contraste com a campanha eleitoral
Lula está buscando a reeleição.
Isso significa que cada entrevista possui duas dimensões.
Uma institucional, porque ele continua sendo presidente da República.
Outra eleitoral, porque está pedindo novamente o voto dos brasileiros.
Essa combinação torna ainda mais importante o trabalho de veículos jornalísticos independentes.
O eleitor precisa saber como o candidato reage quando confrontado com problemas de seu próprio governo.
Lula e o direito de resposta
Existe uma diferença importante entre criticar uma entrevista e fugir da entrevista.
Lula compareceu.
Sentou diante dos jornalistas.
Respondeu às perguntas.
Isso é positivo.
O presidente não precisa gostar da entrevista.
Mas o episódio mostra também que o processo democrático funciona melhor quando autoridades aceitam responder publicamente mesmo diante de perguntas desconfortáveis.
O episódio Roberta Luchsinger
Outro momento controverso da sabatina envolveu Roberta Luchsinger.
Lula afirmou que não conhecia a empresária, declaração que ganhou repercussão depois que imagens passaram a circular mostrando os dois no mesmo ambiente em diferentes ocasiões.
A campanha presidencial sustentou que fotografias não seriam suficientes para demonstrar uma relação pessoal ou política.
O episódio demonstra por que perguntas jornalísticas são relevantes.
Uma declaração presidencial pode ser confrontada com documentos, fotografias e outras informações disponíveis.
Não é o jornalista que decide a verdade.
É a verificação dos fatos.
A imprensa não precisa agradar Lula
Esse talvez seja o ponto central.
O papel de César Tralli não é agradar Lula.
Também não é atacar Lula.
É questioná-lo.
Da mesma maneira que deveria questionar Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos.
Uma eleição democrática exige candidatos submetidos a perguntas difíceis.
O eleitor é o verdadeiro destinatário
No final, a entrevista não pertence ao presidente nem ao jornalista.
Pertence ao público.
É o eleitor que precisa saber como o candidato reage aos problemas do país.
É o eleitor que precisa avaliar se uma explicação é convincente.
É o eleitor que deve decidir se acredita na promessa de “fila zerada”, na proposta de reforma do Judiciário ou em qualquer outra bandeira de campanha.
A função do jornalista é fornecer informação para que essa decisão seja possível.
Lula e a crise de confiança
A crítica do presidente ocorre em um momento em que seu governo enfrenta pesquisas com números preocupantes.
Levantamento recente do Datafolha apontou 51% de desaprovação ao trabalho de Lula, contra 45% de aprovação, enquanto a avaliação negativa do governo chegava a 42%.
Nesse contexto, entrevistas ganham ainda mais importância.
Lula não enfrenta apenas adversários políticos.
Enfrenta também dúvidas de eleitores independentes.
E são justamente esses eleitores que podem prestar atenção à maneira como ele responde quando pressionado.
O problema de atacar o mensageiro
Ao chamar Tralli de “investigador”, Lula deslocou a discussão.
A pergunta era sobre o INSS.
A resposta posterior tornou-se uma discussão sobre a atuação do jornalista.
Essa mudança de foco é politicamente conveniente, mas não responde ao problema original.
A pergunta continua existindo.
Quantas pessoas ainda aguardavam atendimento?
Quantos processos estavam fora do prazo?
Qual metodologia está sendo utilizada para definir “fila”?
Quanto tempo cada tipo de benefício demora?
Essas são as questões que interessam ao segurado.
O jornalismo precisa continuar perguntando
A reação presidencial não deve intimidar a imprensa.
César Tralli não estava ali para confrontar Lula pessoalmente.
Estava ali para representar uma função jornalística.
O mesmo vale para Renata Vasconcellos.
O jornalista pergunta.
O candidato responde.
O público avalia.
E, quando necessário, o jornalista confere a resposta.
Conclusão
Ao chamar César Tralli de “investigador” e dizer que a entrevista da Globo parecia uma “inquisição”, Luiz Inácio Lula da Silva transformou uma pergunta sobre a fila do INSS em mais um episódio de confronto com a imprensa.
A crítica presidencial pode ser compreendida como reação política.
Mas não deve esconder o ponto essencial.
Tralli estava fazendo seu trabalho.
Lula estava sendo entrevistado como presidente e candidato à reeleição.
Uma pergunta sobre milhões de requerimentos previdenciários pendentes não é perseguição.
É uma pergunta legítima.
O governo pode responder, apresentar dados, explicar mudanças metodológicas e demonstrar resultados.
E foi exatamente isso que fez ao anunciar posteriormente a forte redução do estoque e do tempo médio de análise.
O problema está em tentar transformar a cobrança jornalística em problema.
Em uma democracia, o poder deve ser questionado — inclusive quando o governante é popular, inclusive quando está em campanha e inclusive quando a pergunta vem de uma emissora que ele não aprecia.
Lula não precisa gostar de César Tralli.
Não precisa concordar com a Globo.
Não precisa aceitar toda crítica.
Mas, enquanto estiver no Palácio do Planalto e pedir novamente o voto dos brasileiros, terá de conviver com algo que faz parte da própria democracia que afirma defender:
perguntas difíceis, respostas públicas e imprensa livre para verificar se as promessas correspondem à realidade.