
Lula banca chefe da Abin mesmo após indiciamento e expõe racha interno no governo
Apesar das suspeitas da PF e da pressão institucional, presidente decide manter Luiz Fernando Côrrea no comando da inteligência e vê disputa política entre PF e Abin
Mesmo após o indiciamento pela Polícia Federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu manter Luiz Fernando Côrrea à frente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Segundo assessores próximos ao presidente, a decisão foi tomada com base no entendimento de que o simples indiciamento não justificaria, por si só, o afastamento do diretor. O caso, no entanto, será acompanhado de perto pelo Palácio do Planalto.
A investigação da PF aponta que Côrrea e outros integrantes da atual gestão da Abin teriam dificultado o avanço das apurações sobre a chamada “Abin paralela”, uma estrutura clandestina que atuou sem respaldo legal durante o governo Bolsonaro.
Lula discutiu o assunto nesta quarta-feira com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, no Palácio da Alvorada. Antes do encontro, Rui já havia feito contato com Côrrea, em uma ligação que interlocutores descrevem como um gesto de tranquilidade, embora o futuro do diretor não tenha sido tratado abertamente.
Nos bastidores do Planalto, a maioria já considerava improvável a troca no comando da Abin neste momento. O presidente costuma só afastar integrantes do governo após uma denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República, como ocorreu no caso do ex-ministro das Comunicações, Juscelino Filho.
Além disso, Lula enxerga o caso como reflexo de uma disputa interna entre duas corporações: a Polícia Federal e a própria Abin. Para ele, há um embate de versões e interesses que precisa ser analisado com cautela.
Luiz Fernando Côrrea é um nome de confiança de Lula. Durante o primeiro mandato do petista, foi ele quem criou e liderou a Força Nacional de Segurança. Depois, comandou a PF entre 2007 e 2010. Ao nomeá-lo para a Abin no início do atual governo, Lula deu carta branca para uma reestruturação que aproximasse os serviços de inteligência da Presidência.
Contudo, Côrrea enfrenta resistência dentro do próprio governo. Ele e o atual diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, não se falam e pertencem a grupos políticos diferentes. Enquanto Côrrea tem ligação mais próxima com Rui Costa, Rodrigues é aliado do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da primeira-dama, Janja da Silva.
O clima entre os dois piorou após as operações da PF sobre a Abin paralela, iniciadas em outubro de 2023. A agência foi acusada de usar indevidamente um software espião chamado FirstMile para rastrear pessoas sem autorização judicial. O sistema teria sido adquirido e utilizado durante o governo Bolsonaro, ignorando completamente os mecanismos legais de controle.
Segundo a PF, a Abin foi instrumentalizada para perseguir adversários políticos, produzir dossiês ilegais e espalhar desinformação. Entre os alvos da espionagem estão ministros do Supremo Tribunal Federal (como Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Luiz Fux), além de nomes como Arthur Lira, Rodrigo Maia e João Doria.
Um dos trechos mais delicados do inquérito mostra que integrantes da Abin tentaram atingir o então ministro da Justiça, Flávio Dino, que foi responsável por abrir a investigação enquanto ainda estava no cargo. Em mensagens interceptadas pela PF, membros da cúpula da agência trocaram informações que buscavam comprometer Dino com base em contratos do tempo em que governava o Maranhão.
A Polícia Federal acusa o grupo de criar uma rede estruturada de espionagem e desinformação, dividida em núcleos operacionais e de propaganda. Segundo os investigadores, o programa FirstMile era usado para colher dados que depois alimentavam dossiês e fake news, veiculadas por operadores ligados ao núcleo político da estrutura.
Ainda que o escândalo comprometa a imagem do governo — já desgastada, como apontou o Ipec — Lula optou por manter Côrrea no cargo, ao menos por ora. A leitura interna é que afastá-lo agora fortaleceria um dos lados dessa queda de braço institucional. O Planalto vai acompanhar cada passo do processo e agir apenas diante de fatos novos ou acusações formais.
Enquanto isso, a crise na inteligência nacional escancara não só os abusos do passado, mas também as rachaduras que seguem corroendo o núcleo do atual governo.