
Tentativa de Sabotagem Interna: Ex-número 2 da Abin queria minar chefe da PF
Mensagens revelam plano de Alessandro Moretti para deslegitimar diretor da Polícia Federal e barrar investigação sobre espionagem ilegal
O relatório final da Polícia Federal sobre a chamada “Abin paralela” trouxe à tona uma revelação preocupante: o ex-subdiretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alessandro Moretti, tentou levantar informações comprometedoras contra o atual diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O objetivo era descredibilizar Rodrigues e enfraquecer a investigação que apura o uso ilegal de ferramentas de espionagem dentro da própria agência.
Em mensagens interceptadas pelos investigadores, Moretti aparece pedindo ajuda a colegas para descobrir se Rodrigues estaria apoiando uma greve dos policiais federais no fim de 2023 — um momento em que havia mobilização por aumento salarial. Ele solicitava provas, como declarações ou mensagens, que o ligassem ao movimento grevista, referindo-se a Rodrigues de forma pejorativa.
Na época, Moretti era o número dois da Abin e respondia diretamente ao então diretor Luiz Fernando Corrêa. Ambos foram indiciados pela PF por tentativa de obstrução de Justiça. De acordo com o relatório, eles trabalharam para tentar desacreditar as apurações, alegando que tinham motivação política.
Um dos indícios usados pela PF foi uma foto compartilhada por Moretti para insinuar uma ligação entre Andrei Rodrigues e o ex-ministro bolsonarista Anderson Torres. A imagem era de um evento de 2017, mas foi recortada estrategicamente para criar a ilusão de proximidade entre os dois. Para os investigadores, esse gesto foi mais uma tentativa de atacar politicamente Rodrigues e associá-lo ao antigo governo.
Moretti foi exonerado em 2024, após o avanço das investigações. Curiosamente, ele alegava ter sido o primeiro a apurar internamente o uso irregular da ferramenta FirstMile — um sistema capaz de rastrear a localização de pessoas sem autorização judicial. Esse sistema foi utilizado por uma estrutura clandestina da Abin, como revelou a imprensa em 2023.
A ficha de Moretti pesava já desde sua nomeação, pois ele ocupou cargos estratégicos durante a gestão de Anderson Torres, no Ministério da Justiça e na Secretaria de Segurança do DF, ambos sob Bolsonaro. Apesar disso, foi nomeado por Luiz Fernando Corrêa, que permanece no comando da Abin com respaldo do ministro da Casa Civil, Rui Costa.
O relatório da PF também aponta que a atual cúpula da Abin teria tentado criar um “fato político” para atingir o então ministro da Justiça, Flávio Dino, hoje no STF. Segundo os investigadores, o plano envolvia resgatar contratos de compra de softwares de espionagem feitos pelo governo do Maranhão, em 2017, quando Dino era governador, tentando relacioná-lo ao caso FirstMile.
Essa articulação foi descoberta após a quebra de sigilo das mensagens de Moretti, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Para a PF, essas ações buscavam minar a legitimidade das investigações e proteger os envolvidos com a estrutura paralela de espionagem.
Procurados, Moretti, Corrêa e Andrei Rodrigues não se pronunciaram. Flávio Dino também preferiu não comentar. A Abin manteve silêncio. O caso segue com novos desdobramentos previstos.