
Lula chamava Cármen Lúcia de “falsa humilde”, Fachin de “filho da puta” e Fux de “canalha”, revela ex-carcereiro em livro sobre prisão do petista
Relatos do policial federal Jorge Chastalo Filho, que acompanhou Lula durante os 580 dias de prisão em Curitiba, expõem bastidores de conversas atribuídas ao atual presidente e revelam uma relação marcada por ressentimento, xingamentos e acusações de ingratidão contra ministros do STF. Até magistrados que chegaram à Suprema Corte por indicações de Lula e Dilma Rousseff teriam sido alvos da irritação do petista quando decisões judiciais contrariavam seus interesses.
O discurso público de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) costuma ser recheado de referências à humildade, ao respeito às instituições, à democracia e à convivência entre diferentes. Entretanto, os bastidores de sua passagem pela carceragem da Polícia Federal em Curitiba apresentam uma versão bastante diferente do comportamento atribuído ao presidente quando estava longe dos microfones e das câmeras.
Um livro escrito pelo policial federal Jorge Chastalo Filho, que acompanhou Lula durante os 580 dias em que permaneceu preso, revela conversas nas quais o petista teria utilizado expressões extremamente ofensivas para se referir a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo magistrados que chegaram à Corte por indicações feitas por ele próprio ou por sua sucessora, Dilma Rousseff.
A obra, intitulada Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula, apresenta relatos sobre a rotina do então ex-presidente, suas conversas, suas avaliações políticas e, principalmente, sua irritação com decisões judiciais que contrariavam as expectativas de sua defesa.
Entre os principais alvos das críticas atribuídas a Lula estavam Cármen Lúcia, Edson Fachin e Luiz Fux. Os episódios relatados pelo ex-carcereiro mostram que a gratidão, aparentemente, tinha limites bastante definidos quando os magistrados deixavam de tomar decisões favoráveis ao petista.
CÁRMEN LÚCIA: DE INDICADA AO STF A “FALSA HUMILDE”
Um dos episódios mais reveladores envolve a ministra Cármen Lúcia, indicada por Lula ao Supremo em 2006.
Segundo Chastalo, em julho de 2018, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) discutia a possibilidade de Lula disputar a Presidência da República, o então ex-presidente demonstrou profunda irritação com a ministra.
De acordo com o relato publicado no livro, Lula teria recordado uma conversa anterior à indicação de Cármen ao STF. Na ocasião, ela teria falado sobre sua origem humilde, sobre o pai trabalhador e sobre a importância da gratidão.
O petista teria interpretado que a ministra não correspondia à expectativa de reconhecimento que ele acreditava existir por ter participado de sua indicação.
A expressão atribuída a Lula foi direta: “A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo. Conhece esse tipo de gente?”.
Em outro momento, segundo o policial, o presidente teria demonstrado ainda mais irritação: “Fui dormir cedo ontem, com um ódio muito grande da Cármen Lúcia. Ela falava em gratidão e agora deu nisso. Essa miserável”.
Também teria afirmado que a ministra estava insegura e tomando decisões que desagradavam a ele.
A ironia desse episódio é difícil de ignorar. O homem que frequentemente utiliza a palavra gratidão em seus discursos teria cobrado justamente esse sentimento de uma ministra cuja atuação institucional não correspondia às suas expectativas pessoais.
Parece que, na interpretação atribuída a Lula, a gratidão deveria continuar valendo mesmo quando a magistrada precisava tomar decisões independentes.
FACHIN TAMBÉM ENTROU NA LISTA DE DESAFETOS
O ministro Edson Fachin, igualmente indicado ao STF durante os governos petistas, também teria sido alvo de palavras duríssimas.
Segundo o relato de Chastalo, a irritação de Lula aumentou depois que Fachin retirou de pauta o julgamento de um habeas corpus apresentado pela defesa do então ex-presidente, que buscava sua libertação.
O policial afirma que Lula reagiu utilizando uma expressão ofensiva contra o magistrado: “Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo”.
O petista teria explicado que não havia escolhido Fachin para o Supremo durante seu próprio mandato porque não confiava nele. A indicação acabou acontecendo durante o governo Dilma Rousseff, depois que a então presidente consultou Lula.
O relato também atribui ao petista críticas à postura religiosa do ministro, a quem teria chamado de “comedor de hóstia”, acusando-o de apresentar uma imagem religiosa que, na avaliação de Lula, não correspondia às suas atitudes.
O episódio reforça um aspecto central das revelações: a insatisfação atribuída ao presidente não se limitava a adversários políticos ou magistrados historicamente distantes do PT. Também alcançava integrantes da Corte que haviam chegado ao Supremo durante os governos petistas.
FUX: O “CACHORRO PIDÃO” E O “CANALHA”
Luiz Fux foi outro ministro que teria provocado a indignação de Lula.
O episódio aconteceu em 2018, quando a Folha de S.Paulo e o jornal espanhol El País conseguiram autorização do ministro Ricardo Lewandowski para entrevistar o então ex-presidente na prisão.
Entretanto, Luiz Fux derrubou a autorização, impedindo a realização da entrevista naquele momento.
A reação atribuída a Lula foi acompanhada de uma lembrança sobre o comportamento de Fux durante seu governo.
Segundo Chastalo, o petista teria afirmado:
“O Fux passou mais de um ano frequentando toda cerimônia quando eu era presidente, com cara de cachorro pidão. Mas nunca confiei nele.”
Na sequência, Lula teria criticado a nomeação do magistrado, afirmando que Dilma acabou indicando aquele que classificou como “canalha”, após uma indicação atribuída a Antonio Palocci e Sérgio Cabral.
A declaração é particularmente significativa porque revela, segundo a narrativa do ex-carcereiro, a percepção de Lula sobre as relações de bastidores que envolvem indicações ao Supremo.
O ministro que, na avaliação atribuída ao petista, demonstrava interesse em conseguir uma vaga na Corte passou a ser tratado com hostilidade depois de tomar uma decisão contrária aos interesses do então presidente.
GILMAR MENDES E CELSO DE MELLO ERAM AS EXCEÇÕES
O livro também apresenta avaliações positivas de Lula sobre outros ministros do Supremo.
Segundo o policial federal, Gilmar Mendes e Celso de Mello estavam entre os magistrados que recebiam elogios do petista.
Em contrapartida, Lula teria demonstrado desprezo pela postura de outros integrantes da Corte, utilizando a expressão vulgar “boi do cu branco” para descrever ministros que, em sua avaliação, não tinham coragem de enfrentar situações controversas.
Ao explicar a expressão ao carcereiro, Lula teria feito uma comparação com um touro que não disputa a posição de reprodutor da manada.
Na interpretação atribuída ao petista, esses magistrados evitariam decisões que pudessem provocar repercussão negativa ou críticas públicas.
É uma descrição bastante particular de independência judicial: quando uma decisão favorecia suas expectativas, havia reconhecimento; quando contrariava seus interesses, sobravam acusações e insultos.
O DISCURSO DA HUMILDADE E OS BASTIDORES DA PRISÃO
As revelações atribuídas ao ex-presidente levantam uma discussão importante sobre a diferença entre o discurso público e o comportamento privado de uma das figuras mais influentes da política brasileira.
Lula costuma apresentar-se como defensor do diálogo, da conciliação e do respeito às instituições. Em suas manifestações públicas, frequentemente critica a intolerância, a agressividade e a falta de civilidade no debate político.
Mas, se os relatos de Jorge Chastalo Filho correspondem ao que efetivamente foi dito nas conversas descritas, o vocabulário utilizado pelo então ex-presidente contra integrantes do Judiciário estava muito distante dessa imagem.
É curioso observar como a palavra democracia aparece com frequência nos discursos políticos, mas a tolerância com decisões independentes parece ser muito mais difícil quando o resultado não agrada.
Afinal, um ministro do Supremo não é funcionário particular de quem o indicou. Sua obrigação constitucional é julgar de acordo com a Constituição e as leis, e não atender às expectativas políticas de antigos padrinhos.
Eis uma ironia que merece reflexão: Lula teria participado da escolha de alguns desses magistrados, mas, quando eles tomaram decisões contrárias aos seus interesses, passaram de indicados a alvos de xingamentos.
Pelo visto, a gratidão cobrada pelo petista não deveria ser confundida com submissão institucional.
O caso também mostra como a relação entre política e Justiça pode ser marcada por expectativas e ressentimentos. Indicações presidenciais não criam obrigações de fidelidade pessoal, e a independência dos ministros precisa prevalecer justamente nos momentos em que suas decisões desagradam a quem os indicou.
O QUE DIZ O LIVRO E A RESPONSABILIDADE PELO RELATO
É importante esclarecer que as declarações apresentadas são atribuídas a Lula pelo policial federal Jorge Chastalo Filho e fazem parte de sua narrativa no livro Banho de Sol. Não se trata de gravações públicas das conversas, mas de relatos de alguém que afirma ter acompanhado diretamente o então preso durante os 580 dias de custódia.
A reportagem de Mônica Bergamo, publicada na Folha de S.Paulo, também apresentou os episódios e informou que procurou as assessorias de Lula e do Supremo, mas não recebeu resposta.
Lula deixou a prisão em novembro de 2019, depois que o STF mudou o entendimento sobre a possibilidade de execução da pena após condenação em segunda instância.
Agora, com a publicação dos bastidores atribuídos ao ex-presidente, uma pergunta inevitavelmente volta ao debate público: até que ponto o discurso de respeito às instituições resiste quando essas mesmas instituições tomam decisões contrárias aos interesses de Lula?
Porque falar em humildade, democracia, gratidão e respeito diante das câmeras é relativamente fácil. Difícil, aparentemente, é manter o mesmo vocabulário quando a porta se fecha e a decisão judicial não agrada.
E, nesse caso, segundo o relato do ex-carcereiro, o vocabulário teria sido bem diferente daquele utilizado nos palanques presidenciais.