
Otoni de Paula perde nas urnas, fecha templo na Barra da Tijuca e vê sua aposta política em Lula terminar em derrota eleitoral
Pastor e deputado federal não conseguiu a reeleição depois de declarar apoio ao presidente petista. Agora, a Assembleia de Deus Missão Vida encerra as atividades em endereço histórico na Barra da Tijuca após o fim do contrato de aluguel. Mudança de endereço não significa encerramento da igreja, mas o episódio reacende o debate sobre as escolhas políticas de lideranças religiosas.
O deputado federal e pastor Otoni de Paula (PSD-RJ) enfrenta um momento de desgaste político depois de uma eleição na qual sua aproximação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi suficiente para garantir sua permanência na Câmara dos Deputados. O parlamentar, que durante anos esteve próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro, decidiu mudar de lado e declarar apoio ao petista ainda no primeiro turno das eleições de 2026. O resultado foi uma derrota nas urnas: recebeu apenas 19.364 votos e terminou como suplente, sem conseguir renovar seu mandato.
Como se a decepção eleitoral não fosse suficiente, outra notícia envolvendo o pastor ganhou repercussão nesta quinta-feira (5). A Assembleia de Deus Missão Vida anunciou o encerramento das atividades de seu templo localizado na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, após a não renovação do contrato de aluguel do imóvel.
A unidade funcionava desde 1998 na Estrada da Barra da Tijuca, número 200. Eram aproximadamente 28 anos de atividades religiosas no mesmo endereço, período em que a congregação construiu sua presença naquela região da capital fluminense.
De acordo com as informações divulgadas pela igreja, o contrato de locação chegou ao fim e não houve acordo para sua renovação. Com isso, as atividades serão transferidas para a sede da organização, localizada no bairro de Colégio, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a aproximadamente 35 quilômetros do antigo templo.
A mudança começa no próximo domingo, 8 de novembro. Os cultos passarão a acontecer na Estrada do Barro Vermelho, número 1.720, com a seguinte programação: domingos, às 10h; segundas-feiras, às 19h; e quartas-feiras, às 9h.
É importante destacar que o fechamento diz respeito à unidade da Barra da Tijuca, e não ao encerramento definitivo da igreja ou de suas atividades religiosas. Também não há comprovação de que a decisão do proprietário de não renovar o aluguel tenha qualquer relação com o resultado eleitoral de Otoni.
DA DIREITA AO PALANQUE DE LULA: A MUDANÇA DE LADO QUE NÃO GARANTIU A REELEIÇÃO
A trajetória política recente de Otoni de Paula ajuda a entender por que sua derrota eleitoral provocou tanta repercussão.
O pastor foi eleito deputado federal em 2018 e reeleito em 2022. Antes disso, havia conquistado uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 2016.
Durante o governo Bolsonaro, Otoni manteve proximidade com o então presidente e adotou um discurso bastante crítico ao PT e a Lula. Em 2022, chegou a utilizar expressões duríssimas contra o petista, demonstrando a distância política que existia entre os dois.
Entretanto, o cenário mudou. Otoni passou a se afastar do bolsonarismo, rompeu politicamente com antigos aliados e assumiu uma posição contrária à família Bolsonaro. Em 2026, decidiu declarar apoio a Lula, justamente em uma eleição marcada pela disputa entre o petismo e o campo conservador.
Na véspera do primeiro turno, publicou um vídeo ao lado do presidente, no qual os dois aparecem de mãos dadas. Na ocasião, Otoni justificou sua decisão afirmando que havia reconhecido qualidades no trabalho de Lula e que sua escolha poderia trazer consequências políticas.
Em sua manifestação, escreveu que, quando o presidente olha nos olhos de alguém e diz que o Brasil precisa daquela pessoa no Congresso, isso demonstraria reconhecimento pelo trabalho realizado.
O problema é que o reconhecimento político demonstrado por Lula não se transformou em votos suficientes para garantir a permanência do deputado em Brasília.
Otoni recebeu 19.364 votos e ficou como suplente. A aproximação com o presidente petista, portanto, não produziu o resultado eleitoral que o parlamentar provavelmente esperava.
A IRONIA DA POLÍTICA: APOIO PRESIDENCIAL NÃO É GARANTIA DE VOTO
A política brasileira costuma oferecer episódios difíceis de ignorar. Um parlamentar pode receber elogios de um presidente, aparecer em fotografias, participar de encontros e conquistar espaço em discursos políticos. Mas, quando chega o momento de enfrentar as urnas, a decisão pertence ao eleitor.
E foi justamente aí que Otoni encontrou sua maior dificuldade.
Apoiar Lula é uma escolha política legítima, assim como qualquer cidadão ou parlamentar tem o direito de mudar de posicionamento. O que não se pode esperar é que o eleitor seja obrigado a acompanhar todas as mudanças de um representante sem questionar suas decisões.
O caso também levanta uma discussão importante sobre a responsabilidade de lideranças religiosas quando decidem assumir posições partidárias. Igrejas são espaços de fé, acolhimento e orientação espiritual, frequentados por pessoas com diferentes opiniões políticas. Transformar a atuação religiosa em instrumento de disputa eleitoral pode provocar desconforto e questionamentos entre os próprios fiéis.
E aqui cabe uma ironia: aparentemente, uma fotografia de mãos dadas com Lula não funciona como certificado de popularidade eleitoral. Presidente pode oferecer apoio político, mas não consegue entregar automaticamente os votos dos eleitores de um deputado.
Quanto ao templo da Barra da Tijuca, a explicação divulgada é objetiva: o contrato de aluguel não foi renovado. Não há elementos que permitam afirmar que o fechamento aconteceu por causa da derrota eleitoral ou de dificuldades financeiras da instituição.
Ainda assim, a coincidência entre os acontecimentos chama a atenção: de um lado, um deputado que apostou politicamente no projeto petista e não conseguiu se reeleger; de outro, uma igreja que encerra um ciclo de quase três décadas em um endereço tradicional.
Otoni de Paula terá de lidar com as consequências políticas de suas escolhas, enquanto a congregação seguirá suas atividades em outro endereço.
No fim das contas, fica uma lição que muitos políticos parecem esquecer: apoio de presidente não substitui apoio popular, fotografia não substitui voto e discurso não garante mandato. Na democracia, quem dá a palavra final nas urnas é o eleitor.