
Lula dá sermão sobre soberania, mas vive cutucando meio mundo
Sem citar Trump, presidente diz que o Brasil não aceita “interferência externa” — apesar de ele mesmo comentar Israel, Ucrânia, Bolsonaro e o que mais aparecer pela frente.
O presidente Lula decidiu vestir a capa da soberania nacional nesta segunda-feira (7), afirmando que o Brasil “não aceita interferência ou tutela de quem quer que seja”. O alvo indireto da bronca? Donald Trump, claro — que resolveu sair em defesa do seu amigo Jair Bolsonaro, dizendo que o ex-presidente brasileiro está sendo “perseguido”.
Lula, porém, preferiu a sutileza e não citou nomes. Disse apenas que “a defesa da democracia no Brasil compete aos brasileiros” e que “ninguém está acima da lei”. Um discurso bonito, cheio de amor próprio institucional, mas que ganha um toque cômico quando lembramos que o próprio Lula adora dar palpite sobre o mundo: já criticou o governo de Israel, se meteu no conflito da Ucrânia e não perde a chance de detonar Bolsonaro — dentro e fora do Brasil.
“Que deem palpite na sua vida e não na nossa”, disse Lula, sem rir. A fala foi durante a Cúpula do Brics, no Rio de Janeiro, quando perguntaram o que achava do post de Trump defendendo Bolsonaro.
Trump, por sua vez, escreveu na rede Truth Social que o Brasil estaria cometendo um “erro terrível” com o tratamento dado a Bolsonaro. Segundo o americano, o ex-presidente “não é culpado de nada” e estaria sendo alvo de uma perseguição política. Isso, mesmo com Bolsonaro já inelegível por 8 anos por abuso de poder e na condição de réu por tentativa de golpe de Estado.
Depois da postagem, Bolsonaro agradeceu efusivamente, chamando Trump de “amigo” e dizendo que ele também foi “perseguido implacavelmente”. O amor é lindo — e cheio de retórica de mártir.
No Planalto, as reações ao gesto de Trump vieram em bloco. A ministra Gleisi Hoffmann mandou ele cuidar dos próprios problemas e lembrou que o Brasil que fazia continência para os EUA era o de Bolsonaro, não o de agora. Já o advogado-geral da União, Jorge Messias, avisou que a soberania do Brasil “não se negocia”.
Curiosamente, essa mesma soberania vira fumaça quando Lula resolve criticar Netanyahu, Putin, Zelensky ou qualquer outro personagem global. A régua, ao que tudo indica, é de uso seletivo.
Enquanto isso, o STF já condenou 497 pessoas pelos atos golpistas de 2022, e a investigação contra Bolsonaro entra na reta final. Ele e seus aliados são acusados de arquitetar um plano para impedir Lula de assumir o poder — o que, para Trump, deve ser só um “mal-entendido patriótico”.
O Brasil segue soberano. Desde que não seja para ouvir críticas. Afinal, como Lula diz, “a democracia compete aos brasileiros”. A parte que ele não contou é que compete mais ainda quando eles concordam com ele.