
Lula diz “a gente que não acredita em Deus” em ato no Rio, e fala repercute nas redes
Presidente se referiu ao governador interino Ricardo Couto durante discurso em Bangu; expressão gerou interpretações sobre sua relação com a fé, mas, na sequência, Lula voltou a mencionar Deus ao elogiar o magistrado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou repercussão nas redes sociais durante um ato de campanha realizado no sábado (22), no Estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Durante o discurso, ao falar sobre o governador interino do Rio, o desembargador Ricardo Couto, Lula utilizou uma expressão que rapidamente passou a circular nas redes: “a gente que não acredita em Deus”.
A frase, isolada do restante do discurso, foi interpretada por críticos como uma declaração de que o próprio presidente não acreditaria em Deus. O contexto completo, porém, mostra que Lula, logo depois, voltou a mencionar Deus ao explicar sua avaliação sobre a chegada de Ricardo Couto ao governo fluminense. A reportagem do OitoMeia destacou justamente a aparente contradição entre os dois momentos da fala.
Ao comentar a situação política do Rio de Janeiro, Lula afirmou que “a gente que não acredita em Deus” deveria reconhecer a atuação de Ricardo Couto. Na sequência, porém, declarou que “Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”, em referência ao governador interino.
A construção da frase abriu espaço para diferentes interpretações. Uma das leituras possíveis é que Lula tenha pretendido dizer “há gente que não acredita em Deus”, referindo-se a pessoas que não possuem fé. A diferença entre “há gente” e “a gente”, especialmente na fala espontânea, acabou sendo determinante para a repercussão do episódio. Uma análise publicada pelo Correio da Manhã também apontou essa possibilidade, observando que a pronúncia permitiu a interpretação de que o presidente estaria falando de si próprio.
O elogio a Ricardo Couto
O episódio ocorreu no momento em que Lula fazia elogios ao desembargador Ricardo Couto, que ocupa interinamente o governo do Rio de Janeiro. Couto assumiu o Palácio Guanabara depois da renúncia de Cláudio Castro e passou a conduzir o Executivo estadual em meio a uma crise política no estado.
No discurso, Lula afirmou que Couto jamais havia imaginado ser governador e que, diante da crise fluminense, teria recebido uma espécie de missão. Em outra passagem, o presidente afirmou que “Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto” e parabenizou o governador interino pelas ações realizadas no estado.
O presidente também classificou como positiva a atuação de Couto na área de segurança e afirmou que Eduardo Paes, candidato apoiado por Lula na disputa pelo governo estadual, deveria dar continuidade ao trabalho realizado pelo governador interino.
Repercussão política
A fala ganhou peso adicional por ocorrer durante uma campanha eleitoral na qual a religião e o eleitorado evangélico ocupam espaço importante no debate político. O PT vem tentando ampliar sua interlocução com esse segmento do eleitorado, historicamente mais próximo de candidatos e partidos de direita.
O episódio passou a ser explorado por adversários de Lula. Nas redes sociais, trechos da fala foram compartilhados destacando apenas a expressão “a gente que não acredita em Deus”, sem necessariamente apresentar a sequência em que o presidente faz referência explícita a Deus e atribui ao divino a chegada de Ricardo Couto ao governo.
A repercussão chegou também ao discurso de adversários na corrida presidencial. Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, utilizou a questão religiosa em uma declaração feita ao justificar sua ausência em um debate, dizendo que gostaria de debater com quem “não acredita em Deus” e afirmando que, se eleito, faria do Brasil um país declarado “do Senhor Jesus Cristo”.
O contexto do discurso
O ato em Bangu foi marcado por temas como segurança pública, educação, saúde e investimentos sociais. Lula prometeu combater o crime organizado sem recorrer, segundo suas palavras, a ações de “pirotecnia” e afirmou que pretendia devolver à população o controle de territórios dominados por criminosos.
O presidente também defendeu investimentos em universidades, institutos federais e escolas de tempo integral, além de mencionar programas sociais. Na área da saúde, falou sobre a ampliação do acesso à radioterapia e citou sua própria experiência com tratamento contra câncer de pele.
O evento contou ainda com a participação da primeira-dama Janja Lula da Silva, além de aliados políticos como Eduardo Paes, Benedita da Silva e Pedro Paulo. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, participou do início do ato, interpretando o Hino Nacional.
Assim, embora a frase “a gente que não acredita em Deus” tenha se transformado no principal elemento da repercussão, o discurso completo apresenta uma sequência diferente daquela sugerida por alguns recortes que circularam nas redes. Pouco depois da expressão controversa, o próprio Lula voltou a mencionar Deus e afirmou que “Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”.
O episódio, portanto, passou a integrar a disputa eleitoral de 2026 também pelo campo religioso, em um cenário no qual candidatos procuram dialogar com católicos e evangélicos e adversários utilizam declarações sobre fé para tentar influenciar a percepção do eleitorado.