
Lula escolhe a Record e fala no horário do debate da Band, transformando ausência em estratégia eleitoral
Presidente e candidato à reeleição não participou do primeiro debate presidencial de 2026; no mesmo horário, concedeu entrevista gravada ao “Domingo Espetacular”, enquanto Band recebeu apenas Caiado, Renan Santos e Augusto Cury
A eleição presidencial de 2026 ganhou, neste domingo (23), uma cena incomum: enquanto a Band colocava no ar o primeiro debate entre candidatos ao Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia em outra emissora. A Record exibiu uma entrevista previamente gravada com o candidato à reeleição justamente no horário reservado ao confronto eleitoral.
A decisão transformou a ausência de Lula em um dos principais assuntos políticos da noite. Em vez de enfrentar diretamente os adversários no estúdio da Band, o presidente escolheu um ambiente controlado, no qual pôde responder aos temas apresentados pelos entrevistadores sem a dinâmica de confronto direto característica de um debate.
O movimento teve consequências para os dois lados. A Band realizou o debate mesmo sem três dos nomes inicialmente convidados — Lula, Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) —, enquanto a Record conseguiu colocar no ar uma entrevista exclusiva com o atual presidente no mesmo momento em que os demais candidatos discutiam propostas e atacavam os ausentes.
Uma noite eleitoral dividida em duas telas
O debate da Band estava marcado para as 20h e fazia parte de um pool formado pela Band, TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan. Entre os convidados estavam Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury e Romeu Zema.
No entanto, apenas Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) efetivamente participaram.
A ausência dos principais nomes da corrida presidencial alterou completamente o peso do encontro. O que deveria ser um confronto entre os candidatos mais competitivos acabou se transformando em uma disputa entre três postulantes, com críticas especialmente dirigidas a Lula e Flávio Bolsonaro.
Renan Santos aproveitou a ausência para atacar os dois. Durante o programa, fez críticas duras ao presidente e aos eleitores petistas, além de utilizar um discurso bastante agressivo. Augusto Cury contestou o tom adotado pelo candidato do Missão e defendeu um debate democrático.
Por que Lula não foi?
A justificativa apresentada pelo presidente foi a existência de uma assimetria nas condições do debate.
Segundo Lula, a Band havia convidado candidatos que, na avaliação de sua campanha, não necessariamente precisariam estar naquele primeiro confronto pelas regras eleitorais. A presença de vários adversários poderia fazer com que o debate se transformasse, na prática, em uma espécie de frente de ataques contra o presidente.
A campanha petista avaliou que Lula seria o principal alvo dos candidatos de direita e optou por não submetê-lo à dinâmica do encontro.
Politicamente, trata-se de uma escolha compreensível do ponto de vista estratégico: o candidato líder nas pesquisas não necessariamente precisa aceitar um ambiente no qual vários concorrentes podem concentrar seus ataques em uma única pessoa.
Por outro lado, há uma crítica legítima a ser feita.
Debate eleitoral existe justamente para permitir confronto, contraditório e resposta imediata. Quando um candidato decide não comparecer, perde-se a oportunidade de vê-lo responder diretamente aos adversários e às perguntas dos jornalistas.
Esse é o dilema que a decisão de Lula colocou no centro da eleição: proteção estratégica da candidatura ou obrigação política de enfrentar o contraditório?
A entrevista na Record
No mesmo horário do debate, o programa Domingo Espetacular, da Record, exibiu a entrevista exclusiva com Lula, gravada no Palácio do Planalto. Entre os assuntos tratados estavam as investigações envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, além da relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e outros temas da conjuntura eleitoral.
A entrevista permitiu a Lula construir sua própria narrativa sem a interferência imediata dos adversários.
O presidente falou, por exemplo, sobre a investigação que envolve Lulinha e reafirmou uma posição que passou a ocupar espaço importante no discurso do governo: se o filho tiver cometido algum crime, deverá responder por seus atos.
Lula afirmou que ninguém está acima da lei, inclusive seu próprio filho, e negou que exista qualquer tentativa de blindá-lo contra as investigações da Polícia Federal.
A declaração adquiriu importância eleitoral porque o nome de Lulinha passou a aparecer com frequência no discurso da oposição.
O caso Lulinha entra na campanha
A investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva tornou-se uma das frentes de ataque político contra o presidente.
Na entrevista, Lula procurou separar sua responsabilidade como chefe do Executivo da situação jurídica do filho. A mensagem foi direta: a Polícia Federal tem autonomia para investigar e Lulinha deverá apresentar sua defesa caso seja chamado a responder.
O presidente também rejeitou a ideia de que seu governo esteja interferindo para proteger familiares.
Esse ponto tem especial importância porque a oposição tenta transformar as investigações em elemento central da narrativa eleitoral contra Lula. A defesa do presidente, por sua vez, procura enquadrar o caso como uma questão individual submetida às instituições.
Lula também criticou a política dominada pelas redes
Outro trecho importante da entrevista foi a crítica de Lula aos candidatos que, segundo ele, apostam excessivamente na internet para construir suas campanhas.
O presidente afirmou sentir saudades de eleições anteriores, quando, em sua avaliação, os candidatos tinham maior experiência política e maior densidade intelectual. Citou disputas históricas e nomes como Fernando Collor, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso para estabelecer uma comparação com o cenário atual.
A crítica pode ser interpretada como uma tentativa de Lula de estabelecer uma diferença entre sua trajetória política e a nova geração de candidatos que construiu grande parte de sua influência nas plataformas digitais.
É também uma mensagem eleitoral.
Ao questionar uma política baseada em vídeos curtos, engajamento e redes sociais, Lula procura reivindicar para si a imagem de político experiente, com décadas de participação institucional e eleitoral.
O contraste com Renan Santos
O contraste ficou particularmente evidente porque, enquanto Lula criticava a política excessivamente orientada pelas redes, Renan Santos utilizava justamente o debate para adotar uma comunicação agressiva, de forte impacto digital.
Renan atacou Lula e Flávio Bolsonaro pela ausência e transformou o episódio em parte de sua própria estratégia eleitoral. Em determinado momento, chegou a apresentar fraldas identificadas com os nomes dos candidatos ausentes, em uma provocação política.
O episódio evidencia uma das características da eleição de 2026: a disputa não acontece apenas entre candidatos com estruturas partidárias tradicionais. Ela também envolve políticos que construíram sua identidade pública na internet e tentam transformar a linguagem das redes em linguagem de campanha.
Flávio Bolsonaro segue estratégia semelhante
Flávio Bolsonaro também decidiu não participar do debate.
A estratégia do candidato do PL foi semelhante à de Lula: evitar um ambiente no qual poderia ser transformado em alvo central dos demais concorrentes.
A diferença é que, no caso de Flávio, a ausência ocorreu em um cenário no qual ele também disputa diretamente o espaço político ocupado historicamente pelo bolsonarismo e precisa administrar simultaneamente ataques da esquerda e de candidatos da direita que procuram conquistar parte de seu eleitorado.
Com Lula e Flávio fora do estúdio, os dois principais polos da eleição acabaram dominando o debate mesmo sem estar fisicamente presentes.
Zema também desistiu
Romeu Zema, inicialmente entre os convidados, também acabou não participando. Segundo as informações divulgadas, o governador de Minas Gerais decidiu não comparecer depois de saber que Lula não participaria.
O resultado foi um debate reduzido a três candidatos.
Para a Band, isso representou um problema evidente de audiência e de impacto político. O confronto perdeu justamente os nomes que lideram a corrida presidencial ou ocupam posições centrais no eleitorado nacional.
A repercussão posterior reforçou essa avaliação: a ausência dos principais candidatos foi apontada como um dos fatores que enfraqueceram o desempenho do debate.
A Record ganhou uma oportunidade estratégica
Do ponto de vista televisivo, a decisão também criou uma situação singular.
Enquanto a Band oferecia o debate, a Record apresentou Lula falando diretamente ao eleitor.
A entrevista tinha uma vantagem fundamental: não havia adversário no mesmo estúdio para interromper, contestar ou imediatamente rebater suas afirmações.
Para Lula, isso significou controle da narrativa.
Para a Record, significou colocar no ar uma entrevista exclusiva com o presidente justamente quando grande parte do eleitorado poderia estar interessada no primeiro debate presidencial da campanha.
Segundo dados divulgados posteriormente, a entrevista chegou a superar o debate da Band em audiência, com mais que o dobro da audiência registrada pelo confronto eleitoral.
Uma escolha legítima, mas politicamente controversa
Não há nada de trivial na decisão de Lula.
O presidente tinha o direito político de escolher onde e como faria sua campanha. Ao mesmo tempo, o eleitor também tem o direito de questionar a escolha.
A ausência de um candidato de grande relevância em um debate reduz o confronto de ideias e deixa perguntas sem resposta.
Por outro lado, obrigar politicamente um candidato a participar de todos os debates também seria incompatível com uma campanha democrática baseada em escolhas estratégicas.
O ponto central, portanto, não é simplesmente dizer que Lula “fugiu” ou que a Band foi “prejudicada”.
A questão é mais complexa: Lula escolheu maximizar o controle de sua mensagem; a Band preservou o debate mesmo diante das ausências; os adversários utilizaram o vazio deixado pelos principais candidatos para atacá-los; e a Record transformou a ausência em uma oportunidade jornalística e de audiência.
O debate dos ausentes
Paradoxalmente, Lula conseguiu ocupar grande parte do debate sem estar presente.
Seu nome foi mencionado pelos adversários, seus atos de governo foram questionados e suas posições foram atacadas.
Flávio Bolsonaro passou pela mesma situação.
A ausência física não significou ausência política.
Foi justamente o contrário: Lula e Flávio se tornaram personagens centrais de um debate do qual decidiram não participar.
E, ao mesmo tempo, Lula encontrou na Record uma espécie de segundo palco eleitoral, no qual apresentou suas respostas, falou sobre Lulinha, discutiu política externa, criticou a nova geração de candidatos e defendeu sua trajetória política.
No fim da noite, ficaram duas imagens distintas da mesma eleição: de um lado, três candidatos diante de púlpitos ocupados e três ausências transformadas em alvo político; de outro, Lula diante das câmeras da Record, falando diretamente ao eleitor e controlando o ritmo da própria narrativa.
A eleição de 2026 mostrou, já em seu primeiro grande debate, que a disputa presidencial não será travada apenas nos palanques. Ela será disputada também entre emissoras, redes sociais, entrevistas exclusivas e ambientes cuidadosamente escolhidos pelos candidatos.
E a decisão de Lula de falar na Record enquanto a Band debatia com seus adversários talvez seja um dos primeiros sinais de que, nesta campanha, escolher onde falar será quase tão importante quanto aquilo que se fala.