
Lula leva ao TSE denúncia de ação coordenada sobre preços dos alimentos nas redes sociais
Campanha do presidente acusa mais de 20 influenciadores de reproduzirem roteiros, imagens, gestos e argumentos semelhantes em publicações críticas ao custo da comida; equipe de Flávio Bolsonaro também recorre à Justiça e denuncia suposta rede de ataques contra o senador
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir investigação sobre o que classifica como uma possível operação digital “coordenada e inautêntica” destinada a disseminar, em grande escala, conteúdos críticos ao governo federal relacionados aos preços dos alimentos.
A denúncia, divulgada pela jornalista Daniela Lima, do UOL, aponta para uma rede de mais de 20 influenciadores cujas publicações apresentariam semelhanças que, segundo o levantamento apresentado pela equipe petista, ultrapassariam a simples coincidência temática. O material reunido pela campanha identifica repetição de roteiros, imagens, objetos utilizados nas gravações, gestos e estruturas de fala.
A iniciativa ocorre em plena disputa eleitoral de 2026, na qual o preço da comida se transformou em uma das principais armas políticas utilizadas pela oposição para questionar o desempenho do governo Lula. Ao mesmo tempo, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário do presidente na disputa, também tem recorrido à Justiça para denunciar o que considera uma rede coordenada de ataques contra sua candidatura.
O que a campanha de Lula pretende investigar
Segundo o levantamento que será levado ao TSE, as semelhanças entre as publicações analisadas não estariam restritas ao discurso sobre a alta dos alimentos.
A documentação aponta, segundo a reportagem, casos em que diferentes perfis teriam utilizado o mesmo local de gravação, os mesmos objetos diante da câmera, gestos semelhantes e estruturas praticamente idênticas de argumentação.
Uma das estruturas identificadas teria aparecido em sete publicações de seis perfis diferentes. Para a equipe de Lula, esse padrão pode indicar uma ação coordenada, hipótese que deverá ser analisada pelos órgãos responsáveis pela investigação.
O caso mais chamativo envolve uma fotografia de um pedaço de carne. Segundo o levantamento citado pela reportagem, a mesma imagem teria sido compartilhada por 33 contas, mantendo inclusive o mesmo código de barras existente na etiqueta do produto.
Em determinado momento, três contas teriam publicado o mesmo arquivo em um intervalo de apenas seis minutos e 23 segundos, circunstância considerada pela campanha como um dos elementos que justificariam a investigação.
A existência de conteúdos semelhantes, entretanto, não comprova por si só uma operação ilegal. Caberá à Justiça Eleitoral verificar se houve coordenação deliberada, financiamento, pagamento, participação partidária ou qualquer outra prática proibida pela legislação eleitoral.
Doações e benefícios entram no levantamento
Outro aspecto analisado pela campanha petista são relatos feitos pelos próprios criadores de conteúdo sobre benefícios recebidos depois da publicação dos vídeos.
Segundo a documentação, em pelo menos nove registros os autores teriam mencionado algum tipo de vantagem posterior às publicações. Entre os exemplos estão aumento de seguidores, aproximação com determinadas pessoas, reconhecimento público e até melhorias materiais nas residências.
Uma mulher do Rio Grande do Norte, citada na reportagem sem identificação nominal, aparece relatando que recebeu diversos bens depois de produzir conteúdos sobre a situação econômica do país.
Ela afirma que teria recebido uma televisão, além de melhorias no banheiro, mesa e cozinha de sua casa. A mulher também menciona um empresário do setor alimentício de Brasília e relaciona uma das benfeitorias ao entorno político de Flávio Bolsonaro.
As declarações fazem parte do material que a campanha de Lula pretende apresentar à Justiça e deverão ser confrontadas com documentos, registros financeiros e demais elementos capazes de confirmar ou não a existência de pagamentos ou benefícios vinculados às publicações.
Vereador do PL e três homenagens
O levantamento também identificou um episódio envolvendo um vereador do PL.
De acordo com o documento reunido pela campanha petista, o parlamentar teria apresentado, no mesmo dia, três moções de congratulações destinadas a três influenciadores incluídos na análise.
As homenagens teriam recebido numeração consecutiva — 18880, 18881 e 18882 — e, segundo a documentação, apresentariam o mesmo texto e até o mesmo erro de concordância.
Para a campanha de Lula, o episódio é mais um elemento a ser esclarecido sobre possíveis relações entre os produtores de conteúdo e estruturas políticas.
A reportagem, contudo, não apresenta esse episódio como prova definitiva de uma operação ilícita, mas como parte do conjunto de circunstâncias que o grupo jurídico do presidente pretende submeter à avaliação do TSE.
Por que o preço da comida virou tema central da eleição
A discussão sobre o custo dos alimentos ganhou força durante a campanha eleitoral porque o preço da comida tem impacto direto sobre a percepção econômica dos eleitores.
Vídeos mostrando compras em supermercados, valores de carnes, arroz, feijão e outros produtos passaram a circular intensamente nas redes sociais. O objetivo político dessas publicações, segundo a oposição, é mostrar que o custo de vida continua elevado e que o governo Lula não teria conseguido cumprir suas promessas econômicas.
O governo, por sua vez, tenta responder utilizando dados oficiais e destacando que a evolução dos preços não pode ser medida por produtos isolados ou por uma única ida ao supermercado.
Dados citados em reportagem sobre o assunto mostram que o comportamento dos alimentos é desigual: determinados produtos apresentaram redução, enquanto outros registraram aumentos expressivos. Isso torna o tema especialmente sensível para a campanha presidencial.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro chega à Justiça
O episódio não está isolado.
Enquanto a campanha de Lula prepara a representação contra a suposta operação de divulgação coordenada de conteúdos sobre os alimentos, a equipe de Flávio Bolsonaro também acusa adversários de utilizar estruturas digitais para atingir sua candidatura.
Segundo informações divulgadas pelo UOL, o grupo jurídico do senador já levou ao Judiciário denúncias relacionadas a uma suposta rede de ataques “sistemáticos e simultâneos” contra o candidato do PL.
A equipe de Flávio afirma ter identificado centenas de perfis envolvidos na disseminação de conteúdos contra o senador. Também sustenta que haveria uso de perfis falsos, impulsionamento irregular e até contas associadas a material produzido ou manipulado com inteligência artificial.
A campanha bolsonarista afirma ainda que já obteve decisões judiciais determinando o bloqueio de determinados perfis e conteúdos.
O cenário cria uma espécie de guerra judicial paralela à disputa eleitoral: Lula acusa setores ligados ao bolsonarismo de coordenarem conteúdos sobre a carestia, enquanto Flávio Bolsonaro acusa adversários de organizarem ataques digitais contra sua candidatura.
TSE diante de uma nova batalha nas redes
A questão chega ao TSE em um momento no qual a propaganda eleitoral na internet ocupa papel central na campanha de 2026.
O tribunal terá de distinguir manifestações espontâneas de cidadãos e influenciadores de eventuais ações coordenadas que possam configurar propaganda irregular, financiamento oculto, utilização de perfis falsos ou outras práticas vedadas.
A questão é particularmente delicada porque criticar o governo pelo preço dos alimentos é legítimo dentro do debate democrático. O ponto que a Justiça deverá examinar é se determinados conteúdos foram produzidos e distribuídos de maneira artificialmente coordenada ou financiada com finalidade eleitoral irregular.
É justamente essa fronteira que a campanha de Lula pretende colocar sob escrutínio.
Uma eleição cada vez mais disputada no ambiente digital
A ofensiva demonstra que a eleição presidencial de 2026 não está sendo travada apenas em palanques, debates e programas eleitorais.
As redes sociais se transformaram em um dos principais campos de batalha entre Lula e Flávio Bolsonaro. De um lado, o governo procura defender seus resultados econômicos e combater conteúdos que considera manipulados. Do outro, a oposição utiliza imagens de supermercados e relatos de consumidores para explorar a insatisfação com o custo de vida.
Nesse ambiente, cada vídeo pode alcançar milhares ou milhões de pessoas em poucas horas.
A denúncia apresentada pela campanha de Lula tenta justamente descobrir se parte dessa circulação ocorreu de maneira espontânea ou se existiu uma estrutura organizada por trás das publicações.
A resposta, porém, dependerá da investigação. Até que o TSE analise as provas e eventualmente determine responsabilidades, as acusações permanecem como alegações das campanhas envolvidas.
O episódio revela, sobretudo, uma característica da eleição de 2026: a batalha pelo voto passa também pela batalha pela narrativa — e o preço da comida se tornou uma das peças mais importantes desse confronto.