
Lula propõe a Trump encontro com Xi e Putin para buscar saída para guerras
Em conversa telefônica de cerca de 1h20, presidente brasileiro defendeu retomada das negociações comerciais com os EUA e sugeriu que Trump receba os líderes chinês e russo após a Assembleia Geral da ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que sugeriu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma iniciativa pouco convencional para tentar destravar negociações sobre os principais conflitos internacionais: reunir Trump, o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nos Estados Unidos, depois da reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro.
A proposta foi relatada por Lula durante um comício em Belo Horizonte, na sexta-feira (21). Em tom informal, o presidente brasileiro disse ter sugerido que Trump convidasse Xi e Putin para sua propriedade na Flórida para uma conversa direta sobre a paz.
“Convida os caras para a sua casa, toma um trago e vamos tentar encontrar um jeito de fazer paz”, relatou Lula.
A declaração ocorreu poucas horas depois de Lula conversar por telefone com Trump. Segundo o Palácio do Planalto, a ligação durou aproximadamente uma hora e 20 minutos e teve tom considerado amistoso e cordial.
Lula diz estar “de saco cheio” das guerras
Durante o discurso em Belo Horizonte, Lula adotou uma retórica mais contundente ao defender negociações diplomáticas.
“Eu estou de saco cheio dessas guerras. Estou de saco cheio dessas bravatas”, afirmou.
A frase sintetiza uma das principais bandeiras da política externa defendida pelo presidente brasileiro: a tentativa de recolocar a negociação diplomática no centro das disputas internacionais.
Lula também afirmou que conversou recentemente com Xi Jinping e Vladimir Putin. Segundo o presidente brasileiro, a intenção é convencer os principais atores internacionais a retomarem o diálogo e utilizarem os organismos multilaterais para buscar soluções para os conflitos.
Conversa com Trump também tratou de tarifas
Apesar de a declaração sobre Putin e Xi ter ganhado destaque durante o comício, a conversa entre Lula e Trump teve forte componente econômico.
De acordo com o governo brasileiro, Lula contestou as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros. O presidente classificou as alegações norte-americanas como “infundadas” e argumentou que as barreiras comerciais prejudicam não apenas o Brasil, mas também interesses econômicos dos próprios Estados Unidos.
Lula defendeu a continuidade das negociações bilaterais e afirmou que o diálogo é o caminho adequado para resolver as divergências comerciais.
Segundo o Planalto, Trump concordou com a necessidade de preservar a relação comercial entre os dois países e sugeriu que as equipes técnicas de Brasil e Estados Unidos voltem a se reunir o mais rapidamente possível.
O movimento representa uma tentativa de reduzir a temperatura de uma relação marcada por disputas comerciais e políticas.
Crime organizado também entrou na pauta
Outro assunto discutido pelos presidentes foi o combate ao crime organizado.
Lula reiterou que o Brasil está disposto a cooperar com Washington nessa área, mas defendeu que essa cooperação ocorra dentro da soberania brasileira.
O presidente também rejeitou a ideia de que o Brasil precise receber algum tipo de classificação ou autorização externa para enfrentar organizações criminosas.
A posição combina duas mensagens: disposição para ampliar a cooperação internacional contra redes criminosas e, ao mesmo tempo, resistência a qualquer iniciativa que possa ser interpretada como ingerência estrangeira sobre assuntos internos brasileiros.
O papel de Xi e Putin na estratégia de Lula
Lula vem tentando apresentar o Brasil como um interlocutor capaz de conversar com diferentes blocos de poder.
A aproximação com a China é estratégica para Brasília, enquanto a relação com a Rússia permanece importante dentro do grupo dos Brics. Ao mesmo tempo, Lula procura manter aberto o canal de diálogo com Washington.
É justamente nessa posição que aparece a proposta apresentada a Trump.
A ideia, segundo o relato do presidente brasileiro, seria aproveitar a presença dos principais líderes mundiais em Nova York durante a Assembleia Geral da ONU para promover uma reunião entre Estados Unidos, China e Rússia.
O objetivo seria criar uma oportunidade de negociação direta em torno dos conflitos que envolvem essas potências.
Ucrânia também está no centro da preocupação
Lula afirmou ainda ter conversado com Putin e pedido que o presidente russo retome o caminho diplomático para tentar encontrar uma solução para a guerra na Ucrânia.
A posição brasileira mantém a defesa de uma saída negociada para o conflito, evitando alinhamento automático com qualquer um dos lados.
O presidente brasileiro tem reiterado que a guerra não pode ser solucionada exclusivamente pela via militar e que países capazes de exercer influência deveriam trabalhar pela construção de uma negociação.
Uma diplomacia informal, mas com ambição política
A linguagem utilizada por Lula — incluindo a sugestão de “tomar um trago” — pode parecer informal, mas traduz uma estratégia diplomática mais ampla: colocar os adversários na mesma mesa e criar condições para uma negociação direta.
A questão é saber se essa proposta encontrará receptividade entre os envolvidos.
Trump possui sua própria estratégia para a política externa americana; Xi Jinping representa uma potência econômica e militar em crescente competição com Washington; e Putin permanece no centro das tensões envolvendo a guerra na Ucrânia.
Colocar esses três líderes diante da mesma mesa seria, portanto, uma tarefa diplomática de enorme complexidade.
Ainda assim, Lula tenta ocupar o espaço de mediador e defensor do diálogo.
Entre a diplomacia e a política eleitoral
A declaração ocorreu em um comício eleitoral em Belo Horizonte, o que também confere dimensão política ao discurso.
Ao falar de guerras, comércio exterior e relações com grandes potências, Lula procura apresentar-se ao eleitorado como um presidente com atuação internacional e capacidade de interlocução com governos ideologicamente distintos.
A estratégia também serve para reforçar uma narrativa de soberania nacional diante das recentes tensões comerciais com os Estados Unidos.
O desafio, porém, será transformar declarações políticas em resultados concretos.
A reaproximação entre Brasil e Estados Unidos dependerá da capacidade das equipes dos dois governos de resolver as divergências comerciais. Já a proposta de reunir Trump, Xi e Putin exigirá algo ainda mais difícil: convencer três potências com interesses profundamente conflitantes de que existe vantagem em sentar à mesma mesa.
Por enquanto, Lula lançou a ideia. Resta saber se ela permanecerá como uma declaração de palanque ou se conseguirá evoluir para uma iniciativa diplomática efetiva.