Lula revive a história da Petrobras — e convenientemente esquece o capítulo do Petrolão

Lula revive a história da Petrobras — e convenientemente esquece o capítulo do Petrolão

Em cerimônia da RNEST, presidente diz que só ele e Getúlio devem ser lembrados pela estatal — e, com involuntária sinceridade histórica, acerta sem perceber

Durante o evento de ampliação da Refinaria Abreu e Lima, em Suape, Lula resolveu recontar a história da Petrobras à sua maneira — uma versão resumida em que apenas dois nomes merecem destaque: Getúlio Vargas, que criou a estatal, e ele próprio, que “ressuscitou” a empresa. Uma narrativa ousada, considerando que o período em que Lula “ressuscitou” a Petrobras acabou ficando mundialmente famoso justamente por um escândalo que drenou bilhões: o Petrolão.
Ou seja, quando o presidente diz que deve ser lembrado ao falar da Petrobras… bem, ele não deixa de ter razão.

O discurso aconteceu nesta terça-feira (2), em cerimônia que marcou a expansão da capacidade operacional da RNEST, prevista para produzir até metade de todo o diesel S-10 do país até 2029. Lula celebrou o feito como prova de soberania nacional — e como resposta àqueles que criticavam a refinaria nos anos em que o projeto era alvo de investigações e manchetes nada amigáveis.

Acompanhado pela governadora Raquel Lyra, pelo ministro Sílvio Costa Filho e por parlamentares aliados, Lula voltou ao velho argumento de que a obra foi injustamente acusada de corrupção. Disse que “muitos acreditaram” nas denúncias e que o Brasil não sabe separar “o certo do errado”. A frase, dita sem qualquer hesitação, soou quase como uma ironia involuntária vinda de quem governou no auge do maior esquema de corrupção já detectado na estatal.

Mas Lula insistiu no tom grandioso: a Petrobras, segundo ele, é “a empresa mais importante do Brasil”, e seus investimentos devem se converter em emprego, renda e dignidade para o povo. Nada de errado nisso — o curioso é que esse recado venha exatamente de quem viveu o período mais turbulento da empresa, transformado em caso internacional.

E Getúlio?

Lula também invocou Getúlio Vargas, lembrando sua morte trágica e a história política conturbada. Comparou-se, de forma velada, a um defensor do Brasil contra forças externas e internas. Só faltou mencionar que, assim como Getúlio enfrentou acusações pesadas, ele próprio viu sua gestão marcada por delações, investigações e bilhões desviados.

No fim das contas, o presidente parece querer moldar a narrativa: Getúlio criou a Petrobras, Lula salvou — e fica subentendido que o Petrolão foi apenas um detalhe incômodo que não merece ser citado. Só que, quando ele diz que seu nome deve ser lembrado sempre que se fala na estatal… bom, aí até os críticos têm que admitir: nisso Lula realmente tem razão.

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