Lula transforma tragédia em palanque e promete repetir modelo do RS em Minas

Lula transforma tragédia em palanque e promete repetir modelo do RS em Minas

Presidente visita cidades devastadas pelas chuvas, discursa sobre reconstrução e é acusado de fazer campanha em meio ao luto

Em meio ao cenário de destruição causado pelas chuvas na Zona da Mata, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Ubá e Juiz de Fora, os municípios mais atingidos pelo desastre em Minas Gerais. A visita, porém, foi marcada não apenas por promessas de ajuda, mas também por fortes críticas sobre a exploração política da tragédia, enquanto famílias ainda enterram seus mortos.

Com o número de vítimas chegando a 70 mortos e três desaparecidos, Lula afirmou que pretende repetir em Minas o mesmo modelo de reconstrução aplicado no Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. O discurso, recheado de anúncios e declarações públicas, foi visto por críticos como inadequado diante do sofrimento das vítimas e do clima de comoção nas cidades devastadas.

Durante a passagem por Minas, o presidente chegou a pedir um minuto de silêncio, mas logo em seguida engatou falas sobre crédito, moradia, reconstrução e até projeções políticas, o que alimentou a percepção de que o drama humano estaria sendo usado como vitrine eleitoral.

Promessas, ministros e discursos enquanto buscas por corpos continuam

Em suas declarações, Lula afirmou que o governo federal ajudará prefeitos, comerciantes e famílias atingidas. Prometeu crédito para pequenos empresários, reconstrução de unidades de saúde e escolas, além da entrega de casas para quem perdeu tudo.
“Vamos recuperar o que foi destruído e garantir moradia para quem ficou sem casa”, disse o presidente, em tom semelhante ao utilizado em agendas de campanha.

Nos bastidores, o Planalto já articula a nomeação de um ministro responsável por acompanhar as ações de reconstrução, repetindo a estrutura adotada no Sul do país. Também foi anunciada a ampliação do modelo de “compra assistida”, em que o governo adquire imóveis fora de áreas de risco para reassentar desabrigados.

A Caixa Econômica Federal será responsável por operacionalizar a compra dos imóveis, além de liberar o saque-calamidade do FGTS para trabalhadores das regiões atingidas. Para muitos moradores, no entanto, as promessas soam distantes da realidade vivida nas ruas cobertas de lama e entulho.

Comitiva política contrasta com dor das famílias

A visita presidencial contou com uma extensa comitiva de ministros e aliados, incluindo Rodrigo Pacheco, apontado como possível candidato ao governo mineiro com apoio de Lula, além da primeira-dama Janja da Silva. A presença de nomes cotados para disputas eleitorais reforçou as críticas de que o Planalto transformou o desastre em palco político.

Enquanto o presidente caminhava por ruas parcialmente limpas e fazia sobrevoos de helicóptero, equipes do Corpo de Bombeiros, Exército e Defesa Civil seguiam trabalhando contra o tempo para localizar vítimas soterradas. Em Juiz de Fora, cães farejadores ainda buscam o corpo do menino Piettro Theodoro, de 9 anos, único sobrevivente de uma família dizimada pelo desabamento da casa onde moravam.

Tragédia expõe abandono histórico e uso político do sofrimento

Em Matias Barbosa, bairros inteiros continuam debaixo d’água. Quase mil pessoas estão desalojadas, vivendo de doações e improvisos. Em Juiz de Fora, o número de desabrigados ultrapassa 4,2 mil pessoas, escancarando décadas de ocupação irregular e ausência de políticas preventivas.

Apesar disso, o discurso oficial evitou assumir responsabilidades estruturais e concentrou-se em anúncios imediatos e falas de efeito. Para críticos, Lula optou por capitalizar politicamente o desastre, repetindo uma estratégia conhecida: visitar áreas devastadas, discursar, prometer e sair, enquanto a reconstrução real costuma demorar meses — ou nunca chegar por completo.

A tragédia na Zona da Mata mineira, além de ceifar vidas, escancara o contraste entre a dor silenciosa das vítimas e o barulho dos discursos políticos feitos sobre os escombros.

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