
Lula vence Flávio Bolsonaro entre presos provisórios, mas resultado revela um recorte específico do eleitorado
Levantamento baseado em dados do TSE mostra 8.088 votos para Lula contra 2.565 para Flávio Bolsonaro nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais; na Papuda, entretanto, disputa foi muito mais equilibrada
O primeiro turno das eleições de 2026 produziu um contraste bastante particular entre o resultado nacional e a votação registrada nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais para presos provisórios. Nesse recorte específico, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente de Flávio Bolsonaro (PL) com ampla vantagem.
Segundo levantamento da Gazeta do Povo, elaborado a partir de dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula recebeu 8.088 votos, enquanto Flávio Bolsonaro contabilizou 2.565 votos entre os eleitores que votaram nessas seções. Em percentual dos votos válidos, o petista alcançou 72,98%, contra 23,15% de Flávio.
O levantamento do Metrópoles, por sua vez, analisou os registros de votação de 243 seções eleitorais destinadas a presos provisórios e chegou a números praticamente idênticos: aproximadamente 8,1 mil votos para Lula e 2,6 mil para Flávio.
O resultado chama atenção porque ocorreu justamente em uma eleição na qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula no conjunto do eleitorado brasileiro. Com 100% das urnas apuradas, Flávio registrou 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, levando a disputa presidencial para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Voto de presos provisórios é permitido pela Constituição
É importante fazer uma distinção: não são todos os presos que podem votar.
A legislação eleitoral assegura o direito ao voto aos presos provisórios, ou seja, pessoas que ainda não possuem condenação criminal definitiva com trânsito em julgado. Como seus direitos políticos não estão suspensos, esses eleitores podem participar das eleições.
Já pessoas com condenação criminal transitada em julgado ficam impedidas de votar enquanto durarem os efeitos da condenação, conforme estabelece o artigo 15 da Constituição Federal.
Por isso, a existência de urnas em estabelecimentos penais não significa que todos os detentos tenham acesso ao voto. Trata-se de uma estrutura destinada aos eleitores que continuam juridicamente habilitados.
Papuda teve disputa muito mais equilibrada
Um dos dados mais interessantes aparece no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
Na unidade, Lula recebeu 74 votos, equivalentes a aproximadamente 47% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 70 votos, cerca de 44%. Foram, portanto, apenas quatro votos de diferença entre os dois principais candidatos naquele recorte.
Dos 185 presos provisórios aptos a votar na seção analisada, 156 efetivamente compareceram às urnas. Também foram registrados votos em Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, além de votos brancos e nulos.
Entre os presos que estavam aptos a votar na Papuda estavam Daniel Vorcaro, banqueiro que ocupa posição central nas investigações envolvendo o Banco Master, e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
O resultado da Papuda, portanto, ficou muito distante da diferença observada quando todas as seções prisionais do país são consideradas em conjunto.
Outros candidatos tiveram votação residual
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, outros candidatos receberam votos nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais.
A Gazeta do Povo identificou 172 votos para Augusto Cury (Avante), 139 para Ronaldo Caiado (PSD) e 71 para Renan Santos (Missão). Romeu Zema (Novo) teve 10 votos, enquanto os demais candidatos ficaram com números ainda menores.
O dado demonstra que, apesar da predominância de Lula nesse universo, também houve espaço para diferentes candidaturas.
O contraste com o resultado nacional
O principal ponto político dos números está no contraste entre os dois universos eleitorais.
No conjunto das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 53.879.538 votos, ou 45,16%.
Nas seções eleitorais de estabelecimentos penais, porém, o cenário foi completamente diferente: Lula alcançou quase três quartos dos votos válidos, enquanto Flávio ficou pouco acima de um quinto.
Essa diferença, entretanto, deve ser interpretada dentro dos limites do próprio recorte. Os votos de presos provisórios representam apenas uma pequena parcela do eleitorado brasileiro e não podem ser utilizados, isoladamente, para explicar o comportamento do eleitorado nacional.
O levantamento é, sobretudo, um retrato de como determinados segmentos do eleitorado podem apresentar padrões de votação muito diferentes entre si.
Um dado eleitoral que provoca debate
O resultado também deverá alimentar o debate político nas redes sociais e durante a campanha do segundo turno. A diferença expressiva entre Lula e Flávio nas seções prisionais contrasta diretamente com o resultado geral da eleição e chama atenção justamente por ocorrer em um ambiente eleitoral bastante específico.
Ao mesmo tempo, o resultado da Papuda mostra que não existe uniformidade sequer dentro desse universo: naquela unidade, Lula teve 47% e Flávio 44%, numa disputa praticamente empatada.
Portanto, os números permitem uma constatação objetiva: Lula foi amplamente mais votado que Flávio Bolsonaro entre os presos provisórios que participaram do primeiro turno, mas essa preferência não se reproduziu no eleitorado brasileiro como um todo.
O segundo turno colocará novamente os dois candidatos frente a frente. E, agora, a disputa deixará de ser apenas uma comparação entre segmentos específicos e voltará a envolver todo o eleitorado habilitado a votar em 25 de outubro.