
Megaoperação no Alemão e na Penha mira chefes do Comando Vermelho e expõe guerra pelo controle do tráfico
Com 2,5 mil policiais nas ruas, o cerco às lideranças do CV atinge nomes como Doca, Gadernal e Pedro Bala. A ofensiva tenta conter a expansão da facção, que transformou a Penha em seu quartel-general.
O Rio amanheceu, mais uma vez, sob o som de helicópteros, sirenes e tiros. Uma megaoperação conjunta do Ministério Público e das polícias Civil e Militar tomou os complexos do Alemão e da Penha nesta terça-feira (28), com o objetivo de desarticular o alto comando do Comando Vermelho (CV) — a maior facção criminosa do estado.
A ação, que mobiliza 2,5 mil agentes e promotores do Gaeco (MPRJ), busca cumprir mandados de prisão contra 67 acusados de associação ao tráfico, sendo três também denunciados por tortura. Entre os principais alvos estão Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, apontado como o líder máximo do CV na Penha, e Thiago do Nascimento Mendes, o “Belão do Quitungo”, preso dentro de uma casa na Favela da Chatuba.
O comando por trás do caos
De acordo com o Ministério Público, Doca não é apenas uma peça da engrenagem — ele seria o cérebro operacional da facção, responsável por autorizar execuções, definir rotas de fuga e controlar o fluxo de armas e drogas.
“Nada acontece sem o aval de Doca”, diz um dos investigadores.
Já Belão, tido como um de seus braços armados, coordenava a logística e distribuição de armamento entre comunidades da Penha e do Alemão. Contra ele, já pesavam seis mandados de prisão, todos ligados ao tráfico e a confrontos com grupos rivais.
Outro nome que aparece no topo da denúncia é Pedro Paulo Guedes, o “Pedro Bala”, que atuaria no comando da Vila Cruzeiro e seria o chefe da chamada Tropa do Urso, um grupo temido por execuções e ataques armados. Há ainda Carlos Costa Neves, o “Gadernal”, e Washington César Braga da Silva, o “Grandão”, ambos apontados como articuladores da expansão do CV para a Zona Oeste.
A Penha, o novo quartel-general do crime
Segundo o MPRJ, o Complexo da Penha virou o coração estratégico da facção, por estar cercado de vias expressas que facilitam o transporte de drogas, armas e homens. A região, formada por mais de dez comunidades, funciona como um corredor logístico do crime, permitindo que o CV avance sobre áreas dominadas por milícias e outras organizações rivais.
Até o fim da manhã, 56 pessoas haviam sido presas e 32 fuzis apreendidos. Boa parte dos suspeitos veio de fora do Rio, o que reforça a tese de que os complexos estão sendo usados como base de expansão nacional do Comando Vermelho.
O espetáculo da guerra urbana
Enquanto as forças de segurança se espalhavam pelas vielas, moradores ficaram encurralados entre o fogo cruzado e o medo, num roteiro que o Rio conhece bem.
Em meio às prisões e apreensões, a megaoperação também escancara o tamanho do desafio: cada ofensiva parece gerar uma nova reação, e a sensação é de que a cidade vive uma guerra sem fim — onde o Estado chega sempre atrasado, e o poder paralelo segue reinventando suas rotas e líderes.