“Petrobras” da Venezuela foi desmontada por dentro

“Petrobras” da Venezuela foi desmontada por dentro

Relatório aponta que PDVSA perdeu controle e acabou nas mãos de aliados do regime

Um relatório divulgado recentemente pela ONG Transparência Venezuela afirma que a estatal petrolífera venezuelana PDVSA, frequentemente comparada à Petrobras no Brasil, passou por um processo de privatização silenciosa a partir de 2018. Segundo o documento, o comando da empresa teria sido transferido, aos poucos, para grupos empresariais e famílias ligadas ao entorno do governo de Nicolás Maduro.

De acordo com o estudo, essa mudança ocorreu sem debate público, longe do Parlamento e fora dos mecanismos tradicionais de fiscalização. O caminho teria sido aberto por decretos presidenciais, alterações legais e contratos firmados sem licitação, permitindo a entrada de empresas privadas em áreas centrais do setor petrolífero.

Discurso oficial escondia perda de controle

Enquanto o governo mantinha o discurso de defesa da soberania nacional sobre o petróleo, o relatório aponta que a PDVSA era esvaziada internamente. O Parlamento venezuelano não teve acesso aos contratos assinados nem às regras dessas parcerias, o que inviabilizou qualquer controle institucional.

Com isso, a estatal teria perdido o domínio sobre campos de produção, logística e até sobre a venda do petróleo no mercado internacional, passando a exercer um papel secundário em um setor que sempre foi estratégico para o país.

Contratos entregaram operação ao setor privado

O documento detalha que o regime criou diferentes formatos contratuais para viabilizar essa transferência de poder, entre eles:

  • Acordos de Serviços Compartilhados
  • Acordos de Serviços Produtivos
  • Contratos de Participação Produtiva, considerados os mais decisivos

Esses modelos permitiram que empresas privadas assumissem praticamente toda a cadeia do petróleo — da exploração à comercialização. Em alguns casos, essas companhias passaram a controlar diretamente o caixa das operações.

Segundo a ONG, à PDVSA restou apenas uma parte da receita, variando entre 40% e 65%, enquanto o restante ficava com as empresas parceiras.

Venda de petróleo virou um sistema opaco

O relatório também chama atenção para a mudança no modelo de comercialização do petróleo a partir de 2019, quando as sanções internacionais se intensificaram. Desde então, a PDVSA teria deixado de vender diretamente, passando a depender de intermediários privados.

Muitas dessas empresas, segundo o estudo, não tinham histórico no setor e estavam registradas em países com baixa transparência. As vendas ocorreram com grandes descontos e, em diversos casos, os pagamentos foram feitos por criptomoedas, especialmente USDT, ou por trocas de mercadorias, como alimentos e combustíveis.

O resultado, de acordo com o relatório, foi a formação de bilhões de dólares em valores não pagos, entre 2019 e 2023, que nunca chegaram aos cofres da estatal.

Grupos próximos ao poder

A Transparência Venezuela associa esse sistema a redes empresariais com vínculos diretos ou indiretos com o núcleo do poder em Caracas. Entre os beneficiados estariam familiares de integrantes do alto escalão do regime e empresários já favorecidos por contratos públicos em outras áreas.

Essas estruturas, segundo o estudo, funcionariam de forma dinâmica: empresas surgem, mudam de nome ou desaparecem, o que dificulta o rastreamento das operações e a cobrança de valores devidos.

Controle político e militar

Outro ponto destacado é a militarização crescente da PDVSA. Instalações estratégicas teriam passado ao controle de órgãos de inteligência e segurança do regime, como o Sebin e a contrainteligência militar.

Em 2025, esse processo teria se aprofundado com a nomeação de um ex-chefe do Sebin para a presidência da estatal, consolidando, segundo o relatório, o controle político e militar sobre a principal fonte de receita da Venezuela.

As informações constam em relatório da Transparência Venezuela e foram divulgadas pela Revista Oeste.

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