Mendonça afirma que foi monitorado pela Polícia Federal junto com Jorge Messias por mais de um mês

Mendonça afirma que foi monitorado pela Polícia Federal junto com Jorge Messias por mais de um mês

Ministro do STF diz que inteligência da PF produziu relatórios sobre sua atuação e sua relação com o advogado-geral da União; decisão levou ao afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e Leandro Almada e abriu uma nova frente de investigação

O ministro André Luiz de Almeida Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que ele próprio e o advogado-geral da União, Jorge Rodrigo Messias, foram submetidos a um monitoramento sistemático durante mais de um mês por integrantes da área de inteligência da Polícia Federal (PF). Segundo Mendonça, as informações coletadas deram origem a relatórios posteriormente encaminhados ao ministro Alexandre de Moraes, ampliando uma crise institucional que já vinha envolvendo o Supremo, a PF e investigações relacionadas ao caso Banco Master.

A denúncia apresentada por Mendonça está no centro da decisão que determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa. Para Mendonça, havia elementos suficientes para determinar a interrupção imediata das atividades consideradas suspeitas e impedir que os dois dirigentes continuassem à frente das estruturas responsáveis pela produção dos relatórios.

O ministro também determinou que a Corregedoria da Polícia Federal investigue a produção dos documentos e as circunstâncias em que as informações foram coletadas. A ordem inclui a interrupção de relatórios de inteligência que, segundo Mendonça, tenham como alvo a atuação do Judiciário ou da advocacia pública.

O que Mendonça afirma ter descoberto

De acordo com o ministro, o monitoramento teria durado pelo menos 30 dias e utilizado uma metodologia denominada “cadeia inferencial”, baseada na construção de relações entre pessoas, acontecimentos e informações consideradas relevantes pelos setores de inteligência.

Mendonça afirma que o mecanismo teria sido utilizado para acompanhar não apenas sua atuação como ministro do STF, mas também sua relação institucional com Jorge Messias, então chefe da Advocacia-Geral da União.

A acusação é particularmente sensível porque envolve duas autoridades de alto escalão do Estado brasileiro. Mendonça é integrante da Suprema Corte, enquanto Messias ocupa o comando da AGU, órgão responsável pela representação judicial e extrajudicial da União e pela defesa jurídica do governo federal.

Segundo Mendonça, os dados coletados foram utilizados para produzir relatórios de inteligência posteriormente encaminhados a Alexandre de Moraes. O ministro considera a situação de extrema gravidade e sustenta que mecanismos de inteligência do Estado não poderiam ser utilizados dessa maneira contra integrantes das próprias instituições públicas.

André Mendonça x Alexandre de Moraes

A revelação ocorre em meio a uma escalada de tensão entre André Mendonça e Alexandre de Moraes.

Mendonça é o relator de investigações relacionadas ao Banco Master e vinha analisando materiais que incluem mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco e personagem central das investigações.

Após a divulgação de mensagens e outros elementos envolvendo Vorcaro e autoridades, Mendonça determinou providências no caso. A crise aumentou quando Alexandre de Moraes utilizou um relatório produzido no âmbito da Polícia Federal para questionar a atuação de seu colega de Corte e pedir providências contra Mendonça.

O documento utilizado por Moraes passou a ser alvo de questionamentos. Reportagens apontaram que o próprio material classificava algumas informações como de baixa confiabilidade e sem valor probatório, além de registrar que determinadas conclusões eram baseadas em inferências.

Mendonça, por sua vez, considerou que a produção e utilização desse tipo de relatório poderia representar um desvio grave das funções de inteligência policial.

Afastamento do diretor-geral da PF

Diante do que classificou como irregularidades, Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal.

O ministro também afastou Leandro Almada, responsável pela Diretoria de Inteligência Policial.

A decisão provocou reação imediata dentro da própria Polícia Federal. A cúpula da corporação demonstrou indignação e classificou a medida como política, enquanto o comando da instituição passou a defender a permanência de Rodrigues no cargo.

Com o afastamento de Rodrigues, o diretor-executivo da PF, Willian Murad, assumiu interinamente o comando da corporação.

A decisão, entretanto, não encerrou a disputa.

Segunda Turma do STF entra no caso

O afastamento passou a ser analisado pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

Até o momento, formou-se maioria para manter a medida determinada por Mendonça. Os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam a decisão, enquanto Gilmar Mendes pediu vista do processo, interrompendo o julgamento. A decisão de afastamento, porém, permanece válida enquanto a análise não for concluída.

O pedido de vista acrescentou mais um elemento à crise. O caso deixou de ser apenas uma disputa entre integrantes do Supremo e passou a envolver diretamente o comando da Polícia Federal e as prerrogativas do Poder Executivo.

AGU anuncia reação

A situação também colocou a Advocacia-Geral da União, comandada por Jorge Messias, em uma posição delicada.

A AGU anunciou que pretende recorrer contra o afastamento de Andrei Rodrigues. O órgão argumenta que a decisão interfere em uma competência atribuída ao presidente da República, uma vez que a nomeação e a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal são prerrogativas do chefe do Executivo.

A reação da AGU adiciona uma nova dimensão ao conflito: além da discussão sobre a legalidade dos relatórios de inteligência, agora está em jogo o limite da atuação de um ministro do STF sobre a estrutura de comando de uma instituição subordinada ao Poder Executivo.

A investigação dentro da própria Polícia Federal

Um dos pontos mais importantes da decisão de Mendonça é o encaminhamento do caso para investigação interna.

A Corregedoria da Polícia Federal deverá apurar quem produziu os relatórios, quais informações foram utilizadas, quais fontes foram consultadas, quais métodos de inteligência foram empregados e quem autorizou ou determinou a produção do material.

O objetivo é estabelecer se houve efetivamente monitoramento ilegal, abuso das ferramentas de inteligência ou utilização inadequada de informações internas.

Essa distinção é fundamental: a existência dos relatórios é um fato já documentado; já a conclusão de que houve crime ou espionagem ilegal depende da investigação e da comprovação das responsabilidades individuais.

A própria direção da PF contesta a interpretação dada por Mendonça e considera a decisão política. Portanto, o conflito permanece aberto e deverá ser esclarecido pelos procedimentos determinados pelo Supremo e pela própria corporação.

Um relatório que virou peça central da crise

O episódio ganhou proporções ainda maiores porque os relatórios da inteligência da PF passaram a ocupar posição central no conflito entre Moraes e Mendonça.

De um lado, Alexandre de Moraes utilizou informações produzidas pela inteligência policial para questionar a atuação de Mendonça. De outro, Mendonça passou a questionar justamente a legitimidade e a metodologia utilizada para produzir parte desse material.

O resultado é uma situação institucional incomum: um ministro do Supremo contesta a forma como setores da Polícia Federal produziram informações utilizadas contra ele, enquanto outro ministro do Supremo considera essas informações relevantes para questionar a atuação do colega.

A disputa deixou de ser apenas jurídica e passou a atingir diretamente a confiança entre instituições.

A dimensão política do conflito

A crise ocorre ainda em um momento particularmente delicado, às vésperas da eleição presidencial de 2026.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece no centro indireto da disputa porque Jorge Messias integra o governo federal e porque a AGU decidiu reagir ao afastamento de Andrei Rodrigues. Ao mesmo tempo, setores da oposição passaram a explorar politicamente o confronto entre Mendonça, Moraes e a Polícia Federal.

O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, e outros nomes da direita têm utilizado a crise para criticar Alexandre de Moraes e defender maior controle sobre a atuação do STF.

Isso faz com que cada nova decisão tenha também potencial impacto eleitoral.

O que acontece agora

O próximo passo será acompanhar a investigação da Corregedoria da Polícia Federal e o desfecho da análise da Segunda Turma do STF.

Também deverá avançar o recurso anunciado pela AGU contra o afastamento de Andrei Rodrigues.

Enquanto isso, a Polícia Federal permanece sob forte pressão institucional, com seu diretor-geral afastado preventivamente e sua área de inteligência submetida a uma investigação justamente por causa da produção de relatórios que acabaram alimentando a disputa dentro do Supremo.

O caso envolvendo André Mendonça, Alexandre de Moraes, Jorge Messias, Andrei Rodrigues e Leandro Almada representa, portanto, muito mais do que uma divergência entre autoridades.

É uma disputa sobre os limites da inteligência policial, a utilização de informações produzidas pelo Estado, a independência funcional da Polícia Federal, as prerrogativas do Poder Executivo e os próprios mecanismos de controle do Supremo Tribunal Federal.

E a pergunta central permanece: quem autorizou o monitoramento apontado por Mendonça, por que ele foi realizado durante mais de um mês e como essas informações chegaram ao gabinete de Alexandre de Moraes?

É justamente essa sequência de acontecimentos que a investigação deverá esclarecer. Até lá, acusações e contraposições continuam sendo apresentadas pelas partes, enquanto a crise institucional permanece em andamento.

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