Mendonça afirma que Jorge Messias também foi monitorado pela PF e afasta diretor-geral da Polícia Federal

Mendonça afirma que Jorge Messias também foi monitorado pela PF e afasta diretor-geral da Polícia Federal

Ministro do Supremo Tribunal Federal diz que inteligência da corporação acompanhou seus passos e os do advogado-geral da União durante mais de um mês; decisão determinou afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada e abriu investigações sobre a origem dos relatórios

O ministro André Luiz de Almeida Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), elevou nesta terça-feira (8) o nível da crise envolvendo a Corte, a Polícia Federal (PF) e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em decisão que determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, Mendonça afirmou que ele próprio e o advogado-geral da União, Jorge Rodrigo Messias, teriam sido monitorados durante mais de um mês pela área de inteligência da corporação.

Segundo Mendonça, foram produzidos pelo menos seis relatórios de inteligência entre 3 e 31 de agosto, com informações sobre sua atuação e sobre sua relação institucional com Messias. O ministro classificou o episódio como de extrema gravidade e determinou providências para investigar a origem, a finalidade e a legalidade dos documentos.

A decisão atingiu também Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da PF, que foi afastado preventivamente junto com Andrei Rodrigues. A determinação ainda provocou uma reação em cadeia dentro das instituições, porque colocou sob investigação justamente setores responsáveis pela produção de informações de inteligência da principal polícia judiciária da União.

Quem é André Mendonça

André Mendonça é ministro do Supremo Tribunal Federal e foi indicado à Corte pelo então presidente Jair Messias Bolsonaro em 2021. Antes de chegar ao STF, ocupou cargos importantes no governo federal, incluindo a chefia da Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

No Supremo, Mendonça passou a integrar a Segunda Turma e ganhou relevância em processos de grande repercussão nacional. Em 2026, tornou-se também uma das figuras centrais das investigações relacionadas ao Banco Master, depois de assumir a relatoria de procedimentos que envolvem o banqueiro Daniel Vorcaro e outras pessoas investigadas.

A atuação de Mendonça no caso Master passou a colocá-lo em rota de colisão com outros atores institucionais, principalmente depois que documentos e mensagens envolvendo autoridades passaram a ser analisados e divulgados no contexto da investigação.

Jorge Messias aparece no centro da controvérsia

Um dos pontos mais sensíveis da decisão é a menção ao advogado-geral da União, Jorge Messias.

Segundo Mendonça, a inteligência da Polícia Federal teria acompanhado não apenas sua própria atuação, mas também sua relação com Messias. O ministro afirmou que os relatórios procuravam estabelecer conexões entre os dois, inclusive a partir de aspectos relacionados às convicções religiosas.

Mendonça considerou especialmente grave uma tentativa de associar sua fé evangélica a decisões ou articulações institucionais. Na avaliação apresentada pelo ministro, esse tipo de associação seria impróprio e não poderia servir como fundamento para uma análise de inteligência destinada a orientar investigações.

O ministro também apontou que a construção das supostas relações entre autoridades teria utilizado informações de baixa confiabilidade e inferências que, em sua avaliação, não poderiam sustentar conclusões institucionais.

Os seis relatórios que provocaram a reação

A cronologia apontada na decisão é um dos elementos mais importantes para compreender a dimensão da crise.

De acordo com Mendonça, pelo menos seis relatórios foram produzidos entre 3 e 31 de agosto. Os documentos teriam acompanhado sua atuação e buscado estabelecer relações entre o ministro, Jorge Messias e outras pessoas.

Mendonça afirma que o monitoramento teria durado mais de 30 dias e que os documentos posteriormente foram utilizados em um contexto de questionamento de sua atuação no caso Banco Master.

O ministro classificou a estrutura como uma espécie de “arapongagem institucional” e fez referência à obra “1984”, de George Orwell, para expressar sua preocupação com a possibilidade de utilização de mecanismos estatais de vigilância contra autoridades.

É justamente nesse ponto que a investigação passa a ser fundamental: será necessário determinar quem solicitou os relatórios, quem autorizou sua produção, quais métodos foram utilizados, quais informações foram coletadas e para quem o material foi encaminhado.

Andrei Rodrigues é afastado

Com base nos elementos apresentados na decisão, Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

Andrei Rodrigues é uma das autoridades mais importantes da estrutura policial brasileira e ocupa o comando da PF durante um período de forte tensão política e institucional.

Também foi afastado Leandro Almada da Costa, responsável pela Diretoria de Inteligência Policial.

A justificativa apresentada por Mendonça foi a necessidade de impedir que os investigados pudessem interferir na apuração ou repetir as condutas que o ministro considera potencialmente ilícitas. O magistrado também determinou providências para que a própria Corregedoria da Polícia Federal investigue os fatos.

A PF reage e considera decisão política

A decisão provocou forte reação dentro da Polícia Federal.

A cúpula da corporação demonstrou indignação e classificou o afastamento de Andrei Rodrigues como uma decisão de natureza política. A direção da PF contesta a interpretação de Mendonça sobre os relatórios e defende outra versão sobre a origem dos documentos.

Segundo informações divulgadas nesta terça-feira, integrantes da corporação sustentam que os relatórios teriam sido produzidos no contexto de uma solicitação atribuída ao ministro Alexandre de Moraes, e não como uma iniciativa autônoma da direção da Polícia Federal. Essa versão, contudo, está inserida justamente no conjunto de questões que passaram a ser discutidas no caso.

A disputa, portanto, não está encerrada. Ao contrário: a origem dos documentos tornou-se um dos principais pontos da investigação.

Alexandre de Moraes entra diretamente no conflito

O ministro Alexandre de Moraes, também integrante do STF, aparece como personagem central da crise porque relatórios da inteligência da PF foram utilizados no contexto de questionamentos sobre a atuação de Mendonça.

A tensão entre os dois ministros se intensificou durante as investigações relacionadas ao Banco Master e às informações envolvendo Daniel Vorcaro, banqueiro investigado em um complexo caso financeiro.

Mendonça passou a questionar a legalidade e a metodologia de documentos que, segundo sua decisão, foram utilizados para construir suspeitas sobre sua própria atuação.

O episódio criou uma situação excepcional: um ministro do Supremo passou a investigar a possível utilização irregular da estrutura de inteligência da Polícia Federal contra ele próprio, enquanto outro ministro da Corte aparece relacionado à utilização de informações produzidas por essa mesma estrutura.

É justamente essa circunstância que transformou o caso em uma crise institucional de grandes proporções.

O relatório considerado “apócrifo”

Outro ponto levantado por Mendonça diz respeito à forma dos documentos.

O ministro classificou um dos relatórios como “apócrifo”, argumentando que o material não apresentaria elementos formais esperados de um documento oficial de inteligência, como identificação, assinatura ou determinados elementos de autenticidade.

Além disso, o relatório teria indicado que as informações não possuíam valor probatório, ao mesmo tempo em que apresentaria conclusões ou recomendações baseadas em informações consideradas frágeis.

Para Mendonça, essa combinação seria incompatível com a utilização do material como fundamento para medidas contra uma autoridade pública.

A questão, entretanto, precisará ser esclarecida tecnicamente. A investigação deverá estabelecer a natureza jurídica dos documentos, sua origem e a cadeia de comando responsável pela produção e circulação das informações.

Quem assumiu o comando da PF

Com o afastamento de Andrei Rodrigues, o comando da Polícia Federal passou interinamente para William Murad, então diretor-executivo da corporação e integrante da cúpula da PF.

Na área de inteligência, Rafael Caldeira, ex-chefe da Contra-Inteligência, assumiu interinamente a função deixada por Leandro Almada.

A mudança ocorre em um momento extremamente delicado para a instituição, que precisa manter o funcionamento normal de suas operações enquanto sua própria estrutura de inteligência é colocada sob investigação.

Segunda Turma do STF mantém afastamento por enquanto

A decisão de Mendonça também chegou à Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

O colegiado já formou maioria para manter o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e Leandro Almada. Os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam a decisão de Mendonça.

O julgamento, entretanto, foi interrompido depois que o ministro Gilmar Mendes pediu vista.

Com isso, a decisão permanece produzindo efeitos enquanto o julgamento não é concluído.

O episódio coloca o próprio Supremo diante de uma situação delicada: a Corte precisa avaliar uma decisão tomada por um de seus integrantes contra dirigentes da Polícia Federal em um caso que envolve outros integrantes do próprio tribunal.

O papel de Jorge Messias

A presença de Jorge Messias no caso acrescenta uma dimensão política e institucional à crise.

Como advogado-geral da União, Messias ocupa o comando da instituição responsável pela representação jurídica da União e pela defesa judicial dos interesses do governo federal.

A alegação de que ele teria sido monitorado juntamente com Mendonça significa que a controvérsia não se restringiria a um ministro do STF. Ela alcançaria também uma autoridade diretamente ligada ao Poder Executivo.

Messias, portanto, passou de personagem secundário a elemento importante da investigação sobre a origem e a finalidade dos relatórios.

Governo Lula fica diante de uma situação delicada

O caso também atinge diretamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A administração federal tem interesse institucional na manutenção da autonomia da Polícia Federal, mas, ao mesmo tempo, a Advocacia-Geral da União deverá contestar a decisão de afastamento de Andrei Rodrigues, defendendo as prerrogativas do Executivo sobre a direção da PF. A expectativa de recurso foi registrada em meio à crescente crise entre os Poderes.

O governo passa, assim, a enfrentar uma equação complexa: defender as prerrogativas presidenciais sem parecer interferir na investigação sobre possíveis irregularidades dentro da Polícia Federal.

O que a investigação precisa esclarecer

O ponto central agora não é apenas saber se os relatórios existiram. Eles existem e foram localizados no contexto da disputa.

O que ainda precisa ser esclarecido é por que foram produzidos, quem determinou sua elaboração, quais agentes participaram, que informações foram coletadas e como o material foi utilizado posteriormente.

Também será necessário verificar se houve efetivamente monitoramento ilegal de Mendonça e Messias, se os procedimentos utilizados pela inteligência respeitaram as regras internas e se alguém deverá responder administrativa ou criminalmente por eventual abuso.

Mendonça determinou a atuação da Corregedoria da Polícia Federal justamente para aprofundar essa apuração.

Uma crise que ultrapassou os limites do STF

O caso já deixou de ser uma simples divergência entre dois ministros.

De um lado está André Mendonça, relator de investigações sensíveis e autor da decisão que afastou a cúpula da PF. Do outro, estão Alexandre de Moraes e setores da Polícia Federal que contestam a interpretação dada pelo ministro.

No meio da disputa aparece Jorge Messias, chefe da AGU e integrante do governo Lula, além de Andrei Rodrigues e Leandro Almada, afastados de suas funções.

E, por trás de toda a controvérsia, está uma questão ainda mais importante: até onde pode ir a atividade de inteligência do Estado quando envolve integrantes das próprias instituições que deveriam ser protegidas e fiscalizadas por ele?

A resposta dependerá das investigações e das decisões que ainda serão tomadas.

O caso também ganhou dimensão eleitoral. A crise ocorre poucas semanas antes das eleições presidenciais e já é explorada tanto pelo governo quanto pela oposição como argumento sobre os limites do STF, a atuação da Polícia Federal e a independência entre os Poderes. A disputa política envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro aumenta ainda mais a repercussão do episódio.

Por enquanto, a única certeza é que a crise está longe de terminar.

A Polícia Federal precisa explicar a origem dos relatórios. O Supremo terá de definir os limites da decisão de Mendonça. A AGU deverá defender as prerrogativas do Executivo. E as investigações terão de determinar se houve apenas uma disputa institucional ou se, de fato, mecanismos de inteligência do Estado foram utilizados de maneira irregular contra autoridades.

O esclarecimento dessas perguntas será decisivo não apenas para André Mendonça, Jorge Messias, Andrei Rodrigues, Leandro Almada e Alexandre de Moraes, mas para a própria credibilidade das instituições brasileiras.

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