
Milhões na mira: Creches ligadas a vereadora repassam verba pública a empresas da família
Negócios registrados em nomes de parentes de Gigi Castilho receberam R$ 1,7 milhão de instituições bancadas pela Prefeitura do Rio; muitos sequer funcionaram de fato
Creches comunitárias associadas à vereadora Gigi Castilho (Republicanos) movimentaram R$ 1,7 milhão em dinheiro público entre 2022 e 2023, direcionando os recursos a empresas pertencentes a parentes ou pessoas próximas à parlamentar. A suspeita gira em torno da real existência e funcionamento desses negócios, como padarias e confecções, muitos dos quais sequer eram conhecidos nos endereços registrados ou fecharam pouco tempo depois de receber os pagamentos.
As empresas prestaram supostos serviços à Creche Comunitária Deus é Fiel e à Creche Escola Machado, ambas situadas na Zona Oeste do Rio e mantidas com recursos da Prefeitura para atender crianças da rede municipal. Juntas, essas instituições já receberam R$ 64,2 milhões desde 2019 e atendem hoje mais de dois mil alunos.
Apesar de oficialmente Gigi Castilho e seu marido, Luciano Castilho, terem deixado os cargos de diretora e presidente das creches em 2020, familiares seguiram ocupando posições-chave nas instituições. A própria filha da vereadora, Andreza dos Santos Adão, assumiu a presidência da Creche Escola Machado e era dona de uma das empresas contratadas, a Padaria e Mercearia Impacto.
Mas o rastro do dinheiro público leva a lugares surpreendentes: no endereço da padaria, moradores afirmaram nunca ter visto qualquer comércio no local. Outras empresas, como a Padaria do Xandinho e o negócio de outro sobrinho de Luciano, também apresentaram irregularidades similares — os imóveis eram casas de família, terrenos baldios ou locais em obras, sem qualquer sinal de atividade comercial.
Mesmo fora da gestão formal, o entorno familiar continuou ativo. O atual presidente da Creche Deus é Fiel é um amigo pessoal de Luciano, enquanto o vice-presidente é filho do casal. Nas redes sociais, as relações são celebradas com afeto e proximidade, o que levanta dúvidas sobre a separação entre interesse público e vínculos privados.
Especialistas como o advogado Maurício Reis apontam que, mesmo sendo instituições privadas, as creches devem seguir regras rígidas para o uso de verbas públicas. Caso se comprove que a gestão era, na prática, comandada pelo mesmo grupo familiar, pode haver caracterização de improbidade administrativa.
O vereador Pedro Duarte (Novo) defende uma fiscalização mais rigorosa nas creches conveniadas, destacando que, sem controle, o modelo — que é útil para suprir a falta de vagas — acaba abrindo espaço para abusos.
O que dizem os envolvidos:
Gigi Castilho, por meio de nota, classificou as acusações como “ilações” e perseguição política, afirmando que não tinha envolvimento com a parte administrativa das creches nos anos citados. Sua filha, Andreza, garantiu que todas as contas foram aprovadas pelo poder público. Alexandre Graciano, sobrinho de Luciano, declarou que os serviços foram realizados conforme a legislação.
Já a Secretaria Municipal de Educação informou que investiga as denúncias com o apoio da Controladoria-Geral do Município. O Tribunal de Contas do Município também realiza auditoria sobre o caso.