Moraes determina bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer Tomaz e suspende passaportes em investigação que envolve relações financeiras com Flávio Bolsonaro

Moraes determina bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer Tomaz e suspende passaportes em investigação que envolve relações financeiras com Flávio Bolsonaro

Decisão do ministro do STF inclui quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial, suspensão das atividades empresariais do advogado e medidas para esclarecer possíveis vínculos entre contas investigadas e o senador. Defesa contesta as medidas e nega irregularidades.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou em 23 de outubro de 2026 o bloqueio e o sequestro de bens do advogado Willer Tomaz até o limite de R$ 6 bilhões. A decisão também determinou a suspensão de seus passaportes, inclusive o diplomático, a quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial e a paralisação das atividades econômicas e empresariais de suas empresas. A investigação busca esclarecer suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis conexões financeiras envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência.

As medidas foram adotadas após a Polícia Federal identificar movimentações financeiras consideradas suspeitas e informações sobre uma viagem de Willer Tomaz aos Estados Unidos depois de ele ter sido alvo de busca e apreensão. A ordem de bloqueio abrange bens móveis e imóveis, além de outros ativos, como aviões e embarcações. O limite de R$ 6 bilhões representa o valor máximo determinado para a constrição patrimonial, não uma comprovação de que esse montante tenha sido encontrado em dinheiro ou corresponda a recursos ilícitos.

Conta da Alcazar e acesso atribuído a Flávio Bolsonaro

Um dos principais pontos da investigação envolve a Alcazar Holding, empresa associada a Willer Tomaz e registrada na estrutura empresarial ligada à Ilha da Madeira, em Portugal. Segundo documentos bancários mencionados na decisão, Flávio Bolsonaro teria figurado como “usuário master” de uma conta vinculada à empresa, condição que poderia permitir acesso amplo e gerenciamento de operações bancárias. O registro teria permanecido até maio de 2025, quando foi solicitada a retirada desse acesso.

Moraes determinou que instituições financeiras forneçam informações sobre correntistas atuais e antigos de empresas relacionadas ao advogado. A medida busca esclarecer quem tinha acesso às contas, quais operações foram realizadas e se existiam relações financeiras além da amizade alegada pelos envolvidos. A defesa de Flávio nega que ele tenha mantido negócios com Willer Tomaz.

A decisão também abrange empresas como Alcazar Holdings Unipessoal, Alcazar Global Holdings e Cathedral Holdings. As autoridades financeiras e regulatórias foram comunicadas para cumprir as determinações dentro de suas competências.

Os bilhões movimentados em apostas esportivas

Outro elemento que ampliou a investigação foi uma nota técnica do Ministério da Fazenda, segundo a qual Willer Tomaz movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas esportivas durante 2025, considerando prêmios e reapostas. O levantamento também apontou cerca de R$ 258 milhões em depósitos e R$ 200 milhões em saques.

Esses números se referem ao volume de operações, e não necessariamente a patrimônio pessoal ou lucro líquido. A movimentação elevada despertou questionamentos sobre a origem dos recursos, o fracionamento de transações e os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

A Polícia Federal investiga se estruturas empresariais ligadas ao advogado foram utilizadas para movimentações financeiras irregulares e se houve participação oculta de terceiros. As suspeitas ainda precisam ser comprovadas, e movimentar valores elevados em apostas, isoladamente, não demonstra a prática de crime.

Viagens, empresas e relações pessoais

A investigação também examina viagens internacionais envolvendo integrantes das famílias de Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro, além de registros relacionados a aeronaves e empresas que teriam custeado deslocamentos.

Segundo reportagens que tiveram acesso a documentos, uma empresa ligada à estrutura empresarial investigada participou da organização de viagens. A Polícia Federal procura esclarecer a natureza dessas despesas e se existiam vínculos econômicos relacionados aos negócios de apostas. Os envolvidos afirmam que a relação entre eles é de amizade e negam irregularidades.

Por que Moraes cancelou os passaportes?

Um dos fundamentos das medidas foi a viagem de Willer Tomaz a Miami, nos Estados Unidos, em agosto de 2026, após ele ter sido alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de fraudes envolvendo descontos em benefícios do INSS.

Conforme as informações divulgadas sobre a decisão, a saída do país e a ausência de registro de retorno foram consideradas relevantes para a avaliação do risco de perda ou destruição de provas, especialmente documentos e dados relacionados a fundos e empresas no exterior. Por isso, Moraes determinou o cancelamento dos passaportes e a adoção de medidas patrimoniais.

A suspensão dos passaportes não equivale a uma condenação criminal. Trata-se de uma medida cautelar cujo fundamento e proporcionalidade podem ser questionados pelos meios legais.

O que dizem as defesas

A defesa de Willer Tomaz classificou as medidas como desproporcionais e criticou o que chamou de fishing expedition, expressão usada para descrever uma busca ampla por provas sem delimitação adequada. Também afirmou que o bloqueio de R$ 6 bilhões não corresponde ao patrimônio do advogado e que a suspensão das atividades de suas empresas representa uma punição antecipada.

Os advogados contestaram ainda a informação de que Flávio Bolsonaro seria usuário master de uma conta da Alcazar, afirmando que os dois são amigos e que um nunca movimentou recursos do outro. A defesa criticou a divulgação de informações de uma decisão sob sigilo às vésperas do segundo turno eleitoral.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, nega manter relações comerciais com Willer Tomaz e afirma que o vínculo entre ambos é pessoal. A campanha do senador também contestou a caracterização de que ele seria investigado naquele procedimento, argumentando que a apuração ainda dependia dos atos processuais pertinentes.

O que ainda precisa ser esclarecido

A investigação reúne questões distintas que precisam ser analisadas com cuidado:

  • A origem e o destino dos recursos movimentados nas plataformas de apostas.
  • Quem efetivamente controlava as contas bancárias vinculadas às empresas investigadas.
  • A natureza do acesso atribuído a Flávio Bolsonaro na conta da Alcazar.
  • A finalidade das viagens e das despesas custeadas por empresas relacionadas aos envolvidos.
  • A legalidade e a proporcionalidade das medidas cautelares determinadas pelo STF.

O bloqueio de até R$ 6 bilhões não significa que esse valor tenha sido comprovadamente desviado, nem estabelece culpa de Willer Tomaz ou de Flávio Bolsonaro. O objetivo da investigação é esclarecer as operações e verificar se existem elementos suficientes para sustentar eventuais acusações.

O caso coloca sob análise relações pessoais, estruturas empresariais e movimentações financeiras de grande escala. O desfecho dependerá das provas reunidas, das manifestações das defesas e das decisões judiciais que vierem a ser tomadas.

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