
Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma e advogado de Lula, rompe sociedade com Willer Tomaz e denuncia uso de sua assinatura sem autorização
Ex-ministro afirma que não tinha conhecimento prévio de uma ação judicial contra a plataforma de apostas Blaze. A sociedade profissional com Willer Tomaz, advogado investigado pela Polícia Federal e associado a uma investigação que também envolve Flávio Bolsonaro, será desfeita. O caso levanta questionamentos sobre a atuação do escritório, as apostas de alto valor e os vínculos profissionais entre os envolvidos.
O advogado Eugênio José Guilherme de Aragão, ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff (PT) e integrante da equipe jurídica que atuou na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, anunciou que está rompendo sua sociedade profissional com o advogado Willer Tomaz. A decisão veio a público em 23 de outubro de 2026, após reportagens apontarem que uma ação judicial relacionada a apostas on-line teria sido apresentada com a assinatura de Aragão sem que ele tivesse conhecimento prévio do processo.
A informação foi divulgada pelo UOL e repercutiu em outros veículos de comunicação. Segundo Aragão, a dissolução da sociedade será formalizada, e ele já não frequentava o escritório havia alguns dias. O ex-ministro afirmou que as atividades atribuídas a Willer Tomaz não seriam compatíveis com seu perfil profissional e com os critérios éticos que diz adotar na advocacia.
Quem é Eugênio Aragão?
Eugênio Aragão construiu carreira no Ministério Público Federal, onde atuou por décadas, e também exerceu funções na política e na advocacia. Em março de 2016, foi nomeado ministro da Justiça pela então presidente Dilma Rousseff, permanecendo no cargo até maio daquele ano, durante o processo de impeachment.
Posteriormente, atuou juridicamente para o Partido dos Trabalhadores e participou da equipe de defesa de Lula durante a campanha presidencial de 2022. Sua trajetória política e profissional voltou ao centro do debate por causa de sua associação com Willer Tomaz, advogado que passou a ser investigado em apurações sobre movimentações financeiras e apostas esportivas.
A sociedade entre Aragão e Tomaz foi anunciada em 2017, após a aposentadoria de Aragão do Ministério Público Federal. O escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados passou a atuar em processos judiciais, inclusive em tribunais superiores.
Segundo reportagem do Metrópoles, a participação societária formal de Aragão era minoritária, enquanto Willer Tomaz detinha praticamente toda a sociedade. Aragão afirmou que recebia remuneração fixa mensal e que a distribuição de lucros teria ocorrido apenas uma vez, no segundo semestre de 2023.
Ação contra a Blaze e a assinatura contestada
Um dos pontos centrais da ruptura envolve uma ação judicial contra a plataforma de apostas Blaze. De acordo com o UOL, o processo foi apresentado em agosto de 2026 e alegava problemas relacionados à plataforma, além de mencionar ludopatia, termo utilizado para designar o transtorno associado ao jogo compulsivo.
A ação solicitava a devolução de aproximadamente R$ 163 milhões em valores relacionados a apostas. Aragão declarou que não havia sido informado previamente sobre o processo e que não participou de sua elaboração.
“Ações foram propostas sem meu prévio conhecimento e no meu nome”, afirmou o ex-ministro ao UOL.
Segundo a reportagem, os dois advogados compartilhavam certificados digitais em razão da estrutura profissional do escritório. Aragão disse ter tomado conhecimento do caso por meio da imprensa e afirmou que não autorizou previamente o uso de sua assinatura naquela ação.
A alegação é grave e exige esclarecimento. É necessário apurar quem preparou a petição, quem autorizou seu protocolo, como a assinatura foi inserida e quais procedimentos internos existiam para a utilização dos certificados digitais. A declaração de Aragão, por si só, não determina a responsabilidade jurídica de qualquer pessoa: os fatos precisam ser verificados por meio dos documentos e dos procedimentos competentes.
Willer Tomaz e as movimentações em apostas esportivas
Willer Tomaz também está no centro de investigações sobre movimentações financeiras relacionadas a plataformas de apostas. Segundo documentos e reportagens citados pelo UOL, operações envolvendo a Blaze teriam alcançado aproximadamente R$ 10 bilhões em ganhos e perdas durante 2025.
Esse montante representa volume de operações, e não necessariamente patrimônio pessoal ou lucro líquido. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas a apostas que poderiam ter sido utilizadas para simular operações financeiras legítimas.
Em outra frente, informações atribuídas ao Ministério da Fazenda indicaram que Tomaz teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões em apostas ao longo de 2025, com aproximadamente R$ 258 milhões em depósitos e R$ 200 milhões em saques. Os números se referem a levantamentos distintos e não devem ser somados automaticamente, pois podem abranger operações relacionadas.
Willer Tomaz contestou os valores divulgados e afirmou, por meio de sua defesa, que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de suas declarações fiscais. Também afirmou que o assunto está relacionado a uma ação judicial em andamento.
O advogado nega irregularidades. As suspeitas investigadas ainda dependem de apuração e não equivalem a uma condenação criminal.
A investigação também envolve Flávio Bolsonaro
O caso ganhou repercussão política porque Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e candidato à Presidência, também aparece na investigação que apura possíveis irregularidades financeiras envolvendo Willer Tomaz.
Reportagens do UOL afirmaram que a Polícia Federal encontrou e-mails indicando que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz teriam compartilhado uma mesma conta bancária. A natureza dessa relação, os acessos efetivamente concedidos e as operações eventualmente realizadas são questões que precisam ser esclarecidas pelas autoridades.
Flávio Bolsonaro nega ser sócio de Willer Tomaz e afirma que os dois são amigos. Em debate eleitoral, o senador declarou que o verdadeiro sócio de Tomaz seria Eugênio Aragão, referindo-se à sociedade profissional entre os advogados.
A existência de uma sociedade em um escritório de advocacia, entretanto, não prova envolvimento em eventuais irregularidades financeiras de um dos sócios. Da mesma forma, uma relação de amizade não elimina a necessidade de esclarecer movimentações bancárias caso existam elementos concretos que justifiquem a investigação.
A ruptura e as perguntas que permanecem
A decisão de Aragão de romper a sociedade ocorre em um momento em que Willer Tomaz enfrenta apurações sobre apostas, movimentações financeiras e suspeitas relacionadas a fraudes no INSS. O escritório compartilhado pelos advogados também foi alvo de uma operação policial em agosto de 2026, no âmbito da Operação Sem Desconto.
O caso deixa questões importantes em aberto: quem autorizou o uso da assinatura de Aragão na ação contra a Blaze? Como os certificados digitais eram compartilhados? Qual era a participação de cada advogado nos processos apresentados pelo escritório? E quais são os vínculos financeiros efetivamente comprovados entre Willer Tomaz e as demais pessoas citadas nas investigações?
Essas perguntas exigem respostas documentadas, não conclusões antecipadas. A investigação deve distinguir responsabilidade profissional, relações pessoais, movimentações financeiras e eventual responsabilidade criminal.
O rompimento anunciado por Eugênio Aragão não comprova, por si só, que houve crime, mas a alegação de uso de assinatura sem autorização precisa ser esclarecida. A sociedade profissional, as operações de alto valor e as investigações em andamento tornam fundamental que os envolvidos apresentem explicações verificáveis e que as autoridades apurem os fatos com rigor e imparcialidade.
A presunção de inocência deve ser respeitada, mas também deve prevalecer o direito da sociedade de conhecer os fatos relevantes, especialmente quando há suspeitas de operações bilionárias e questionamentos sobre a utilização de documentos jurídicos.