No Coração da Capital, Favela do Moinho se Tornou Base Estratégica do PCC, Aponta MP

No Coração da Capital, Favela do Moinho se Tornou Base Estratégica do PCC, Aponta MP

Comunidade no Centro de São Paulo abrigava estrutura de espionagem policial; visita de Lula causou polêmica por ligação da associação local com traficante

A apenas três quilômetros da Catedral da Sé, em pleno centro de São Paulo, a Favela do Moinho era, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), muito mais do que uma comunidade carente. Para o Gaeco — grupo especializado no combate ao crime organizado — o local operava como um verdadeiro centro de comando das ações do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região.

De acordo com investigações, o grupo liderado por Leonardo Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho”, usava a favela como base para instalar rádios clandestinos capazes de interceptar comunicações restritas da Polícia Militar. Com isso, os traficantes conseguiam se antecipar às ações da polícia e fugir de operações.

A polêmica ganhou novos contornos quando veio à tona que integrantes do governo federal, incluindo o ministro Márcio Macêdo, estiveram no local para reuniões com representantes da associação de moradores — presidida pela própria irmã do traficante, Alessandra Moja Cunha. O endereço da entidade já foi, segundo o MP, um dos pontos de armazenamento de drogas do PCC.

Em abril, o Gaeco afirmou em denúncia formal que o Moinho era mais que um ponto de tráfico: funcionava como “quartel-general” do crime, abastecendo a região e coordenando a dominação territorial do PCC. Um dos equipamentos de escuta da facção teria sido instalado no velho silo da comunidade — hoje um prédio degradado, mas que ganhou atenção especial do presidente Lula durante visita no fim de junho.

Ao discursar na favela, Lula defendeu a preservação da torre do antigo moinho, propondo que ela virasse um memorial para homenagear a resistência dos moradores. A ideia, no entanto, contrasta com um laudo do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), que aponta risco estrutural e recomenda sua demolição.

Ainda segundo a denúncia, a estrutura de espionagem do PCC é essencial para o funcionamento do tráfico na região, tornando ineficazes as ações da polícia. O MP afirma que a escuta ilegal do rádio da PM é o que permite que os criminosos continuem atuando com impunidade.

A ocupação da favela, construída em terreno público da União, está em processo de desmobilização pela gestão de Tarcísio de Freitas. O governo estadual quer transformar o espaço em um parque e tem realizado operações para demolir as moradias. Após críticas por violência nessas ações, um acordo com o governo federal estabeleceu que as remoções ocorrerão apenas depois da saída voluntária das famílias, que estão recebendo ajuda de custo que pode chegar a R$ 250 mil.

Mas até isso virou moeda nas mãos do crime: membros do PCC estariam cobrando até R$ 100 mil dos moradores para permitir que deixem a comunidade com segurança após receber o auxílio.

Segundo o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, a operação na região visou desmantelar não apenas os traficantes, mas toda a rede que lavava dinheiro em hotéis e pensões do centro, conectada diretamente ao esquema criminoso da Favela do Moinho.

A visita de Lula à comunidade foi alvo de críticas, mas o Palácio do Planalto defendeu a agenda como legítima, voltada à escuta da população e ao anúncio de políticas públicas. A Secretaria de Comunicação ressaltou que a interlocução ocorreu com representantes escolhidos pela própria comunidade e que não houve nenhum risco à segurança do presidente ou da comitiva.

Em nota oficial, o governo reafirmou seu compromisso com a inclusão social, moradia digna e ações institucionais voltadas à população vulnerável. A segurança do evento, afirmou a Secom, foi conduzida dentro dos protocolos e sem falhas.

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