Novo tarifaço de Trump contra o Brasil entra em vigor e ameaça até € 10 bilhões em exportações

Novo tarifaço de Trump contra o Brasil entra em vigor e ameaça até € 10 bilhões em exportações

Sob justificativa de combater supostas práticas comerciais injustas, governo dos Estados Unidos impõe tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros; Brasília contesta acusações e alerta para impactos sobre indústria, agronegócio e comércio bilateral

A nova rodada de tarifas impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros entrou em vigor na madrugada desta quarta-feira (22), pelo horário de Brasília, abrindo uma nova frente de tensão comercial entre os dois países. A sobretaxa adicional de 25% incide sobre cerca de 3 mil produtos e pode afetar até € 10 bilhões em exportações brasileiras, segundo estimativas de entidades empresariais.

A medida havia sido anunciada pelo governo norte-americano uma semana antes e foi adotada após uma investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. O procedimento, realizado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), analisou práticas brasileiras consideradas, na avaliação de Washington, prejudiciais a empresas, agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores norte-americanos.

Entre os temas apontados pelo governo de Donald Trump estão o comércio digital, os serviços de pagamento, tarifas consideradas desleais, corrupção, propriedade intelectual, produção de etanol e desflorestação ilegal. A lista de acusações também alcança o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, que passou a ser citado pela Casa Branca como um mecanismo que teria prejudicado empresas norte-americanas de cartões de crédito.

Brasil passa a estar entre os países mais taxados pelos Estados Unidos

Com a entrada em vigor da nova tarifa, o Brasil passa a ocupar a segunda posição entre os países mais taxados pelos Estados Unidos, ficando atrás apenas da China. Antes da medida, o país aparecia na 13ª posição no ranking de tarifas aplicadas por Washington.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estima que a nova política comercial atinja aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. Apesar da abrangência da medida, mais de 2.100 produtos permanecerão isentos das sobretaxas.

Entre os itens preservados estão carne, café, petróleo, laranja, suco de laranja e componentes utilizados na fabricação de aeronaves. Esses produtos têm peso relevante na pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos e, por isso, a manutenção das isenções reduz parcialmente o impacto imediato do tarifaço sobre alguns dos principais segmentos do comércio bilateral.

Ainda assim, setores industriais e exportadores afirmam que a nova tarifa representa um agravamento de um cenário já marcado pela perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.

Washington questiona Pix e política ambiental brasileira

Entre as justificativas apresentadas pelo governo dos Estados Unidos está o Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. Na avaliação apresentada por Washington, o crescimento da ferramenta teria afetado empresas norte-americanas que atuam no setor de cartões e pagamentos eletrônicos.

O governo brasileiro contesta essa interpretação. Segundo os dados utilizados por Brasília, as bandeiras norte-americanas de cartões continuaram a crescer no mercado brasileiro mesmo após a expansão do Pix, o que, na avaliação brasileira, enfraqueceria a alegação de que o sistema de pagamentos teria provocado prejuízos às empresas dos Estados Unidos.

A política ambiental também aparece entre os pontos de divergência. O governo norte-americano afirma que a desflorestação ilegal no Brasil permitiria que produtores brasileiros operassem com custos menores e, consequentemente, obtivessem vantagens competitivas sobre agricultores de outros países.

A partir dessa argumentação, o USTR retirou da lista de produtos isentos a celulose de alta pureza, ampliando a pressão sobre a cadeia brasileira de produtos florestais.

O governo brasileiro, por sua vez, rejeita a acusação de que a competitividade das exportações brasileiras esteja baseada na destruição ambiental e afirma dispor de dados que apontam redução dos níveis de desflorestação.

Setor produtivo calcula perdas bilionárias

A nova tarifa provocou preocupação entre empresas e entidades representativas da indústria brasileira. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) estima que mais de € 9,6 bilhões em exportações possam ser afetados pela medida, valor semelhante ao cálculo apresentado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A estimativa do governo brasileiro é menor e aponta impacto de aproximadamente € 5 bilhões.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, a ausência de um acordo entre os dois países não encerra a possibilidade de negociação. Em manifestação oficial, ele afirmou que as conversas se intensificaram nos últimos meses e que a negociação continua sendo o caminho considerado mais eficaz para a retirada das sobretaxas e para a construção de uma agenda bilateral mais ampla.

A posição da entidade sinaliza que, apesar do agravamento das relações comerciais, setores empresariais ainda defendem a manutenção dos canais diplomáticos e econômicos entre Brasília e Washington.

Comércio bilateral já vinha em retração

O novo tarifaço entra em vigor em um momento de enfraquecimento do comércio entre Brasil e Estados Unidos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam queda de 12,8% no comércio bilateral durante o primeiro semestre.

O fluxo comercial do período chegou a € 32 bilhões, com saldo favorável aos Estados Unidos de aproximadamente € 1,3 bilhão.

A retração preocupa os exportadores brasileiros, que temem que a nova rodada de tarifas aprofunde a perda de espaço dos produtos nacionais no mercado norte-americano. A principal preocupação está relacionada à competitividade: com o aumento do custo dos produtos brasileiros, compradores dos Estados Unidos podem buscar fornecedores de outros países que enfrentem tarifas menores.

A CNI afirma que, desde 2025, as vendas de bens industriais brasileiros já recuaram 8,7%. Entre os produtos mais afetados estão semimanufaturados de ferro e aço, ferro, pasta de madeira e óleos de petróleo.

Indústria critica impacto sobre exportações

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) manifestou “profunda preocupação” com a aplicação das novas sobretaxas e atribuiu ao governo Lula responsabilidade pelo agravamento das relações comerciais com Washington.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) também acompanha o cenário com preocupação. O setor direciona cerca de 20% de suas exportações para os Estados Unidos. As vendas brasileiras de máquinas e equipamentos ao mercado norte-americano alcançaram € 2,8 bilhões, enquanto as importações provenientes dos Estados Unidos chegaram a € 4,2 bilhões.

Para a entidade, o aumento das tarifas pode comprometer a presença de fabricantes brasileiros no mercado norte-americano e dificultar a manutenção de contratos e cadeias de fornecimento.

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), outro setor diretamente exposto à medida, classificou a decisão norte-americana como um retrocesso na relação comercial entre os dois países.

O segmento de calçados está entre os mais vulneráveis ao aumento das tarifas porque depende da capacidade de competir em preço com fornecedores de outras regiões do mundo.

Etanol brasileiro também é atingido

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) criticou a aplicação da tarifa adicional sobre o etanol brasileiro.

A entidade afirma que a política comercial brasileira está de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e sustenta que não existe um acordo bilateral que obrigue o Brasil a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol produzido nos Estados Unidos.

A Unica também atribui a redução das exportações norte-americanas de etanol para o Brasil principalmente ao crescimento da produção nacional, especialmente do etanol produzido a partir do milho.

Na avaliação do setor, a queda das importações norte-americanas não seria resultado de uma política discriminatória contra produtores dos Estados Unidos, mas da expansão da oferta brasileira.

Conflito comercial aumenta pressão sobre o governo Lula

O novo tarifaço também amplia a pressão política sobre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Entidades empresariais afirmam que a medida pode gerar perdas para exportadores e reduzir a capacidade de competição da indústria brasileira.

O governo brasileiro, por outro lado, contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos e defende que temas como o Pix, a política ambiental e as regras comerciais brasileiras não podem ser utilizados para justificar medidas consideradas desproporcionais.

A disputa ocorre em um cenário de crescente tensão entre os dois países e pode exigir novas rodadas de negociação diplomática e comercial.

Enquanto Washington sustenta que as tarifas são uma resposta a práticas consideradas injustas, Brasília argumenta que as acusações não correspondem aos dados disponíveis sobre o comércio, o sistema de pagamentos brasileiro e a evolução da desflorestação.

Negociação passa a ser o principal caminho para reduzir os efeitos

Com a entrada em vigor da sobretaxa de 25%, empresas brasileiras passam a enfrentar um cenário de maior incerteza nas exportações para os Estados Unidos. A intensidade do impacto dependerá tanto da capacidade dos exportadores de absorver parte dos custos quanto da possibilidade de redirecionar produtos para outros mercados.

As entidades empresariais defendem a continuidade das negociações entre os dois governos. A avaliação predominante no setor produtivo é que uma solução negociada seria o caminho mais eficaz para reduzir ou retirar as tarifas e preservar o comércio bilateral.

O novo tarifaço, entretanto, já alterou a posição do Brasil no sistema comercial norte-americano. De um país que ocupava a 13ª posição entre os mais taxados, o Brasil passou a estar entre os principais alvos da política tarifária de Donald Trump.

A medida ameaça setores que vão do etanol à indústria de máquinas, passando por papel, celulose, calçados, vestuário e outros produtos manufaturados. Ao mesmo tempo, expõe as divergências entre os dois países sobre comércio digital, políticas ambientais e regras de concorrência.

O resultado é uma nova fase de tensão econômica entre Brasil e Estados Unidos, com bilhões de euros em exportações sob risco e uma disputa que, para além das tarifas, envolve diferentes visões sobre comércio internacional, soberania regulatória e política econômica.

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