
O “delírio democrático” de Cármen Lúcia: quando a ministra já escolhe até a própria cela
Em tom dramático, magistrada afirma que estaria presa se o golpe tivesse avançado — declaração que soa mais como fantasia autoprotetora do que alerta democrático
A ministra Cármen Lúcia resolveu subir o tom e, em plena FliRui, deu uma daquelas declarações que parecem feitas sob medida para manchetes emocionadas. Disse, sem titubear, que “se o golpe tivesse se consumado, eu estava na prisão”. Faltou apenas informar em qual ala imaginária teria reservado vaga, porque o nível de dramatização passou fácil do ponto.
Segundo ela, documentos apreendidos mostrariam orientações para “neutralizar” ministros do STF. A ministra tratou isso como se fosse uma revelação inédita, ignorando que o país já ouviu versões desse enredo inúmeras vezes — sempre com tons apocalípticos, sempre reforçando a narrativa de que o Supremo está à beira de ser derrubado por um inimigo externo que, curiosamente, nunca chega de fato.
No discurso, Cármen Lúcia disse que o golpe não ficou no campo das ideias, que tudo foi planejado, registrado e articulado. Mas o curioso é que, mesmo diante de tanta convicção, a fala acaba soando mais como um exercício de autopreservação institucional do que como um alerta real. A ministra pinta a si mesma como protagonista de um filme político no qual sobreviver é um ato heroico — e não apenas a consequência de uma estrutura de poder que, convenhamos, nunca perdeu o controle da história.
As declarações acontecem justamente na semana em que o STF autorizou o início do cumprimento das penas dos condenados da tentativa de golpe, incluindo Jair Bolsonaro. A ministra, então, reforçou que regimes autoritários “se espalham como ervas daninhas” e que a democracia precisa de “vigilância diária”. O recado é claro: o Supremo está lá, vigilante, protegendo o país — e, claro, protegendo a si mesmo.
Mas, em meio a tantas citações sobre ditaduras, ameaças e neutralizações, fica difícil não perceber um certo exagero. Não há documento que diga em qual presídio Cármen Lúcia estaria. Nem qual cela. Nem se o suposto algoz teria tempo ou meios de realizar tamanha façanha. Parece mais uma narrativa montada para reforçar a aura de guardiã da República do que uma análise concreta da realidade.
A ministra termina lembrando que a democracia depende da sociedade e das instituições. É verdade. Mas também depende de sobriedade — e não de profecias de encarceramento que soam, no mínimo, como uma peça de teatro institucional.
Se o objetivo era inspirar, convenhamos: sobrou drama e faltou senso. Porque, no fim das contas, o único lugar em que Cármen Lúcia esteve “presa” foi dentro do próprio discurso.