
O que realmente muda com o Projeto Antifacção aprovado pela Câmara
Nova lei endurece penas, cria crimes inéditos e amplia investigações — mas ainda depende do Senado e da canetada final de Lula
A Câmara dos Deputados deu sinal verde, por 370 votos a 110, ao chamado Projeto Antifacção, uma proposta que redesenha por completo como o país enfrenta facções, milícias e grupos paramilitares. É um novo marco legal, com regras mais duras, penas maiores e ferramentas adicionais para sufocar o crime organizado.
O texto original veio do governo federal, mas quem comandou a relatoria foi o deputado Guilherme Derrite (PP-SP). A escolha irritou o Planalto e provocou embates acalorados entre governistas e oposição: enquanto a base criticava as mudanças feitas no relatório, opositores cobravam punições mais duras.
A proposta ainda precisa ser aprovada no Senado e, depois, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de virar lei.
🔎 Principais pontos do projeto
1. Quem é alvo da nova lei
O texto abrange organizações criminosas, milícias e grupos paramilitares que atuem com violência. O relator também criou o termo “organização criminosa ultraviolenta”, responsável por receber as punições mais severas.
O governo reclamou que o termo “facções criminosas” ficou de fora e deve tentar recolocá-lo durante a tramitação no Senado.
2. Penas maiores e novos crimes
O projeto prevê:
- 20 a 40 anos de prisão para crimes cometidos por grupos ultraviolentos;
- Inclusão de novos tipos penais, como novo cangaço, domínio territorial, uso de explosivos, armas pesadas, drones e ataques à infraestrutura essencial;
- Agravamento de pena para crimes ligados ao garimpo ilegal;
- Progressão de regime mais difícil.
O relator ampliou significativamente o número de crimes e elevou penas acima do que o governo havia proposto.
3. Progressão de pena mais rígida
A progressão pode exigir:
- 70%,
- 75%,
- 80% ou até
- 85% da pena cumprida, dependendo da gravidade e reincidência.
Hoje, mesmo em crimes hediondos, os percentuais são mais baixos.
4. Fim do voto para presos
O plenário aprovou a proibição do voto para:
- Presos condenados, e
- Presos provisórios.
Foram 349 votos a favor e 40 contra. Hoje, só quem já tem sentença definitiva não pode votar.
5. Líderes de facção vão para presídio federal
Chefes de organizações criminosas deverão cumprir pena em presídios federais de segurança máxima, com o objetivo de cortar comunicação e evitar que continuem comandando crimes de dentro da cadeia.
6. Ampliação das ferramentas de investigação
O texto inclui:
- Monitoramento audiovisual de presos, inclusive conversas com advogados, em casos excepcionais e com autorização judicial;
- Mais buscas, quebra de sigilos, operações encobertas;
- Audiências por videoconferência.
O relator retirou, porém, o trecho do governo que criava proteções especiais para policiais infiltrados.
7. Ataque direto ao patrimônio das facções
O projeto prevê:
- Bloqueio imediato de contas, bens e criptoativos;
- Alienação antecipada de bens ainda na fase de investigação;
- Intervenção judicial em empresas usadas para lavar dinheiro.
Esse foi o ponto mais tenso entre governo e relator. O governo queria garantir mais recursos para a Polícia Federal; Derrite alterou a redação diversas vezes até chegar ao modelo aprovado.
O texto final estabelece que:
- bens apreendidos pela PF irão para o Fundo Nacional de Segurança Pública;
- bens apreendidos em investigações estaduais ficam com o ente responsável pela ação penal.
Principais divergências entre governo e Câmara
💰 Governo teme “descapitalização” da PF
Líderes da base afirmam que o modelo aprovado diminui recursos destinados à Polícia Federal e afeta fundos como o Funad (Fundo Nacional Antidrogas).
❌ Equiparação ao terrorismo foi rejeitada
A oposição tentou incluir, mas o presidente da Câmara, Hugo Motta, barrou. O governo também era contra.
🔐 Atribuições da PF foram preservadas
Versões anteriores enfraqueciam o papel da PF no combate ao crime organizado. O relator recuou e manteve as competências atuais.