
Operação Sintonia de Gravata: investigação revela suposto esquema de advogados que transmitiam ordens de facções criminosas na Bahia
Dez advogados e 12 detentos foram alvos da operação que apura a comunicação clandestina entre líderes presos de facções e integrantes em liberdade; Justiça manteve prisões preventivas de parte dos investigados.
A Operação Sintonia de Gravata, deflagrada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), em conjunto com a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Polícia Civil, Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) e Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), revelou um suposto esquema que permitia a chefes de facções criminosas continuarem comandando atividades ilícitas mesmo dentro de presídios de segurança máxima.
Ao todo, 10 advogados foram presos durante a operação, além do cumprimento de 12 mandados de prisão contra detentos já custodiados. A investigação aponta que alguns profissionais da advocacia teriam utilizado as prerrogativas da profissão para atuar como intermediários entre criminosos presos e integrantes das organizações em liberdade.
Prisões foram realizadas em diversas cidades da Bahia
Os mandados judiciais foram cumpridos nas cidades de:
- Salvador;
- Lauro de Freitas;
- Camaçari;
- Feira de Santana;
- Serrinha;
- Barreiras;
- Marcionílio Souza;
- Eunápolis.
Também foram executados 15 mandados de busca e apreensão, expedidos pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Eunápolis.
Durante as diligências, policiais apreenderam celulares, notebooks, documentos e outros materiais considerados importantes para aprofundar as investigações.
Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados, incluindo:
- ativos financeiros de até R$ 10 milhões;
- imóveis;
- veículos;
- embarcações;
- aeronaves.
Justiça mantém prisões preventivas
Após audiências de custódia, a Justiça converteu em prisão preventiva os mandados contra diversos investigados.
Entre eles estão:
- Izabela da Silva de Oliveira;
- Luã Santos da Costa;
- Maria Mariana Batista de Oliveira;
- Tamires Felix Alves Silva.
Os investigados deixaram as dependências do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e foram encaminhados ao sistema prisional.
Já Fernanda Oliveira Borges e Ícaro Cardoso Viana tiveram audiências conduzidas pela Justiça da comarca de Serrinha.
Quem são os advogados investigados
Segundo as investigações, os advogados atuariam em favor de lideranças de diferentes facções criminosas.
Maria Tereza Novaes Martins
Apontada como advogada de Victor de Freitas Silva, conhecido como “Da Jega”, considerado um dos chefes do Comando Vermelho (CV) em Feira de Santana.
Izabela da Silva de Oliveira
Investigada por atuar em favor de Averaldo Ferreira da Silva Filho, o “Averaldinho”, apontado como uma das lideranças do Bonde do Maluco (BDM), organização com forte atuação em Salvador.
Luan Mascarenhas de Souza
Segundo a investigação, prestava assistência jurídica a Francisleno de Jesus Nunes.
Ícaro Cardoso Viana
É apontado como advogado de:
- Gleidson Bomfim do Nascimento;
- Ademilton Mercês Alves;
- Décio Douglas Silva Oliveira, conhecido como “Vaqueiro”, uma das lideranças do BDM.
Luã Santos da Costa
Investigado por representar:
- Leandro da Conceição Santos Fonseca, conhecido como “Léo Gringo”, apontado como líder do BDM;
- Wesley Willian Alves dos Santos.
Fernanda Oliveira Borges
Segundo o MP, atuava em favor de Marlos Araújo Souza Junior, conhecido como “Bolão”, “CRM” ou “JR”, ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP), com atuação em Senhor do Bonfim.
Tamires Felix Alves Silva
Apontada como defensora de Décio Douglas Silva Oliveira (“Vaqueiro”).
Maria Mariana Batista de Oliveira
Segundo as investigações, atuava em favor de:
- Fábio Santana Oliveira (“Panda”), apontado como liderança do CV em Capim Grosso;
- José Lucas Silva Rocha (“Índio”), integrante do CV em Eunápolis;
- Victor de Freitas Silva (“Da Jega”).
Raiza da Silva
Até o momento, a investigação não detalhou para quais integrantes de facções ela atuaria.
Joanderson Almeida dos Santos
Foi localizado escondido em uma residência em Marcionílio Souza, sendo o décimo advogado preso durante a operação.
Vídeos e gravações reforçam as investigações
Segundo informações divulgadas pelas autoridades, câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório de um presídio de segurança máxima registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, encontros entre advogados e presos.
As imagens mostram supostos diálogos envolvendo:
- compra e venda de armas;
- administração do tráfico de drogas;
- movimentação financeira;
- planejamento de homicídios;
- sequestros;
- cobranças de dívidas;
- transmissão de ordens para integrantes das facções.
De acordo com os investigadores, bilhetes eram escondidos sob as roupas íntimas para escapar da fiscalização penitenciária.
Estrutura criminosa continuava funcionando de dentro dos presídios
Conforme o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), o esquema permitia que chefes presos continuassem comandando:
- tráfico de drogas;
- aquisição e distribuição de armas;
- movimentação financeira;
- resolução de conflitos internos;
- expansão das organizações criminosas.
Segundo o Ministério Público, a estrutura funcionava de forma organizada, hierarquizada e dividida por funções específicas.
Defesa contesta investigação
A Associação dos Advogados Criminalistas da Bahia (AACB), responsável pela defesa das advogadas Tamires Felix Alves Silva e Izabela da Silva de Oliveira, afirmou que ainda não teve acesso integral ao processo.
A entidade declarou preocupação com:
- eventual violação das prerrogativas da advocacia;
- uso prolongado de captação ambiental no parlatório;
- possível quebra do sigilo profissional;
- decretação de prisões preventivas antes da análise completa das provas.
A associação ressaltou que investigação não representa condenação e defendeu o respeito ao contraditório e à ampla defesa.
OAB-BA acompanha o caso
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA) informou que acompanhou toda a operação por meio da Comissão de Prerrogativas.
A presidente da entidade, Daniela Borges, determinou o acesso ao inquérito para análise jurídica.
Caso sejam confirmadas irregularidades, o material será encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED) da OAB-BA, que poderá avaliar eventual suspensão preventiva dos profissionais investigados, conforme prevê o Estatuto da Advocacia.
As investigações seguem em andamento e o processo tramita sob segredo de Justiça. Até o momento, os investigados respondem às acusações na condição de suspeitos, cabendo à Justiça decidir, ao longo da instrução processual, sobre eventual responsabilidade penal de cada um deles.