
Farra do INSS: CPMI ameaça prender presidente da CBPA por mentir em depoimento
Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, acusado de contradições durante a oitiva, é investigado por descontos irregulares em aposentadorias e pode sair da CPMI direto para a prisão.
O clima esquentou na CPMI do INSS nesta segunda-feira (3/11). O presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, foi acusado de mentir e se contradizer durante o depoimento — o suficiente para a comissão cogitar pedir sua prisão preventiva por falso testemunho.
“Se ele continuar a omitir informações, pode sair daqui preso ainda hoje”, avisou o senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI, num tom que deixou o ar da sala mais pesado que rede de pesca cheia.
Antes da sessão começar, Alexandre de Moraes, ministro do STF, já havia concedido a Abraão um habeas corpus garantindo o direito de permanecer em silêncio em tudo que pudesse incriminá-lo. E o sindicalista, que depõe como investigado, preferiu usar esse direito com afinco: ficou calado em boa parte da oitiva e se recusou até a assinar o compromisso de dizer a verdade.
A CBPA está na mira da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal por suspeita de aplicar descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas. Segundo a CGU, a confederação não possui sequer funcionários registrados, mas faturou R$ 41,2 milhões só em 2024, com uma base de 445 mil filiados — um número digno de estatal, não de sindicato.
O caso faz parte da chamada “Farra do INSS”, revelada por uma série de reportagens do Metrópoles desde dezembro de 2023. As investigações mostraram que associações ligadas a servidores e aposentados arrecadaram R$ 2 bilhões em um único ano, muitas vezes com filiações fraudulentas. A pressão pública levou à Operação Sem Desconto, deflagrada em abril pela PF, que acabou derrubando o então presidente do INSS e o ministro da Previdência, Carlos Lupi.
Durante a sessão, Abraão tentou se defender afirmando que a CBPA “existe de verdade” e que seus serviços “são compatíveis com o atendimento de 21 confederações”. Mas as explicações soaram mais como rede furada do que justificativa sólida.
A confederação também é acusada de pedir descontos em benefícios de cerca de 40 mil pessoas já falecidas — um escândalo que beira o macabro. O acordo firmado com o INSS em 2022 previa que a CBPA deveria comunicar os óbitos e devolver valores indevidos. Quando questionado sobre isso, Abraão optou novamente pelo silêncio.
Com longa trajetória política, o sindicalista já comandou o partido Republicanos no Rio Grande do Norte e foi candidato a deputado federal em 2018. Agora, porém, enfrenta uma maré nada favorável — e, ao que tudo indica, pode terminar o dia trocando o paletó pelo uniforme de preso.