Portas giratórias do poder: Vorcaro circulou livremente no Banco Central antes do colapso do Banco Master

Portas giratórias do poder: Vorcaro circulou livremente no Banco Central antes do colapso do Banco Master

Banqueiro fez 17 visitas ao BC em plena crise, passou por áreas sensíveis e manteve reuniões estratégicas enquanto o banco afundava

À medida que o Banco Master se aproximava do abismo financeiro, seu principal dirigente não se afastava do poder — pelo contrário. Daniel Vorcaro, então CEO e dono da instituição, frequentou o Banco Central ao menos 17 vezes ao longo de 2025, somando mais de 34 horas dentro do órgão responsável por fiscalizar o sistema financeiro. Tudo isso antes da liquidação do banco e de sua prisão pela Polícia Federal.

Os registros, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, revelam uma rotina intensa de idas e vindas entre Brasília e São Paulo, sempre em momentos decisivos da crise. Enquanto clientes, investidores e o mercado viam o Master perder fôlego, Vorcaro transitava por setores estratégicos do Banco Central, em encontros que hoje levantam questionamentos inevitáveis.

Agenda cheia em meio ao alerta vermelho

O próprio Banco Central já havia emitido, em novembro de 2024, um alerta formal sobre o risco de liquidez do Master. Ainda assim, em vez de um afastamento cauteloso, o que se viu foi uma aproximação frequente e insistente do banqueiro com a cúpula do regulador ao longo do ano seguinte.

As visitas envolveram a Presidência do BC, a Diretoria de Fiscalização e departamentos técnicos como a Supervisão Bancária e a Coordenação-Geral de Inteligência Financeira. O BC não informou os nomes dos dirigentes que se reuniram com Vorcaro, apenas as áreas que o receberam — um silêncio que, por si só, incomoda.

Datas que falam por si

Em 8 de abril de 2025, Vorcaro esteve no Banco Central de São Paulo no mesmo dia em que o Master foi oficialmente notificado de que as medidas adotadas eram insuficientes para conter o risco de colapso. Àquela altura, o banco já havia deixado de recolher depósitos compulsórios, uma infração grave no sistema financeiro. Mesmo assim, o executivo assinou um termo prometendo recompor a liquidez “imediatamente”.

No dia seguinte, voltou ao BC para nova reunião, agora com a Diretoria de Fiscalização. Até aquele momento, ele já havia passado pelo órgão outras cinco vezes apenas no início do ano, como se a porta estivesse sempre aberta.

Operações suspeitas e investigação criminal

Em julho, a situação se agravou ainda mais. O Banco Central identificou irregularidades na compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB, apontando operações sem lastro financeiro claro, usadas para inflar artificialmente os ativos do banco.

Diante dos indícios, o Ministério Público Federal foi acionado, dando início à investigação que culminaria, meses depois, na prisão de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.

Reuniões no topo, decisões rápidas

Mesmo sob esse ambiente de pressão, Vorcaro voltou a se reunir, em 22 de julho de 2025, com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e com o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino. Dois dias depois, o BC autorizou a transferência do controle do Banco Voiter (atual Banco Pleno) para um sócio do grupo, numa tentativa de reorganizar o conglomerado e viabilizar negócios emergenciais.

A sequência dos fatos escancara um cenário perturbador: quanto mais o Banco Master afundava, mais o seu dono circulava nos corredores do poder regulador.

Um roteiro que exige respostas

O que causa repúdio não é apenas a quantidade de encontros, mas o contexto: alertas ignorados, irregularidades crescentes, operações suspeitas e, ainda assim, acesso frequente ao coração do sistema financeiro brasileiro.

A pergunta que fica é simples e incômoda: até que ponto a proximidade entre regulador e regulado atrasou decisões duras, mas necessárias? No fim, o banco quebrou, o prejuízo se espalhou e a confiança no sistema saiu ainda mais abalada.

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