
Programa de Lula cita “soberania” 31 vezes em meio à crise com Trump e prevê reforço da defesa e segurança
Documento entregue ao TSE para a campanha de reeleição critica qualquer subordinação do Brasil a interesses estrangeiros, menciona Donald Trump e faz referências indiretas a Flávio Bolsonaro
Em meio à crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, o programa de governo apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para disputar a reeleição em 2026 coloca a defesa da soberania nacional no centro da estratégia política. A palavra aparece 31 vezes no documento, que também promete mudanças no modelo de desenvolvimento econômico, investimentos nas Forças Armadas e novas medidas de combate ao crime organizado.
O plano de governo foi apresentado durante o registro da candidatura de Lula e de seu vice, Geraldo Alckmin (PSB). O documento possui 13 eixos e foi elaborado em um momento de forte tensão nas relações internacionais do Brasil, especialmente com os Estados Unidos, sob a Presidência de Donald Trump, e com a Argentina, governada por Javier Milei.
Trump é citado diretamente no programa, em referência ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O texto sustenta que o Brasil deve preservar sua autonomia na definição de políticas econômicas e comerciais e rejeitar qualquer tentativa de subordinação a interesses estrangeiros.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica”, afirma o programa.
Em outro trecho, a plataforma petista critica aqueles que, segundo o documento, aceitariam abrir mão da soberania brasileira em favor de alinhamentos internacionais.
“Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, diz o texto.
A passagem é interpretada como uma referência indireta ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência pela oposição e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O programa de Lula não cita nominalmente Flávio nesse trecho, mas a formulação ocorre em meio à disputa eleitoral e às divergências sobre a relação do Brasil com o governo Trump.
Críticas ao tarifaço dos Estados Unidos
O programa também dedica espaço à política comercial norte-americana. O PT afirma que o governo brasileiro precisou reagir às medidas adotadas pelos Estados Unidos após pelo menos “três ondas” de tarifaço.
Segundo a plataforma, as medidas norte-americanas obrigaram o governo a adotar ações para proteger empresas brasileiras e reduzir os efeitos das barreiras comerciais.
O texto enquadra a política externa e comercial como parte de uma estratégia mais ampla de defesa dos interesses nacionais. Nessa perspectiva, o programa afirma que o Brasil deve buscar desenvolvimento econômico sem estabelecer relações de dependência estratégica com outras potências.
Em um contexto de tensão simultânea com Washington e Buenos Aires, a plataforma afirma que Lula representa a defesa da soberania brasileira e associa essa posição à ideia de autonomia nacional.
O documento afirma que o presidente “encarna, como poucos, a defesa da soberania do Brasil e a esperança teimosa de um povo que não abre mão de seu próprio destino”.
Desenvolvimento econômico e responsabilidade fiscal
Apesar da ênfase na soberania, o programa também estabelece compromissos na área econômica. A plataforma promete dar “um salto” no modelo de desenvolvimento do país, mas afirma que isso será feito mantendo o arcabouço fiscal.
A proposta busca combinar investimentos públicos, expansão da capacidade produtiva e políticas de desenvolvimento com o compromisso de manter as regras fiscais adotadas pelo governo.
O programa foi apresentado em um momento no qual a política econômica e o equilíbrio das contas públicas estão entre os principais temas do debate eleitoral.
Forças Armadas
A defesa nacional também ganhou espaço no plano. O documento prevê aumento dos investimentos nas Forças Armadas, embora o Ministério da Defesa tenha enfrentado, em 2026, cortes e bloqueios de recursos.
O governo tem justificado parte dessas restrições pela necessidade de cumprir as metas fiscais. Ainda assim, a plataforma eleitoral sustenta que o fortalecimento da estrutura de defesa é parte da estratégia de soberania nacional.
A proposta vincula a capacidade de defesa do país à autonomia brasileira diante de pressões externas e à necessidade de preservar os interesses estratégicos nacionais.
Segurança Pública volta ao centro do programa
Na área de segurança, o programa retoma uma proposta que já aparecia no plano apresentado pelo PT em 2022: a criação de um Ministério da Segurança Pública.
A estrutura teria como consequência a retirada da Polícia Federal da atual estrutura do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A proposta, entretanto, não foi implementada durante o atual mandato de Lula e volta a aparecer como promessa para um eventual novo governo.
A segurança pública é apresentada como uma das áreas prioritárias da próxima administração. O programa reconhece a necessidade de ampliar a presença do Estado diante do avanço da criminalidade e das organizações criminosas.
Pacto Nacional de Execução Penal
Caso seja reeleito, Lula promete criar o Pacto Nacional de Execução Penal para o Enfrentamento ao Crime Organizado.
O documento, porém, não apresenta detalhes sobre como o pacto seria implementado, quais órgãos participariam da iniciativa ou quais seriam suas metas específicas.
A plataforma também defende a utilização de câmeras corporais por policiais e a adoção de medidas para ampliar o controle sobre armas e munições.
“O compromisso do governo Lula é proteger a vida, garantir a cidadania e assegurar a presença do Estado onde a violência e o crime organizado tentam impor o medo e controlar territórios”, afirma o programa.
Combate ao crime organizado
Outra proposta é ampliar a capacidade do Estado de atingir financeiramente as organizações criminosas.
O programa prevê o fortalecimento das medidas de asfixia financeira do crime organizado, especialmente após a aprovação da chamada Lei Antifacção.
A estratégia pretende atacar não apenas integrantes das organizações criminosas, mas também seus recursos, estruturas financeiras e mecanismos utilizados para movimentar dinheiro e manter atividades ilegais.
Corrupção e integridade pública
O documento também dedica espaço ao combate à corrupção e à integridade na administração pública.
Em um momento marcado por denúncias de possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos e que provoca repercussões no cenário político, o programa destaca o Plano de Integridade e Combate à Corrupção, desenvolvido pela Controladoria-Geral da União (CGU).
A plataforma, entretanto, não menciona diretamente dois casos que têm provocado repercussão política: o escândalo envolvendo o Banco Master e as investigações sobre desvios de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A ausência dessas referências ocorre apesar de os dois temas terem ocupado espaço relevante no debate político nacional.
Disputa eleitoral e cenário internacional
O programa de governo de Lula foi apresentado em um cenário eleitoral marcado por fortes disputas internas e por uma crescente tensão diplomática.
De um lado, o governo brasileiro enfrenta o endurecimento da política comercial dos Estados Unidos sob Donald Trump, incluindo a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.
De outro, a relação com a Argentina também atravessa um período de crise devido aos ataques públicos de Javier Milei contra Lula e às divergências entre os dois governos.
Nesse ambiente, a palavra “soberania” aparece 31 vezes no documento e funciona como um dos principais conceitos políticos da plataforma apresentada pelo PT.
O programa procura, assim, combinar três frentes centrais para a campanha de Lula: defesa da autonomia brasileira no cenário internacional, retomada do desenvolvimento econômico com manutenção do arcabouço fiscal e reforço das políticas de segurança e combate ao crime organizado.
A proposta será utilizada como referência oficial da candidatura de Lula e Alckmin no processo eleitoral de 2026.