
Quando a Lei Tem Dono: O Judiciário Aplaude Seus Privilégios Enquanto o País Sangra
No palco do CNJ, Moraes volta a defender aumentos e penduricalhos — e mostra, mais uma vez, que a lei serve primeiro aos de cima.
Durante o 19º Encontro Nacional do Poder Judiciário, Alexandre de Moraes — vice-presidente do STF — aproveitou o microfone para defender, sem constrangimento, novos aumentos salariais para juízes e a volta do antigo adicional por tempo de serviço. O auditório, composto justamente por quem se beneficiaria da medida, respondeu com aplausos calorosos.
A cena, para quem observa de fora, mais parece um filme repetido: enquanto a realidade do país aperta, o topo da Justiça comemora novos privilégios como se fossem direitos divinos.
Moraes argumentou que os salários atuais — que, segundo dados citados no próprio evento, chegam à média de R$ 65 mil por mês — precisam subir para evitar a “fuga de talentos” para cargos no Executivo, Legislativo ou consultorias. Para ele, isso não é corporativismo: é “segurança institucional”.
Com isso, tenta transformar um privilégio em necessidade, um benefício em pilar da democracia. E a plateia, claro, aplaude — afinal, é o próprio bolso em jogo.
O ministro também defendeu a volta do adicional por tempo de serviço, extinto em 2006, alegando que existe uma “disparidade injusta” entre servidores antigos e novos. Disparidade, aliás, que para a maioria dos brasileiros significa sobreviver com salários que não pagam nem a cesta básica — mas essa parte não entrou no discurso.
Tudo isso acontece num momento em que a discussão pública tenta, mais uma vez, enfrentar os famosos “penduricalhos” que empurram salários do Judiciário para além do teto constitucional — um teto que, ironicamente, só parece ser de fato rígido para quem está embaixo dele.
Enquanto isso, o país assiste: professores lutando por reajustes mínimos, enfermeiros batalhando para receber piso nacional, servidores de base sendo empurrados para a precariedade… mas, no Judiciário, fala-se em “fortalecer a democracia” aumentando remunerações que já ultrapassam qualquer parâmetro de razoabilidade.
Mais uma demonstração de como a lei funciona: firme, implacável e pesada para os de baixo — mas flexível, generosa e até festiva quando se trata de proteger os interesses de quem a interpreta.
No fim, o recado é claro: quando o assunto é benefício próprio, o Judiciário não conhece crise. A crise é sempre para o resto da população.