Quando criticar vira suspeita: Dallagnol reage e acusa Moraes de abuso de poder

Quando criticar vira suspeita: Dallagnol reage e acusa Moraes de abuso de poder

Ex-procurador leva denúncia à PGR e denuncia uso do inquérito como instrumento de intimidação contra quem ousa falar

Em mais um capítulo que escancara o clima de tensão entre críticas públicas e o poder de investigação, o ex-procurador da República e ex-deputado Deltan Dallagnol protocolou uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O alvo da denúncia é o que Dallagnol classifica como possível abuso de autoridade no uso do chamado inquérito das fake news.

O estopim foi a intimação de Kleber Cabral, presidente da Unafisco Nacional, para depor após fazer críticas públicas a uma operação que envolveu auditores da Receita Federal. Para Dallagnol, o gesto soa menos como apuração legítima e mais como recado velado: quem critica, paga o preço.

Na petição encaminhada à Procuradoria-Geral da República, o ex-deputado sustenta que não há indícios concretos que justifiquem a convocação de Cabral como investigado. O argumento central é duro: usar o aparato estatal para constranger críticos transforma o inquérito em instrumento de medo, não de Justiça.

Dallagnol também pede que sejam analisados detalhes que, segundo ele, não podem ser ignorados — como o intervalo de tempo entre as declarações públicas de Cabral e a decisão que determinou seu depoimento. Para o ex-procurador, essa coincidência temporal reforça a sensação de perseguição institucionalizada.

O episódio ainda resgata um fantasma antigo. Em 2019, auditores fiscais chegaram a ser afastados no mesmo inquérito e depois reintegrados, o que, na visão de críticos, revela excessos que se repetem como um roteiro mal disfarçado. Cabral prestou depoimento por cerca de uma hora e meia à Polícia Federal, por videoconferência, em uma oitiva descrita como “tranquila”, embora cercada de sigilo — um silêncio que, para muitos, fala alto demais.

Em nota oficial, a Unafisco limitou-se a informar que não comentará o conteúdo do depoimento justamente por causa desse sigilo. Mas o debate já escapou das paredes formais. A pergunta que ecoa é simples e incômoda: desde quando criticar autoridades virou indício criminal?

Para Dallagnol, o problema é maior do que um caso isolado. Trata-se de um modelo de atuação que, se normalizado, empurra o país para um terreno perigoso, onde a crítica é tratada como afronta e a discordância, como delito. Quando o medo de falar começa a substituir o direito de questionar, a democracia deixa de sangrar em silêncio — ela passa a ser interrogada.

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